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3. O CONSUMO E AS GERAÇÕES

4.1 PROCEDIMENTOS

4.1.1. As grandes reportagens da série Tudo Sobre

Para compreender o consumo da grande reportagem multimídia foi preciso selecionar um objeto que representasse de forma coerente e precisa as características que foram apresentadas ao longo do primeiro capítulo. Snow Fall do The New York Times, lançada em 2012, foi uma reportagem pioneira no que diz respeito a esse tipo de produto. No entanto, como optou-se por trabalhar com leitores brasileiros, é necessário escolher um empírico em português e que seja um produto do mercado jornalístico nacional.

Em 2013, a Folha de S.Paulo baseada na “snowfalização” da reportagem, substantivo que vem sendo usado nas redações, destacou-se pelo pioneirismo brasileiro com relação aos novos modelos de grandes reportagens multimídia, quando lançou a série Tudo Sobre95. A série teve início com a publicação de A Batalha de Belo Monte, que levou dez meses de apuração, pesquisa, entrevistas e produção (diagramação, design e edição). Uma vez que, foi lançada em três plataformas: impresso, online e na TV Folha. Além do tempo de produção, vários profissionais estiveram envolvidos no processo: foram três repórteres de texto, um fotográfico e um de vídeo; somados a esses, mais 15 profissionais colaboraram em todas as etapas. Os resultados da apuração e investigação se dividem em cinco capítulos, 55 fotografias, 24 vídeos, 18 infográficos, aproximadamente 15 mil palavras e um game sobre a hidrelétrica brasileira que é considerada a terceira maior do mundo.

O esforço da equipe e da Folha em oferecer a seus leitores uma reportagem longa e detalhada em informações rendeu duas premiações. O primeiro foi o Prêmio Folha, na categoria reportagem, reconhecimento

concedido aos produtos dos jornalistas da organização. Já o segundo foi o Prêmio Internacional de Infografia, o Malofiej, concedido pela The

Society for News Design – a condecoração veio em medalha de prata na

categoria “Online”.

A Folha de S.Paulo é uma das maiores empresas jornalísticas brasileiras e tem suas raízes no jornal impresso. No entanto, vem se destacando nas publicações de diferentes conteúdos jornalísticos próprios da internet. O destaque que a Folha recebeu com a primeira grande reportagem da série e a qualidade e investimento no material que vem sendo apresentado foram critérios fundamentais para a definição do empírico desta pesquisa.

As grandes reportagens da série Tudo Sobre variam de dez a 20 mil palavras. Levam em média de quatro a dez meses de produção e possuem um número consideravelmente alto de elementos multimídia, como fotos, vídeos, áudios, infográficos, animações, newsgame, etc. Elas também apresentam características como: design responsivo e dimensão horizontal (dividida em um menu de capítulos), porém com leitura verticalizada, ou seja, pela barra de scrolling.

O corpus escolhido é constituído pelas cinco primeiras grandes reportagens multimídia publicadas pela série: 1) A Batalha de Belo

Monte; 2) O Golpe e a Ditadura Militar; 3) Crise da Água; 4) Crime sem castigo; e 5) O Rio em transformação.

Sobre o conteúdo de cada uma das publicações: 1) A Batalha de

Belo Monte96: publicada em 16 de dezembro de 2013, aborda questões –

ambientais, econômicas e sociais – referentes à construção de uma das

96 Disponível em: http://migre.me/sDYcX

maiores obras brasileiras, a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará; 2) O

Golpe e a Ditadura Militar97: com ganchos na eleição presidencial de 2014, essa grande reportagem, publicada em 23 de março de 2014, oferece diversos depoimentos, histórias, contextos e pontos de vista referente aos 50 anos do Golpe e da Ditadura Militar no Brasil; 3) Crise

da Água98: com a crise da água em São Paulo, a seca no semiárido nordestino e as inundações no Rio Madeira, a reportagem, publicada em 15 de setembro de 2014, oferece um mapeamento e as preocupações referentes à crise dos recursos hídricos nos estados que enfrentam esse problema.; 4) Crime sem castigo99: publicada em 12 de março de 2015, aponta os caminhos e impactos do comércio ilícito nas fronteiras brasileiras; 5) O Rio em transformação100: 2016 é o ano de sede dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Publicada em 2015, a Folha faz um mapeamento sobre as transformações e obras na cidade.

