• Nenhum resultado encontrado

PARTE I – Um estágio profissionalizante no jornal Correio do Minho

3. Enquadramento teórico: jornalismo de proximidade

3.2. As funções do jornalismo de proximidade: como a imprensa

Agora que o conceito de jornalismo de proximidade está razoavelmente definido, assim como o conteúdo da sua pauta noticiosa e o tipo de público ao qual ele direciona as suas mensagens, torna-se mais fácil perceber algumas das suas funções. O objetivo deste subcapítulo é refletir acerca do papel do jornalismo de proximidade dentro da sua região para, deste modo, destacar a sua importância como um meio de comunicação.

Para introduzir o debate sobre o papel do jornalismo de proximidade, é importante pontuar algumas das suas funções. Camponez (2002), baseado num trabalho do jornalista francês Michel Mathien, lista algumas funções da imprensa regional. Entre elas, o autor cita as seguintes: servir de elo da comunidade para a qual se comunica, completar a experiência quotidiana dos leitores através da informação sobre a realidade mais próxima, reduzir as incertezas do leitor acerca do ambiente que o rodeia, servir como um banco de dados sobre a região de influência e desempenhar uma função de recreio e de psicoterapia social.

Segundo Bob Franklin (2006), o jornalismo de proximidade oferece comentários críticos e independentes a respeito dos acontecimentos locais e providenciam um meio de discussão para a comunidade debater os problemas da sua região. É importante

começar a refletir desde já acerca deste papel, pois será um tema recorrente ao longo deste subcapítulo.

Feliciano Duarte entende que “o futuro da informação de proximidade está em ser autenticamente regional, assumindo todos os problemas e vivências da respectiva zona de influência geográfica” (Duarte, 2005, p. 110). O autor refere-se ao facto de que a comunicação regional está cada vez mais atenta aos problemas locais, direcionando a pauta das suas notícias maioritariamente aos acontecimentos locais. Afinal, as pessoas que consomem este tipo de notícia querem estar a par dos factos nas suas localidades por estarem mais interessadas no desenvolvimento dos seus concelhos e distritos. Em diversos países, o interesse da população pelas questões próximas aumentou

consideravelmente desde a década de 1990 (García, 2004).

Por isto, é importante entender o agendamento noticioso do jornalismo de proximidade para compreender as funções deste tipo de comunicação na sua região. Saber que um jornal aborda apenas, ou na sua maioria, os acontecimentos de suas localidades, o “ser autenticamente regional” que Duarte diz, significa que ele se encarrega de informar aos seus leitores a respeito dos problemas daquela localidade.

Em complemento ao pensamento de Duarte, é interessante destacar novamente Camponez, numa passagem em que o autor fala sobre o papel do jornalismo de

proximidade para promover o interesse, por parte do seu público, pelas questões sociais da região:

A imprensa local tem, assim, por função manter e promover uma saudável vida

democrática, permitindo a troca de ideias, favorecendo o debate e procurando fazer com que os seus leitores se interessem pelo ambiente que os rodeia, por forma a levá-los a assumir uma atitude participativa do ponto de vista social. (Camponez, 2002, p. 122) Então, sabendo que a pauta noticiosa da comunicação regional está cada vez mais ligada aos problemas e assuntos locais, é possível entender que o jornalismo de proximidade desempenha um papel importante para que os leitores possam tornar-se mais

participativos em relação às suas regiões. Estes meios de comunicação, ao informar sobre os assuntos e problemas locais, têm o poder de despertar o interesse do seu público pelo ambiente que os rodeia, como diz Camponez.

Neste ponto, é interessante pensar na teoria do agenda-setting, desenvolvida por Maxwell McCombs e Donald Shaw na década de 1970, para entender o motivo de as pessoas falarem sobre os assuntos pautados nos jornais regionais e darem importância a estes temas. De acordo com os autores, ao ler uma notícia, uma pessoa aprende não apenas sobre o assunto, mas aprende também quanta importância deve dar ao tema dependendo do seu destaque nos meios de comunicação (McCombs & Shaw, 1972). Refletindo sobre a teoria do agenda-setting no campo do jornalismo de proximidade, dependendo da importância que a comunicação regional dá a determinado

acontecimento ou evento, os seus leitores estão mais sujeitos a se interessarem e a serem mais participativos em relação ao facto.

