5 HISTÓRIAS DO DIA A DIA: O (DES)VELAR DE NOSSO DIÁRIO DE
5.4 AS HISTÓRIAS DE MACABÉA, TEMPESTADE E BOB
Com o passar dos dias, não apenas por meio de nossas observações, mas como
também pelas generosas contribuições fornecidas por professores e funcionários
da escola, selecionamos alguns jovens para observar com mais atenção.
Quando ouvimos suas histórias pessoais, por meio de uma professora, conforme
descrito a seguir, não tivemos dúvida de que seria de muita validade para nossa
pesquisa uma observação mais atenta. Conheçamos, então, um pouco da
história desses três jovens.
5.4.1 A História de Macabéa
Durante a hora do recreio (nesse dia), permaneci na sala dos professores, e foi
lá que recebi uma generosa contribuição para minha pesquisa: gentilmente uma
professora começa a contar a história de vida de alguns daqueles jovens e,
assim, demonstrando-me, mesmo que de forma não intencional, caminhos
interessantes para minha pesquisa.
Logo que a professora começa a contar a história, lembro-me do livro de Clarice
Lispector “A hora da estrela”, que conta a saga de Macabéa, uma menina
simples, com uma vida extremamente sofrida, mas que, apesar (e com) de suas
misérias, continua. Continua alegremente sua existência. Nesse momento,
descobri que aquela jovem deveria ser um dos sujeitos de nossa pesquisa. Por
tal lembrança do livro de Clarice Lispector, resolvi chamar essa jovem de
Macabéa. Uma Macabéa com ares de Poliana,8 que parece estar jogando
sempre o “jogo do contente”.
Comecemos, então, o relato da professora:
8
Poliana é um personagem de Eleanor H. Porter,. Refere-se a uma menina que conseguia ver o lado bom de tudo,
negando as adversidades e, por isso, permanecia sempre feliz. Ela chamava isso de “Jogo do Feliz“.
Macabéa é uma jovem com vários irmãos, fruto de um relacionamento familiar
bastante complexo. Abandonada pela mãe e pelo pai, ela foi entregue a uma
família, sendo separada de cada um dos irmãos, pois cada um foi entregue a um
lar diferente.
Ela cresce nessa família, com um autoconceito muito ruim. Afinal, sofreu muita
rejeição. Era uma família, segundo relatos, de padrão de vida bastante
confortável. Contudo, através dos anos, sofreu um franco declínio econômico. Ao
que parecia, Macabéa trabalhava bastante nessa casa. Tanto que, num certo
momento, a senhora que a adotou foi chamada à escola e foi questionada se ela
(Macabéa) teria um papel de filha ou de empregada naquela família.
Tal conversa parece ter causado algum efeito, já que foi por meio dela a “grande
virada” de sua vida. Foi a partir disso que a escola e a família começaram a fazer
um trabalho conjuntamente, para melhorar o autoconceito e, conseqüentemente,
a auto-estima dessa jovem.
Hoje Macabéa é uma linda jovem, que aparenta ser tão alegre, tão carismática,
tão esperta. Parece viver uma dualidade: ao mesmo tempo em que guarda ares
de ingenuidade e pureza infantil, possui também sonhos juvenis. Percebemos,
em seu cândido olhar, em certos momentos, carências (emocionais) e a
necessidade de ser tocada. Tocada pela professora, tocada por alguém que
conceda um pouco de carinho e atenção, pois ser tocada por ela (a professora)
era como ser tocada pela mãe, por uma mãe que nunca a abandonou, que
sempre esteve presente ao seu lado, encarnada em seu papel docente.
Assim, a escola, em sua vida, teve o papel de substituir sua família, com uma
grande vantagem, pois ela podia até escolher seus irmãos.
Segundo relatos, ela tinha uma irmã na escola, mas não existia qualquer tipo de
relacionamento ou laço entre as duas, ela apenas se limitava a dizer
ocasionalmente: “Ah! aquela é minha irmã”.
interessante para esta pesquisa: certo dia, Macabéa se aproxima dela (a
professora) e lhe pergunta se ela assistiu a um programa policial, que passa
numa emissora de TV. Programa este que investiga e reconstitui assassinatos. E
a professora responde que não, justificando não gostar muito desse tipo de
programa. Foi aí que Macabéa contou que seu pai havia aparecido no programa,
por assassinar e tirar a pele de uma pessoa. A professora disse que ficou um
pouco constrangida e sem saber muito o que dizer. Perguntei de que forma
Macabéa disse isso e se ela estava abatida. A professora me responde que ela
parecia completamente indiferente ao fato.