Após a identificação do corpus, surgiu o questionamento: por que não trabalhar apenas com a primeira grande reportagem? Porém, o consumo está ligado à oferta de produtos e as escolhas dos consumidores. Desta forma, foi preciso ter um leque de grandes reportagens para que os leitores escolhessem aquela que teriam mais interesse na leitura. Portanto, na primeira etapa da pesquisa a última pergunta do questionário faz referência à escolha de uma das cinco reportagens:

97 Disponível em: http://migre.me/sDYcs 98 Disponível em: http://migre.me/sDYdT 99 Disponível em: http://migre.me/sDY9m 100 Disponível em: http://migre.me/sDYfa

Figura 11: Você leria quais das reportagens a seguir?

Fonte: questionário de elaboração da autora

Como já mencionado anteriormente, a grande reportagem multimídia eleita pela maioria foi O Golpe e a Ditadura Militar, que recebeu 37.2% das escolhas; seguida de Crise da Água, com 28.2%;

Crime sem Castigo, com 16.7%; A Batalha de Belo Monte, com 14.1%; e O Rio em transformação, com 3.8%. Os dados são representados no

gráfico a seguir (Gráfico 2).

A grande reportagem sobre os 50 anos do Golpe e a Ditadura Militar possui quase 18 mil palavras e está dividida em nove capítulos, dos quais, os dois últimos são artigos, fontes e referências. No que tange à estruturação, em meio à linguagem textual surgem 111 elementos multimídia, definidos por: 33 vídeos com depoimentos; sete vídeos de arquivo histórico; cinco áudios de arquivo histórico; quatro linhas (formato de linha do tempo) ilustrativas e interativas de personagens; 10 infográficos interativos; 10 infográficos estáticos e; 42 fotografias históricas.

Gráfico 2: A reportagem escolhida pelos estudantes

Fonte: elaboração da autora

Num primeiro momento, chamou a atenção o fato de uma reportagem histórica ter sido escolhida, já que a ditadura é um tema intrinsecamente conectado à história do Brasil e por isso amplamente discutido em sala de aula. Pela observação nas listas de: + lidas, + comentadas e + enviadas no site da Folha, os temas da atualidade quase sempre têm maior audiência, pelo menos é o que revelam as métricas do

Analitycs. O fato de o Golpe e a Ditadura Militar completarem 50 anos

(2014), e ainda as discussões políticas estarem intensificadas em 2015 e 2016, inclusive com aclamações de impeachment da presidente Dilma Rousseff, talvez tenham refletido na escolha dos estudantes. Nas redes sociais é possível observar publicações de direita e esquerda, uns são contra outros a favor. Seriam as dúvidas políticas um dos fatores que colaborou para a escolha? A atualidade das discussões? A ânsia por saber mais sobre a Ditadura para compreender o presente? Enfim, apenas alguns questionamentos que parecem pertinentes de ser levantados, já que participantes das três gerações optaram por essa leitura. Com a escolha, é possível afirmar que o papel da informação no conturbado momento (2015-2016) nacional mostra uma coisa: que o jornalismo está mais vivo que nunca. Não cabe aqui discutir engajamento político ou o papel do jornalismo no que diz respeito à democracia, mas talvez esse resultado possa servir de incentivo ou questionamento para pesquisas relacionadas ao tema.

Com os procedimentos esclarecidos e embasados, com o corpus devidamente apresentado, os próximos itens se referem aos desdobramentos da aplicação dos questionários – quantitativo e qualitativo.

4.2 RESULTADOS QUANTITAVOS: QUESTIONÁRIO SOBRE O