Este é um dos papéis da comunicação regional, o de levar a informação da sua

localidade aos seus leitores, assim os tornando mais participativos em relação à região. Como afirma Duarte, esta função é única do jornalismo de proximidade, pois noticia os assuntos e problemas regionais que não têm espaço na grande imprensa:

Numa avaliação política do sector, a informação de proximidade é insubstituível porque chega onde a outra informação, a nacional, não chega, aborda e fala dos problemas e das aspirações legítimas das pessoas, atinge extractos socio-económicos esquecidos pela comunicação social nacional. (Duarte, 2005, p. 110)

Como foi visto no fim do subcapítulo anterior, a comunicação a nível nacional dirige-se a um público muito mais amplo. Por isto, o seu conteúdo noticioso é diferente,

abordando temas de ordem nacional e internacional. Portanto, fica como função da comunicação de proximidade chegar onde a nacional não chega, como diz Duarte. Mas para a comunicação regional conseguir desempenhar este papel destacado anteriormente por Camponez e por Duarte, “é necessário que o jornalista ultrapasse a missão de dar as notícias e ajude a melhorar a vida pública, assumindo o papel de observador-participante e actuando com justiça e imparcialidade” (Santos, 2007, p. 47). Isto significa, no plano regional, que o jornalista tem o papel de ajudar a comunidade e o desenvolvimento da região através da informação.

Esta função de apoiar a comunidade e a região, desempenhada pela comunicação local, está ligada ao envolvimento de proximidade existente entre os média locais e o seu público. Para Camponez, a questão da proximidade não existe apenas no sentido de o

conteúdo noticioso ser local, próximo dos leitores. Mas também existe no sentido de o jornal estar mais próximo do leitor, que desempenha um papel mais ativo na vida do jornal.

Recusa-se a ideia de um jornalismo vigilante (cão-de-guarda), em favor do princípio de coesão social e de participação nos problemas da comunidade. Promovem-se formas de participação da comunidade nos media, recorrendo a géneros como a entrevista ou, simplesmente, chamando a própria comunidade a participar, de forma directa, na produção dos conteúdos e, em alguns casos, no financiamento dos projectos. (Camponez, 2002, p. 152)

Existe uma relação de reciprocidade, pois a comunicação de proximidade envolve-se nos problemas da região e o público participa de forma direta na atividade do jornal. Há uma relação mais íntima entre o jornal e a população, o que ajuda a comunicação local a desempenhar o seu papel de despertar, nos seus leitores, um interesse pelos problemas e acontecimentos da região. Para concluir este subcapítulo, é interessante perceber que Camponez, novamente, faz menção ao jornalismo de proximidade como um meio de maior envolvimento nos problemas regionais e promotor da participação comunitária, que são as funções mais significativas do jornalismo de proximidade.

Face a isto, é possível pensar no jornalismo de proximidade também como promotor de diversas formas de cultura, incluindo o desporto. Se a comunicação regional estimula o envolvimento da comunidade com os acontecimentos da região, os eventos culturais e desportivos também estão incluídos neste leque. No seu trabalho sobre comunicação comunitária (a comunicação que está voltada para servir à comunidade), Raquel Paiva considera que este tipo de jornalismo atento à comunidade local “deve estar preocupado em trazer sempre presente em sua programação aspectos e práticas da cultura local, com o objetivo de fortalecê-las, evitando assim que muitas expressões culturais se percam no quotidiano intenso e veloz da civilização atual” (Paiva, 2009, p. 3). Ou seja, a autora entende que a comunicação voltada para a comunidade da região tem a função de promover a cultura local para consolidá-la. Na sua tese de mestrado, Maryline de Almeida (2013) também desenvolve este mesmo tema e afirma ser fundamental que os meios de comunicação social se esforcem para manter os laços de proximidade entre as pessoas e a cultura da região.

Para fazer uma ligação deste tópico com o objeto de investigação deste trabalho, é proveitoso usar como exemplo o caso do Correio do Minho e do seu envolvimento com o futebol distrital de Braga. Ao destacar o Campeonato Pró-Nacional de Braga e torná- lo parte da sua programação noticiosa regularmente, com notícias da competição e crónicas dos jogos todas as semanas, o jornal também está promovendo este evento para os seus leitores. Isto ajuda a fortalecer, como diz Raquel Paiva, o evento desportivo. É um tipo de assunto que interessa à comunicação local por ser relevante ao seu público.

3.3. O desporto no jornalismo de proximidade em Portugal e os