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As grafias não-convencionais e os dados de fala: as classes gramaticais

transcrição fonética e hipercorreção

3.2. As grafias não-convencionais e os dados de fala: as classes gramaticais

Ampliando a investigação da relação entre os dados de fala e os dados de escrita, consideramos relevante observar a relação entre os dados em contexto de alçamento variável e a classe gramatical (verbos e não-verbos) das palavras que apresentam esse contexto.

Partimos, em um estudo preliminar (TENANI; REIS, 2009), do fato de que as pesquisas realizadas a respeito do dialeto falado em São José do Rio Preto (SILVEIRA, 2008; CARMO, 2009) mostraram que as vogais pretônicas coronais e dorsais apresentavam comportamento diverso a depender da classe gramatical. Verificou-se, por exemplo, que na variedade rio-pretense a harmonização vocálica é o processo que motiva o alçamento vocálico das vogais pretônicas nos verbos (CARMO, 2009), enquanto que a redução vocálica parece atuar nos não-verbos – substantivos e adjetivos (SILVEIRA, 2008). Com base nos números apresentados nas tabelas 5 e 6, pode-se observar que a redução vocálica explica todos os dados de grafias não-convencionais do corpus, na medida em que o número de dados que podem ser explicados pela redução vocálica é igual ao total de dados, quer para verbos, quer para não-verbos (Cf. quadros 4 e 5, anexo C). A harmonização vocálica, no entanto, explica um pouco mais da metade dos dados. Tratando especificamente dos dados de grafias não-convencionais em não-verbos, encontramos os seguintes resultados:

Tabela 5. Distribuição dos dados de acordo com o processo envolvido para os não-verbos Harmonização Redução Total

Transcrição fonética <i, u> 23 50 50

Silveira (2008, p.122) aponta que “apesar dos casos relacionados à harmonia entre vogais, o fenômeno que parece melhor explicar o alteamento das vogais é o de redução vocálica, a partir do que pontua Abaurre-Gnerre (1981)”. Desse modo, nota-se na tabela 5 que, para os não-verbos, o processo de redução vocálica pode ser considerado como o principal motivo do alçamento tanto nos dados de fala, quanto nos dados de escrita – seja de grafias não-convencionais por transcrição fonética, seja por hipercorreção –, visto que pode explicar todos os dados. Quanto aos dados de grafias não-convencionais de verbos, na tabela 6, é possível observar sua distribuição de acordo com o processo fonológico envolvido.

Tabela 6. Distribuição dos dados de acordo com o processo envolvido para os verbos Harmonização Redução Total

Transcrição fonética <i, u> 35 37 37

Hipercorreção <e, o> 10 32 32

Com relação aos verbos, Carmo (2009, p. 97-98) aponta que a principal motivação para o alçamento na fala é a harmonização vocálica, fato especialmente motivado pelos verbos de terceira conjugação, que carregam a vogal alta /i/ em suas desinências. Com relação aos dados de escrita, notam-se diferentes explicações, a depender do tipo de grafia não-convencional. Quanto aos dados de transcrição fonética, há apenas dois dados – as ocorrências “muntei” e “munto(u)” – cujas grafias não-convencionais não podem ter sido decorrentes de harmonia vocálica, na medida em que não há vogal alta na sílaba seguinte. Essas ocorrências do verbo “montar” podem estar relacionadas ao fato de, na variedade do noroeste paulista, esse verbo ter duas realizações possíveis: “m[o]ntar” e “m[u]ntar”, dependendo dos significados veiculados. Quando “m[o]ntar” – verbo transitivo direto –, o significado é “juntar as diversas partes de algo”27; quando “m[u]ntar” – verbo transitivo

27

Acepção 11 do verbete “montar”, no dicionário eletrônico Houaiss 3.0, de junho de 2009: 11 t.d. juntar (as diversas partes de algo); encaixar, engastar <m. um quebra-cabeça>

indireto –, o significado é “subir em alguma coisa, como em um cavalo”.28 No corpus, as duas ocorrências do verbo “montar” têm o significado de “montar a cavalo”, ou seja, contexto em que, provavelmente, na variedade falada, a realização seria “m[u]ntar”. Portanto, para além de ser uma escrita baseada no falado, as grafias de “muntei” e “munto(u)” também são motivadas pelo fato de o verbo “montar” ser polissêmico e a cada um dos significados estarem associadas realizações alternativas. Quanto aos dados de hipercorreção, no entanto, a maioria não pode ter sua motivação no processo de harmonia vocálica. Sendo assim, consideramos que, também para os verbos, é a redução vocálica que melhor explica as ocorrências encontradas de modo geral.

