CAPÍTULO II – TRADIÇÃO E ERUDIÇÃO
3.2. As obras do regime
3.2.1. As grandes obras públicas
3.2.1. As grandes obras públicas
A realidade do país até ao golpe de 28 de maio de 1926 chegara, segundo os responsáveis pela nova situação, ao grau zero, tendo estes, cunhado as frases correspondentes: o zero financeiro, o zero naval, o zero
portuário, o zero rodoviário e o zero pedagógico. A partir de 1935, pode
afirmar-se, que a economia portuguesa se desenvolve sob o signo do planeamento. Naquele ano é publicado um diploma – lei 1914 – que tem em vista a “reconstituição económica” do país. Este planeamento compreendia a reforma geral do Exército e seu armamento, e a restauração da Marinha de Guerra; o plano abrangerá os caminhos-de-ferro, estradas, aeroportos, portos comerciais e de pesca, redes telegráfica e telefónica, rede elétrica nacional, hidráulica agrícola, irrigação e povoamento interior, escolas e serviços do Estado e reparação de monumentos nacionais. Para a concretiza ção deste projeto é empreendida – logo que financeiramente possível – uma vigorosa política de obras públicas que procura reparar velhas estruturas, renovar ou adaptar outras, criar o que não existia, e ir ao encontro de necessidades presentes e previsíveis.
O programa lançado pelo Ministério das Obras Públicas e Comunicações (MOPC) concentra-se na dinamização e construção de infraestruturas e equipamentos e numa entusiástica ação de intervenção nos monumentos nacionais, que vai ser a grande obra no âmbito dos equipamentos culturais. Constituído por decreto, em 1932, o MOPC reúne “sob a mesma direcção os
principais serviços relativos à produção nacional, o que permitirá estabelecer uma orientação única, com maior benefício para o país” (Decreto-Lei nº 21454 de 7 de julho de 1932). Na realidade, o investimento na construção de equipamentos e infraestruturas, praticamente abandonado desde o final do século XIX, correspondia a um programa urgente e necessário ao desenvolvimento económico e ao combate ao desemprego, num país ruralizado, com um baixo nível de industrialização e uma economia demasiado dependente das relações externas e coloniais. É neste contexto que as Obras Públicas são um dos setores da administração pública do novo regime com maior área de influência e maior dotação orçamental.
Assim, o rosto da política das obras públicas incluía a distribuição pelo território nacional de novos edifícios públicos que recebiam os serviços dos vários ministérios: no domínio da Justiça – as cadeias comarcãs, os estabelecimentos prisionais centrais e os palácios da justiça; na Saúde – os hospitais civis, sanatórios e dispensários para apoio à luta contra a tuberculose e centros termais; no Ensino – a rede de escolas primárias, de liceus e escolas profissionais e os conjuntos universitários de Coimbra e Lisboa; e no Turismo – as colónias de férias para a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), Hotéis e Pousadas.
Comunicações e transportes recebem as primeiras atenções. No fim da década dos anos vinte, existiam cerca de 14.000 quilómetros de rede rodoviária, em péssimo estado na sua generalidade; entre 1950 e 1955, o país possuía cerca de 25.000 quilómetros de boas estradas; e dez anos mais tarde o número subia para cerca de 32.000 quilómetros. Começa a construção dos primeiros lanços das grandes autoestradas: a do Norte, a do Sul e a de Cascais.
Torna-se intenso o movimento de pessoas e mercadorias; e as carreiras de camionagem constituem elemento importante no progresso do país, no contacto das populações, no impulso dado à indústria de construção de autocarros e camiões.
No que respeita a transportes ferroviários, não aumentou consideravelmente a respetiva rede, tendo havido uma melhoria significativa do material circulante, do material de via, do traçado desta, e renovadas as linhas principais: ligação Lisboa-Porto, linha do Sul. Foram eletrificados os ramais suburbanos das grandes cidades, e os grandes percursos e construída a rede de metropolitano de Lisboa (Nogueira 2000: 391).
