• Nenhum resultado encontrado

1.2 EDUCAÇÃO E PEDAGOGIA: CONCEPÇÃO E CONCEITO

1.2.3 As garantias para os processos inclusivos

Como vimos anteriormente, até a metade do século XX a segregação das pessoas com deficiência era total e a visão do atendimento educacional a estes alunos tinha apenas um caráter clínico. Os ”cuidados” em casa ou em lares-asilos serviam para protegê-los e mantê- los fora do contato com a sociedade, mantendo uma falta de perspectivas educativas e de autonomia.

Convenções e conferências internacionais, além de políticas públicas e legislação nacional, têm exercido grande força na busca da equidade e universalização da educação. Neste contexto, podemos perceber que muitas são as justificativas problematizando e provocando a recusa da inclusão de pessoas com DI, embasadas, através do senso comum, pela falta de estrutura física, tecnológica e, até mesmo, de recursos humanos. Revisitando a obra clássica de Demerval Saviani sobre a “Teoria da curvatura da vara”, no livro Escola e Democracia, podemos fazer uma analogia entre a sua explicação sobre as tensões provocadas para as mudanças e as legislações na perspectiva da inclusão.

Saviani (2008) afirma que a educação deveria ser o instrumento para as escolhas do homem livre, democrático, cidadão e autônomo, mas acabou se tornando mais uma ferramenta de manipulação e de homogeneização do pensamento crítico da sociedade. Para ele, a escola legitima as diferenças sociais e marginalizadas, ao invés de tencionar para ações dos direitos dos seres humanos, e preconiza que o conhecimento deve ser universal e possibilitado a todos. Esse discurso, do início dos anos 80 (oitenta), provavelmente ainda não era permeado por ideias inclusivistas, porém, levantou bandeiras para discussões acerca da exclusão e para a busca e aceitação da diversidade em sala de aula.

Trouxemos as ideias de Saviani na tentativa de argumentar os motivos que levam documentos e legislações a serem considerados radicais em suas disposições e orientações. Ações parciais e gradativas em movimentos de transformações são estratégias a longo prazo, a urgência de uma efetiva prática educativa para pessoa com deficiência é uma necessidade emergente. Acreditamos que o que para muitos pode ser considerado radical, isto é, a

“inclusão total”, seja o que Saviani explica com a Teoria da Curvatura da Vara. Mendes (2006) esclarece as concepções dos “inclusionistas” e dos “inclusionistas totais”.

Os “inclusionistas” acreditam que a capacidade de mudança da classe comum é finita, e mesmo que uma reestruturação ocorra a escola comum não será adequada a todas as crianças, ao passo que os “inclusionistas totais” crêem na possibilidade de reinventar a escola a fim de acomodar todas as dimensões da diversidade da espécie humana. (MENDES, 2006, p. 394).

Saviani relembra esta teoria, utilizada por Lenin12

, para explicar atitudes extremistas e radicais que tomará. Lênin respondia que: quando uma vara está torta, ela fica curva de um lado, ou seja, pendendo para um lado e, para endireitá-la, não basta apenas colocá-la na posição correta, é necessário curvá-la ao contrário, emitindo, assim, uma força contrária ao que está pendendo para um dos lados. As reflexões do livro fazem menção a movimentos pedagógicos, retificam a relação entre a educação e a sociedade e ressaltam a responsabilidade dos professores em transformar não o mundo, mas cada indivíduo presente em sua aula. Desta forma, a diversidade presente entre os alunos gera, consequentemente, uma transformação conceitual de aceitação à diferença.

É inevitável fazer relações entre os pressupostos de Saviani para a formação dos sujeitos na sociedade e a inclusão de pessoas com deficiência em escolas comuns de ensino, bem como compreender os movimentos e políticas públicas de inclusão, citadas como radicais pelo senso comum, como uma alusão da teoria da curvatura da vara. O movimento de inclusão permeia o cunho social da escola. A aceitação e a veiculação das teorias inclusivistas dependem de uma aceitação nas diferentes dimensões que a escola atua, desde os profissionais de educação até familiares de alunos.