Ainda sobre a relação entre os dados de fala e de escrita, no que diz respeito às classes gramaticais, observou-se como se dá essa relação quanto à qualidade da vogal: se coronal, na escrita representado por <e> e por <i>; se dorsal, na escrita, <o> e <u>. De acordo com o apresentado por Silveira (2008) e Carmo (2009), há maior recorrência de alçamento da vogal média /e/, que da vogal média /o/. Semelhantes resultados foram encontrados nos dados de escrita, conforme apresentado na tabela 7.

Tabela 7. Distribuição dos dados por tipo de grafia não-convencional, qualidade da vogal e classe gramatical

Coronais Dorsais Total

Transcrição fonética Hipercorreção Transcrição fonética Hipercorreção

Verbos 19 23 18 9 69 (41,8%) Não-verbos 20 47 22 7 96 (58,2%) Total 39 70 40 16 165 (100%) Nota-se, portanto, certa aproximação entre o resultado do alçamento das vogais médias na fala e as ocorrências de grafias não-convencionais do corpus, de modo que tanto

28

Acepção 3 do verbete “montar”, no dicionário eletrônico Houaiss 3.0 (2009): 3 t.i.bit. e pron. colocar(-se) em cima de (cavalgadura, motocicleta etc.) <só queria m. em animais ariscos> <montou a criança num pônei> <montou-se rapidamente, acelerou a moto e partiu>

para os verbos – 19 ocorrências de transcrição fonética e 23 de hipercorreção –, quanto para os não-verbos – 20 ocorrências de transcrição fonética e 47 de hipercorreção –, há mais recorrência de grafias não-convencionais na escrita das coronais do que das dorsais. Essa relação indica que a variação linguística constatada na realização das vogais pretônicas levaria a dúvidas quanto ao modo convencional de empregar <e, i, o, u>: a maior variação na realização de /e/, em relação a /o/, pode ter resultado em número maior de grafias não-convencionais de <e, i> em relação a <o, u>.

Quanto à distribuição dos tipos de grafias não-convencionais consideradas, verificou-se nos dados que, para as vogais coronais, há, no caso dos verbos, mais grafias não-convencionais por transcrição fonética – substituição de <e> por <i>, como em “pidir” –,

enquanto há para os não-verbos mais ocorrências de hipercorreção – substituição de <i> por

<e>, como em “premeiro”. Entre as vogais dorsais, pode-se notar que tanto para os verbos – 18 de 27 ocorrências –, quanto para os não-verbos – 22 de 29 ocorrências – predominam as grafias não-convencionais por transcrição fonética – como “pudia” (verbo) e “cumida”

(não-verbo). Portanto, quando considerada a relação entre o tipo de grafia não-convencional e a classe gramatical, observa-se que, na grafia das vogais coronais, há a tendência de haver mais casos de hipercorreção para os não-verbos, e mais de transcrição fonética para os verbos; na grafia das vogais dorsais, por sua vez, há mais casos de transcrição fonética, independentemente da classe da palavra grafada. Com base nesses resultados, constata-se diferença quanto às dificuldades com relação à grafia de <e, i>, de um lado, e de <o, u> de outro, sobretudo quando se observam as classes gramaticais.

No que diz respeito à distribuição de grafias não-convencionais por classe gramatical, não foi observada diferença considerável entre verbos e não-verbos, de modo que os dados apresentaram pequeno predomínio dos não-verbos, com 58,2% do total. A expectativa inicial

não confirmada era a de que houvesse maior número de grafias não-convencionais de verbos, devido à metafonia verbal que ocorre na segunda e terceira conjugação – como em “consegui” e “consigo” e em “durmo” e “dorme”. Diante da especificidade dessa classe gramatical, ainda que a hipótese inicial não tivesse sido confirmada, focamos nosso olhar nas formas verbais dessas grafias não previstas pela ortografia, distribuindo os dados pelas três conjugações verbais, conforme apresentado na tabela 8.

