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Capítulo II - As garantias em processo de execução cível

4.2 As garantias pessoais: fiança e subfiança

Através das garantias pessoais, os terceiros garantem com os seus patrimónios dívidas

alheias. São as seguintes: A Fiança; A Subfiança e O Mandato de Crédito

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A fiança carateriza-se pelo fato de um terceiro assegurar com o seu património o

cumprimento de obrigação alheia, ficando pessoalmente obrigado perante o respetivo credor (art.

627.º, n.º 1, do CC). Essa responsabilização abrange, em princípio, todo o património do fiador,

embora possa limitar-se a alguns dos bens que o integram, mediante a aplicação do art.º 602.º do

CC.

Precisa a lei no art.º 634.º do CC que a fiança tem o conteúdo da obrigação principal e

cobre as consequências legais e contratuais da mora ou da culpa do devedor. Daqui se conclui,

portanto, que a responsabilidade do fiador, salvo estipulação em contrário (art.º 631.º, n.º 1 do

CC), se molda pelo devedor principal e abrange tudo aquilo a que ele está obrigado: não só a

prestação da dívida, mas também à reparação dos danos resultantes do incumprimento culposo

(art.º 798.º do CC) ou a pena convencional que porventura se haja estabelecido (art.º 810.º do

CC).

Esta garantia em regra é livremente acordada pelas partes. A fiança constitui um negócio

gratuito, mas nada obsta a que se apresente como onerosa. A figura da fiança apresenta

especialmente grandes vantagens para o comércio jurídico, no que concerne a respeito da

concessão de crédito, no entanto também apresenta, não raras vezes, inconvenientes em relação

ao garante. A fiança convencional para que possa ser válida tem que obedecer a determinados

requisitos. Uma vez que a fiança resulta normalmente de negócio jurídico, a sua constituição

está subordinada, em princípio, a todos os correspondentes requisitos de validade. Mas, para

além destes, existem algumas determinações específicas da lei, designadamente:

São requisitos da fiança - a vontade de prestar fiança deve ser expressamente declarada

pela forma exigida para a obrigação principal, (art.º 628.º, n.º 1 do CC) impõe-se, assim, a

declaração expressa do fiador (art.º 217.º, n.º 1 do CC); a validade da fiança não depende do

consentimento ou até do conhecimento do devedor, pois pode, ser prestada contra a vontade

97Nos termos do art.º 629.º, do Código Civil, está previsto o Mandato de Crédito, o qual consiste em alguém encarregar outrem a conceder crédito a um terceiro, em nome e por conta do encarregado, no caso, desse encargo ser aceite, fica vinculado como fiador. Ou seja, o mandante (mutuário) responde como fiador do terceiro perante o mandatário (mutuante).

No entanto, ressalve-se que no regime do mandato de crédito, quem tem que prestar a garantia é o fiador, visto que aqui a fiança tem como fonte direta a lei e não a vontade declarada das partes nesse sentido (art.º 629.º, n.º 1, do Código Civil).

O autor do encargo tem a suscetibilidade de revogar o mandato enquanto o crédito não for concedido, mas no caso, do crédito já ter sido concedido o autor do encargo tem ainda a possibilidade de denunciar o mandato de crédito, responsabilizando-se pelos danos que haja causado, segundo o disposto do art.º 629.º, n.º 2 do Código Civil.

De acordo com n.º 3 do mesmo normativo legal, verificamos que após o encarregado aceitar o encargo, tem este a suscetibilidade de licitamente não facultar o crédito, se a situação patrimonial do terceiro e a do autor do encargo colocarem em risco o seu futuro direito

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deste (art.º 628.º, n.º 2 do CC). Esta solução vale também a respeito de qualquer fiador

porventura existente (compreende-se que o credor tenha a faculdade de aceitar as garantias que

bem entenda, de resto o devedor poderá sempre cumprir a obrigação, caso não queira sujeitar-se

aos eventuais direitos do fiador) e exige-se a validade da obrigação garantida (art.º 632.º n.º1 do

CC), podendo a fiança recair sobre quaisquer obrigações validamente constituídas, tanto

presentes como futuras ou condicionais (art.º 628.º, n.º 2 do CC).

Relativamente aos requisitos fiador de acordo com o art.º 633.º, n.º 1, do CC, exigem-se

os requisitos da capacidade e da idoneidade patrimonial ao fiador, pois este tem que demonstrar

que tem bens suficientes para garantir a obrigação. O credor pode também exigir o reforço da

fiança, desde que o fiador mude de fortuna de maneira a que haja risco de insolvência ou

quando o devedor não ofereça outra garantia idónea no prazo assinalado pelo tribunal, pode o

credor exigir o cumprimento imediato da obrigação.

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Quanto à extinção da fiança, por força do princípio da acessoriedade, a fiança extingue-se

quando se extinguir a obrigação principal (art.º 651.º do CC). Trata-se de uma solução óbvia,

uma vez que, se a função da obrigação do fiador é assegurar o cumprimento pelo devedor da sua

obrigação, naturalmente que a fiança fica sem objeto, a partir do momento em que se extinga a

obrigação principal, devendo consequentemente extinguir-se também.