Curvar a vara para deixá-la reta significa um movimento contrário à tendência atual nas escolas. A homogeneidade perpetuada em salas de aula, durante os últimos séculos, criou uma barreira para os professores que insistem em não enxergar as diversidades de seus alunos.

Partindo deste ponto de vista, frente às tensões necessárias para a transformação, vejamos,

através dos documentos e legislações, os caminhos que os processos de inclusão de pessoas

com DI percorreram a partir da metade do último século.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1998) veio preconizar os direitos a uma educação de qualidade e ao cuidado clínico, este que passou a ser um tratamento àqueles que o precisassem e, não mais, de maneira generalista ou assistencialista. A partir daí, ações,

12

movimentos e documentos internacionais foram criados na busca de garantir a universalização da educação e a perspectiva da diversidade e respeito às diferenças.

Das conferências e eventos internacionais, destacamos: o Ano Internacional das Pessoas Deficientes (1981); a Década das Nações Unidas para as Pessoas com Deficiência (1983-1992); a Conferência Educação para Todos, realizada pela UNESCO, em Jomtien, Tailândia (1990); a Conferência Mundial da UNESCO sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade (Salamanca, Espanha, 1994), entre outras. A declaração final desta última – denominada de Declaração de Salamanca - afirma que o movimento das escolas inclusivas é o meio mais dinâmico de se alcançar a educação para todos e, consequentemente, uma sociedade de e para todos. Em 1999, na Guatemala, com a Convenção interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas com deficiência, foi elaborado o documento conhecido como Declaração da Guatemala.

Outro documento que merece destaque é a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência13

, de 2006, no qual encontramos a seguinte definição:

Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade com as demais pessoas. (BRASILIA, 2008, p.27).

Durante as duas últimas décadas o Brasil promoveu e fomentou, através do Ministério da Educação (MEC) e suas Secretarias, a educação na perspectiva da educação inclusiva, demonstrando a busca pela eliminação de barreiras por meio de leis, decretos e portarias que auxiliaram a efetivação do ingresso de pessoas com deficiência em escolas comuns de ensino.

Visando acolher alunos com deficiência em escolas comuns, o Ministério da Educação do Brasil (MEC) procura, através de uma série de normativas, viabilizar um atendimento diferenciado para as pessoas com deficiência. A implantação do Atendimento Educacional Especializado (AEE) paralelo à escolarização em classes comuns de escolas do ensino regular e em centro especializado, homologado pela resolução CNE/CEB n° 4/2009, garante, nas escolas públicas, um atendimento diferenciado, com profissionais especializados e salas de recursos multifuncionais. O AEE tem função complementar e suplementar a escolarização do aluno e deve ser realizado no turno contrário à escola, oferecido,

13 Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, homologada pela Assembleia das Nações Unidas

prioritariamente, em sala de recurso multifuncional na própria escola ou em centros educativos especializados. A resolução CNE/CEB n° 4/2009 define que:

Art. 4º Para fins destas Diretrizes, considera-se público-alvo do AEE:

I – Alunos com deficiência: aqueles que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual, mental ou sensorial.

II – Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: aqueles que presentam um quadro de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento nas relações sociais, na comunicação ou estereotipias motoras. Incluem-se nessa definição alunos com autismo clássico, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância (psicoses) e transtornos invasivos sem outra especificação.

III – Alunos com altas habilidades/superdotação: aqueles que apresentam um potencial elevado e grande envolvimento com as áreas do conhecimento humano, isoladas ou combinadas: intelectual, liderança, psicomotora, artes e criatividade. (CNE/CEB, 2009).

O AEE não deve ser um atendimento exclusivamente destinado ao deficiente, trata- se de um serviço a ser oferecido às pessoas com necessidades e condições diferentes nos processos de aprendizagem. As pessoas com altas habilidades/superdotação também precisam de um olhar diferenciado para o pleno desenvolvimento de seu potencial. Apesar de a educação especial ser a modalidade responsável pelo atendimento de alunos com altas habilidades/superdotação, apenas com a introdução do AEE esse tipo de serviço está sendo revisto e considerado de forma mais vigorosa.