Para os transportes terrestres rodoviários e ferroviários, constroem -se uma série de pontes. Do foro destas – pela sua grandeza, custo financeiro e realização técnica – destacamos duas: a Ponte da Arrábida, sobre o rio Douro, no Porto (inaugurada em 1963); e a Ponte 25 de abril (antiga Ponte Salazar, inaugurada em 1966), sobre o rio Tejo, em Lisboa.
No que diz respeito ao melhoramento de estruturas que permitissem aumentar riqueza ou tornar mais fácil a sua criação, foram cuidados os portos, tanto os que se encontram abertos à navegação internacional como sobretudo os de pesca. Mas é no domínio da produção de energia e no da hidráulica agrícola que atinge maior vulto a política de fomento e de obras públicas, a partir da década dos anos cinquenta. Das várias barragens e subestações, enumeramos aqui duas das barragens inauguradas na década referida: a
Barragem do Castelo de Bode, sobre o rio Zêzere; e a Barragem do Carrapatelo,
No campo da Saúde foram criadas estruturas novas, tais como: o
Sanatório D. Carlos I, em Lisboa; o Sanatório D. Manuel II, no Porto; o Instituto Português de Oncologia, em Lisboa; o Hospital de São João, no Porto; e o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. No plano social, surgiram as Casas do Povo, as Casas dos Pescadores, os Centros de Ação Social, os Bairros Sociais, os Bairros de Casas Económicas, as Colónias Infantis e os Centros Desportivos.
Para a instalação de serviços públicos são construídos: novos quartéis e centros para as Forças Armadas; renovam-se as instalações de algumas estações dos correios, como as do Porto e as de Vila Real, destacando -se estas pelo seu volume e arquitetura. Os serviços de justiça e os tribunais d e todas as comarcas são instalados em edifícios novos, construídos expressamente com esse objetivo. São, ainda, de referir os edifícios novos ou reconstruídos para sede dos Paços do Concelho em cada município, e ainda, as instalações das repartições de finanças, etc.
Entretanto, para acomodar uma população estudantil em crescimento, e em consonância com a política de obras públicas, multiplicaram-se as construções de edifícios escolares, desde primários a universitários. Em 192 7 existiam cerca de 7.000 escolas primárias do Estado. Em 1940, é lançado o
Plano dos Centenários para a construção de 7.200 edifícios, com um total de
12.500 salas de aula, no espaço de uma década. Em 1970, funcionavam cerca de 20.000 escolas e postos de ensino primário.
Nos setores secundário e superior, as novas estruturas atingem maior relevo. São numerosos os novos liceus, e alguns dos edifícios atingem vastas proporções. Encontramos aqui os grandes liceus de algumas cidades como: Beja, Vila Real, Lamego, Coimbra, Porto, Lisboa, entre outras. As Faculdades
de Direito, de Medicina, de Letras, etc., são igualmente dotadas de instalações novas. É nesta senda que surge a Cidade Universitária de Lisboa, e entre estas obras sobressai a Biblioteca Nacional.
O ensino técnico não foi também esquecido, sendo fundada em 1930 a Universidade Técnica de Lisboa, integrando esta algumas escolas até aí dispersas: o Instituto Superior Técnico, Agronomia, Medicina Veterinária, e Ciências Económicas e Financeiras. Pelo país são implantadas escolas técnicas e institutos industriais e comerciais em várias cidades. Consoante as localidades e as necessidades das respetivas áreas, são ministrados cursos de comércio, de indústrias, de profissões especializadas (eletricidade, construção civil, têxteis, mecânica, ou outros mesteres, desde a serralharia, aos bordados, à costura, à vidraria, à carpintaria, etc.) (Nogueira 2000: 413).
3.2.2. Os Cineteatros
Enquanto o Estado desenvolvia uma forte política de Obras Públicas, centrando as suas forças na promoção de uma série de equipamentos públicos que albergavam os serviços do Estado e davam resposta às carências infraestruturais do país, a iniciativa privada apostava nos novos programas dedicados às atividades de lazer que se materializavam em equipamentos urbanos de caráter coletivo. Não só em Lisboa e no Porto, mas também nas cidades de dimensão média, estes eram muitas vezes os únicos locais de encontro adequados a uma burguesia em ascensão e que se interessava pelos prazeres de uma nova sociabilidade.