5.4.2 A História de Tempestade
Com essa jovem tivemos uma certa dificuldade em escolher um nome de um
personagem da literatura, ou histórias infanto-juvenis, que, de alguma forma,
personificasse o seu temperamento. A princípio, pensei em chamá-la Janis, uma
alusão à cantora de blues dos anos 70, Janis Joplin, que era tida como um
"furacão" no palco. Contudo, tendo em vista a morte trágica dessa cantora,
vítima de drogas alucinógenas, como também a triste história de sua família,
“marcada” pelas drogas, optei por outro nome: Tempestade, uma personagem
das histórias em quadrinhos, que tem os poderes de manipular os fenômenos da
natureza. Tal nome foi derivado de um fato presenciado por mim, em relação ao
seu temperamento: ela adentra a sala de professores, como um tornado, o que
descreveremos mais adiante.
Filha de pais com dependência química, Tempestade é assumida por sua avó,
que exerce o papel de pai e mãe da menina. Em conversa com a coordenadora,
ela diz que, aparentemente, tal senhora é extremamente carinhosa com ela,
como também lhe permite algumas visitas à sua mãe. Entretanto, segundo a
coordenadora, toda vez que Tempestade volta desses encontros, fica bastante
triste e depressiva. E mais, apesar (e com) de tudo, a jovem tem um
comportamento de bastante cuidado, de cuidadora de sua mãe, exercendo o
papel que talvez ela não tenha conseguido desempenhar com Tempestade.
Tempestade não gosta de falar sobre sua família. Sua alegria e seus interesses
estão na escola, como todas as possibilidades de (inter)ação, da ação entre
pessoas, que a escola lhe possibilita. A coordenadora afirma que, em alguns
momentos, em conversas com a jovem, ela não gostava de falar sobre sua
família e parecia guardar para si seu sofrimentos e mágoas. Contudo, conforme
relatos, Tempestade, no último ano, teria sofrido uma forte alergia, ficando toda
“empolada”, indo a médicos, que não encontravam causas aparentes para a
doença, até a alergia ser diagnosticada como tendo um fundo emocional.
Entretanto, apesar (e com) dessa triste história pessoal, Tempestade é uma
menina bastante extrovertida, vaidosa e com uma capacidade de expressar-se
de forma extraordinária: fala sobre seus namoradinhos, fala sobre seus sonhos,
fala sobre suas alegrias, fala sobre tudo! Com exceção de algo: sobre sua
família.
5.4.3 A História de Bob
A respeito de Bob, cujo o nome fictício já foi explicado, não se sabe muita coisa,
pelo menos, os professores e coordenadores da escola. Assim, com ele, tivemos
que fazer "escavações" para encontrar mais dados e (des)velar um pouco sua
história de vida. Entretanto, obtivemos algumas informações sobre ele que
consideramos bastante valiosas para o nosso estudo.
Bob é filho de pais divorciados e vive com sua mãe e seu irmão mais novo. Na
escola é um aluno com bastante brilho, acerta todas as perguntas, termina seus
exercícios antes dos outros. Contudo, nas suas falas, segundo relatos, diz
sempre que gostaria de estar numa escola particular e não pública. Tendo em
vista tal fato, alguns professores perguntaram à sua mãe por que não o colocava
por algum tempo numa instituição dessa modalidade. A mãe nunca dava uma
resposta convincente. Todavia, acredita-se que a questão seja de ordem
financeira. Ela simplesmente não tem condições para fazer isso, mas, por residir
num bairro de classe média, provavelmente tenha vergonha de admitir tal fato.
Bob não se expõe muito, mas, ao longo do tempo, e principalmente dos
encontros que tivemos com ele fora de sala de aula, ele nos pontua a falta do
pai, e carência sentida pelo divórcio de seus pais. Isso é um impacto para ele.
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 86-90)