O aluno com deficiência, seja por motivos físicos, sensoriais ou intelectuais, tem garantido por lei adaptações curriculares, além de processos de avaliação que promovam a construção e aquisição de conhecimentos, superando a avaliação classificatória, ainda presente em muitas escolas. Na concepção atual de inclusão, o direito a uma prática diversificada, que preconiza o respeito à diversidade da sala de aula, não se restringe apenas ao aluno com deficiência.

Inclusão de alunos com DI é um dos paradigmas da educação especial. Nesse sentido, é necessária a criação de diretrizes que apoiem o trabalho do educador especial e dos professores com alunos incluídos em suas salas de aula.

Dentre estas deliberações estão às normativas e orientações legais acerca da educação especial em nível municipal. O Conselho Municipal de Educação de Caxias do Sul (CME) é o setor responsável pelas deliberações que regem o sistema de ensino do Município. Partindo da orientação legal para a implantação dos serviços do AEE em todos os níveis e modalidades de ensino, surge a demanda de referencial e argumento teórico para subsidiar essas ações, legisladas nas instâncias da União, Estado e Município. Nesse contexto, situa-se a

Resolução CNE/CEB nº 04/2009 que normatiza as ações para o AEE, já orientado no decreto nº 6.571, de 17 de setembro de 2008. Nessa mesma perspectiva, o Parecer CEED/RS n° 251/10 trata dessas normatizações a nível estadual e a nível municipal e a Resolução CME Nº 019, de 31 de agosto de 2010, dispõe sobre as diretrizes para a Educação Especial no Sistema Municipal de Ensino.

Das diretrizes e legislações divulgadas a partir dos anos 90 (noventa), é possível destacar a preocupação em promover a quebra das barreiras que impossibilitam a plena participação da pessoa com deficiência nos meios sociais, de trabalho e de educação. O próprio CME, preocupado com a demanda em articular as diretrizes legais dos processos de inclusão e do AEE, apresenta, na Resolução Nº 19/2010, um texto com base em direitos, fundamentado a partir de legislações e documentos vigentes:

O Conselho Municipal de Educação do Município de Caxias do Sul, com fundamento no inciso III do artigo 11 e nos artigos 58 a 60 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN, Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996; artigo 205, no inciso I do artigo 206 e incisos III e V do artigo 208 da constituição Federal; nos Decretos Federais nº 3.298/99, nº 3.956/01, nº 5.296/05, nº 6.094/07, nº 6.571/08; no Parecer CNE/CEB nº 17/01; na Resolução CNE/CEB nº 02/01; na Declaração Mundial de Educação para Todos (1990); na Declaração de Salamanca (1994); na Declaração da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006); no documento elaborado pelo grupo de trabalho nomeado pela Portaria do MEC nº 555/2007, relativamente à Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008); no Parecer CNE/CEB nº 13/2009; na Resolução CNE/CEB nº 04/2009; na Nota Técnica SEESP/GAB/Nº 09/2010; na Nota Técnica SEESP/GAB/Nº 11/2010 e nas Leis Municipais nºs 5.747/2001 e 6.403/2005. (CAXIAS DO SUL, CME, 2010).

Na própria introdução da resolução Nº19/2010, do CME, que traz a relação dos documentos supracitados, podemos considerar a preocupação em fundamentar suas disposições em um embasamento de direitos, ou seja, estabelecendo uma proposição ao Modelo Social baseado em direitos para a pessoa com deficiência. As orientações encontradas neste documento seguem as bases legais nacionais e internacionais e, por sua vez, direcionam sua aplicabilidade em nível municipal.

Os referidos documentos não fazem menção a referenciais teóricos, porém, sabemos que todos os princípios que regem as orientações legais são dotados de ideais e de demandas necessárias para estas disposições. Partindo das informações levantadas em documentos acerca dos direitos da pessoa com deficiência, parece coerente que se faça uma contextualização dos Modelos Teóricos, assumidos pelas sociedades na busca de melhor atender as necessidades das pessoas com deficiência.