No entanto, a lei admite ainda a possibilidade de se extinguir a obrigação do fiador por

certas causas referentes ao credor. Assim, se a obrigação principal for a prazo e o fiador gozar

do beneficio da excussão pode exigir, vencida a obrigação, que o credor proceda contra o

devedor no prazo de dois meses, a contar do vencimento, sob pena da fiança caducar, não

terminando, no entanto, esse prazo sem que tenha decorrido um mês sobre a notificação (art.º

652.º, n.º 1 do CC). Se a obrigação principal for pura, o fiador que goza do benefício da

excussão tem a possibilidade, sob a mesma cominação, de exigir a interpelação do devedor, a

partir do momento em que haja decorrido mais de um ano sobre a assunção de fiança (art.º 652.º,

n.º 2, do CC). Com a atribuição dessa faculdade, a lei pretende evitar que, tendo o fiador a

possibilidade de obter a excussão do património do devedor, possa ver no futuro prejudicada

essa possibilidade pela inação do credor em proceder atempadamente contra o devedor.

Para além disso, alei prevê ainda que o fiador fique exonerado pelo facto de, em virtude

da conduta do credor, ter perdido a possibilidade de sub-rogação nos direitos do credor contra o

devedor, ocorrendo essa exoneração mesmo que se verifique a solidariedade entre fiadores (art.º

653.º do CC).

Efetivamente, também neste caso, a conduta do credor (ativa ou omissiva), vem

traduzir-se num prejuízo para o exercício dos direitos do fiador, situação que alei considera incompatível

com a manutenção da obrigação de fiança. Se, no entanto, a impossibilidade de sub-rogação for

98 De acordo com o disposto nos artigos 633.º, n.os 2 e 3, 780.º do CC, (ex - art.º 997.º do antigo CPC, que previa o reforço ou substituição da fiança, em que o devedor era citado para oferecer novo fiador ou outra garantia idónea).

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apenas parcial, a fiança não se extingue, ocorrendo apenas a redução da obrigação do fiador.

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Por último, a fiança pode ainda extinguir-se se surgir em relação a ela qualquer causa

geral de extinção das obrigações, independentemente da subsistência ou não da obrigação

principal (por exemplo, a fiança pode prescrever sem que se verifique a prescrição da obrigação

principal, em virtude da ineficácia em relação ao fiador da suspensão e interrupção da obrigação

principal, conforme o art.º 636.º do Código Civil).

Uma causa geral de extinção muito comum no âmbito da fiança é a caducidade por

decurso do prazo. Efetivamente, se o fiador se obrigar apenas durante certo prazo, a fiança

caduca quando o prazo chega ao termo. A lei tem, aliás, o cuidado de instruir prazos supletivos

para a obrigação do fiador em dois casos: a fiança para garantia de obrigação futura (art.º 654.º

do CC) e a fiança para garantia das obrigações do locatário (art.º 655.º do CC).

No caso da fiança para garantia da obrigação futura, além de se admitir ao fiador,

enquanto a obrigação não se constituir, a possibilidade de se liberar a garantia se a situação

patrimonial do devedor se agravar em termos de por em risco os seus direitos contra este,

admite-se também que essa liberação ocorra se tiverem decorridos cinco anos sobre a prestação

de fiança, quando outro prazo não resulte de convenção (art.º 654.º do CC).

No caso de fiança para garantia das obrigações do locatário, prevê-se que ela deva

abranger apenas o período inicial do contrato (art.º 655.º, n.º 1 do CC), não abrangendo por isso

as suas renovações.

Se, no entanto, o fiador se obrigar em relação aos períodos de renovação, a fiança

extingue-se, na falta de nova convenção, logo que haja alteração da renda ou decorrido o prazo

de cinco anos sobre o início da primeira prorrogação (art.º 655.º, n.º 2, do CC).

No que concerne, à subfiançadeclara a lei que sub-fiador é aquele que afiança o fiador

perante o credor (art.º 630.º do CC). A sub-fiança – denominada abonação no antigo Código

Civil (art.º 827.º) – verifica-se portanto, sempre que alguém garante pessoalmente ao credor o

cumprimento da obrigação do fiador. Consiste na fiança de uma fiança: a obrigação do

sub-fiador está para a do sub-fiador, como a deste para a dívida principal.

Daí que a fiança apresente os carateres jurídicos da fiança e se encontre sujeita à mesma

disciplina, com as necessárias adaptações.

Exceto quando algum preceito legal ou as partes estabeleçam coisa diversa (outra

hipótese especial de fiança é a retro fiança, que se analisa na fiança do direito do fiador

sub-rogado nos direitos do credor (arts.º 592.º e 644.º do CC).

O sub-fiador goza, designadamente, do benefício da excussão, quer em relação ao fiador,

quer em relação ao devedor principal (art.º 643.º do CC).

Por outro lado, havendo pluralidade de fiadores e se algum deles tiver sub-fiador, este não

responde, perante os outros fiadores pela quota do seu afiançado que se mostre insolvente, salvo

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se o contrário resultar do ato da subfiança (art.º 650.º do CC). Tal solução legislativa assenta na

ideia de que o sub-fiador apenas garante o fiador em relação ao credor e não relativamente aos

demais fiadores.