Tabela 8. Distribuição dos dados de verbos por conjugação

Número Número/total

1ª conjugação 24 34,8%

2ª conjugação 14 20,3%

3 ª conjugação 31 44,9%

Total 69 100%

A hipótese de que a metafonia verbal pudesse levar a dúvidas nos escreventes, resultando em grafia não-convencional, como se observa na Tabela 8, foi confirmada, posto que a maior parte dessas grafias em formas verbais diz respeito aos verbos de segunda (20,3%) e terceira (44,9%) conjugações, com 65,2%. Considerando apenas essas ocorrências de grafia não-convencional e observando as possibilidades de grafemas vogais que podem compor o radical desses verbos em outros tempos verbais, chegamos ao seguinte quadro:

Grafias não-convencionais Grafemas possíveis no radical Exemplos conjugação

desseram <i> “disse” (3ª p. s. pres. indic.) poder (puder) podessem pudia pudia pudia pudiam

<o>, <u> “pode” (3ªp. s. pres. indic.) “pude” (1ªp. s. pret. perf. indic.)

queser quezer quiria quiria

<e>, <i> “quero” (1ªp. s. pres. indic.) “quis” (1ª e 3ª p. s. pret. perf. indic.)

vevendo vever veveram

conjugação conciguiram consiguio consiguio consiguir consiguir consiguir consiguirei

<e>, <i> “consegue” (3ª p. s. pres. indic.) “consigo” (1ª p. s. pres. indic.)

decedi <i> “decido” (1ª p. s. pres. indic.) descubri

descubri descubrir descubrir descubriu

<o>, <u> “descobri” (1ª p. s. pret. perf. indic.) “descubro” (1ª p. s. pres. indic.)

desestiu <i> “desisto” (1ª p. s. pres. indic.) devertindo

devertiu

<i> “divertiu” (3ª p. s. pret. perf. Indic.) dicidiu

disidiu

<e> “decidiu” (3ª p. s. pret. perf. Indic.) dumir

durmimos durmir durmir

<o>, <u> “dormia” (1ª e 3ª p. s. pret. imperf. indic.)

fogindo fogir fogiu

<o>, <u> “foge” (3ª p. s. pres. indic.) “fujo” (1ª p. s. pres. indic.) persigui-los <e>, <i> “persegue” (3ª p. s. pres. indic.)

“persigo” (1ª p. s. pres. indic.) pidir <e> “peço” (1ª p. s. pres. indic.) sigir

siguio

<e>, <i> “segue” (3ª p. s. pres. indic.) “sigo” (1ª p. s. pres. indic.) sobi(subi) <o>, <u> “sobe” (3ª p. s. pres. indic.)

“subo” (1ª p. s. pres. indic.) vistiu <e>, <i> “veste” (1ª p. s. pres. indic.)

“visto” (1ª p. s. pres. indic.)

Quadro 2 - Possibilidades de registros gráficos das vogais nos verbos29

Conforme se observa no quadro 2, dos 17 verbos que tiveram alguma ocorrência de grafia não-convencional, 10 resultaram da escolha do escrevente por uma das vogais variantes do radical do verbo; no entanto, a escolha não foi de acordo com o previsto pela ortografia (considerando-se tempo e modo verbal). É importante ressaltar que essa metafonia vocálica

29

A escolha dos exemplos se deu de modo aleatório e teve como objetivo exemplificar, com, ao menos, uma forma verbal, as possibilidades de ortografia da vogal do radical dos verbos que foram grafados de modo não-convencional no corpus.

no radical do verbo pode ser constatada tanto na fala quanto na escrita. Tomando como exemplo o verbo “conseguir”, na variedade rio-pretense, há realização variante em “cons[e]guia” e “cons[i]guia” (1a/3a p. sing. pret. imperf. indic.) e realização categórica de “cons[i]guiu” (3a p. sing. pret. perf. indic.)30. Por outro lado, o mesmo verbo, na ortografia, pode ter a vogal grafada com <i>, como em “consigo” (1a p. sing. pres. indic.) ou com <e>, como em “conseguimos” (1a p. pl. pres. indic.). Ou seja, a vogal do radical dos verbos é passível de variação tanto na fala, quanto na escrita. No entanto, na fala, pode haver variação na realização de uma mesma forma verbal, enquanto, na escrita, a variação apresenta-se entre diferentes tempos e pessoas verbais. Essa variação possível tanto na fala, quanto na escrita pode, pois, explicar o maior número de grafias não-convencionais para verbos da segunda e da terceira conjugação.

3.3. As grafias não-convencionais e as tendências da