1.2 O S APRENDIZES DA E BERLE
1.1.2 As idades dos aprendizes
80 Uma variável a ser observada é a idade dos aprendizes. Essa identificação etária foi feita por meio dos registros paroquiais disponíveis no arquivo da Mitra Diocesana, onde constam as informações de batismo dos personagens enfocados.
Quadro 4 - Idade dos aprendizes da Eberle na contratação, 1901-1912. Idade Quantidade 11 1 12 2 13 4 14 2 15 7 16 4 17 2 18 1 19 1 21 1 Média 15 anos
Fonte: Contratos de aprendizagem da empresa Abramo Eberle S.A. 1901-1912. Acervo particular de Heloísa Eberle Bergamaschi; Livro de registros de batismo da Paróquia Santa Teresa D’Ávila. Diocese de Caxias do Sul. Acervo do Arquivo da Cúria Diocesana de Caxias do Sul.
Dos dez aprendizes dos quais não foi possível identificar a idade, cinco são referidos nos contratos com a palavra “menino”. Dos 25 dos quais se pôde fazer essa identificação, três já eram maiores de 18 anos e outro se tornaria um mês depois do contrato firmado. Dezesseis aprendizes tinham 15 anos completos ou menos. A idade de maior concentração era 15 anos, que é considerada na bibliografia consultada como uma das idades limites da infância.
Na obra de Heywood, quando foram tratadas das idades dos aprendizes do período moderno, fica clara a variedade delas, assim como foi constatado no caso da Eberle. O autor informou que “os meninos ou, em alguns casos, as meninas n~o se tornavam aprendizes até que tivessem chegado ao início da adolescência, idade em que eram considerados fortes ou maduros o suficiente para dar conta das demandas da atividade” (HEYWOOD, 2004, p. 167). Por exemplo, a maioria dos contratos de aprendizes da região de Orléanais, na França, entre os séculos XIV e XV, era de meninos entre 15 e 19 anos, sendo que mais da metade já tinha mais de 16 e os mais novos tinham 7. Nesses mesmos contratos, a maioria das meninas estava abaixo dos 12. Na Inglaterra, os aprendizes começavam em algum momento entre 7 e 13 anos (p. 167).
81 É difícil definir o que seria uma criança no contexto examinado nesta tese. Os aprendizes estudados tinham, conforme foi dito antes, a idade considerada como limite da infância por historiadores que utilizaram o critério etário para tal definição. Nesse sentido, por exemplo, Heywood afirma que “as definições de ‘criança’ na força de trabalho variavam consideravelmente nos diferentes contextos nacionais: a maioria dos historiadores estabeleceu 14, 15 ou 16 anos como sendo o limite m|ximo” (HEYWOOD, 2004, p. 163).
A palavra menino foi usada para designar aprendizes de 11 a 16 anos; o termo
rapaz para um de 16, e jovem para um de 17 anos. Dos 35 aprendizes contratados, 24
eram considerados meninos, um jovem, um rapaz, três maiores de idade e a seis não é atribuída nenhuma designação etária. Consultando-se um dicionário da época, encontrou-se “menino” como sinônimo de “infante”, “criança” e “pequeno”. Na definiç~o apresentada, “menino ou menina é o macho ou a fêmea da espécie humana na sua
puerícia, isto é, desde os sete anos até que aparecem os primeiros sinais da puberdade”
(POMBO, 1914, p. 535, grifos do autor). Um dicionário médico publicado poucos anos depois informa que, “de ordin|rio”, o termo “inf}ncia” é usado para designar a idade humana do nascimento à puberdade, o que seria exagerado para a linguagem científica, que limita esse voc|bulo a, “quando muito”, a idade de 7 anos (BARBOSA, 1917, p. 298- 299). A delimitação inicial da puerícia do primeiro dicionário é corroborada por essa publicação técnica, que traz inclusive um quadro com a seguinte organização:
Quadro 5 - Divisão etária da vida humana
Primeira infância 0 a 2 anos Segunda infância 2 a 7 anos
Puerícia 7 a 12 anos
Adolescência 12 a 16 anos
Juventude ou juvenilidade 16 a 25 anos
Virilidade 25 a 50 anos
Velhice 50 anos em diante
Fonte: BARBOSA, 1917, p. 299.
Pode-se afirmar, então, que a maioria dos aprendizes da Eberle vivia na infância, como o termo era definido à época, uma vez que menino designaria uma fase anterior à de homens já formados, física e socialmente.
82 O caso dos aprendizes da Eberle não se enquadra exatamente no modelo de Ariès. Embora o autor demarque no século XIX o fim da antiga sociabilidade, ele abre brecha para “raras exceções” (ARIÈS, 1981 p. XI) de permanência de socialização das crianças mediadas por pessoas alheias à família. Nesta perspectiva, o caso dos aprendizes da Eberle se configuraria como uma das “exceções” mencionadas pelo autor. Entre as ressalvas apontadas pelo historiador francês { pr|tica da “inf}ncia longa”, ele identifica a persistência nas “classes populares” da transiç~o precoce para o mundo dos adultos. A “obsess~o pela educaç~o” n~o teve a mesma penetraç~o na “burguesia” e no “povo”. Segundo Ariès, “os antigos gêneros de vida sobreviveram quase até nossos dias nas classes populares, submetidas por menos tempo { aç~o da escola” (p. 129). Ele chega a botar em quest~o a possibilidade de “regress~o” do sentimento de inf}ncia na primeira metade do século XIX, “sob a influência da demanda de m~o de obra infantil na indústria têxtil”, j| que a “criança do povo” passava para a idade adulta precocemente (p. 129).
Conclui-se que, na visão de Ariès, a noção de infância poderia variar em função das condições materiais das famílias e que as crianças das classes populares estariam “em outro tempo” em relaç~o {s da burguesia. Uma vis~o mais complexa poderia indicar se, para as crianças pobres, as práticas tidas como infantis concorreriam com o trabalho, enquanto o mesmo não sucederia de igual forma com as crianças mais abastadas. No caso dos aprendizes, é difícil distingui-los entre ricos e pobres, mas percebemos que existia uma variedade de condições econômicas entre eles. Porém, neste período, todos compartilharam da mesma condição de encurtamento da infância, pelo menos no que diz respeito à inclusão do trabalho na sua rotina.
Como a escola exerceu papel relevante no processo de alongamento da duração da infância, como demonstrou Ariès, é pertinente verificarmos as condições educacionais em Caxias durante esse período, no sentido de identificarmos as possibilidades de escolarização como alternativa ao trabalho. A quantidade de crianças trabalhando nas primeiras décadas do século XX, como veremos a seguir, pode indicar que a escola não era uma alternativa que ameaçasse esvaziar as oficinas de mão de obra.
Analisando os dados referentes à educação em Caxias no início do século XX, percebemos que a abertura de escolas era uma demanda frequente da população junto ao Poder Público no final do século XIX e início do XX e que houve uma considerável expansão nas primeiras décadas.
83 No livro História de Caxias do Sul (Educação), de João Spadari Adami, encontram- se transcritas correspondências endereçadas à Intendência de Caxias do Sul e à administração estadual por parte da população. Entre essas cartas estão oito abaixo- assinados solicitando a abertura de “aulas” municipais ou estaduais em diversas regiões do município entre os anos de 1891 e 1902 (ADAMI, 1981, p. 41-42, 60, 72, 82, 85, 88- 89).
Em 1900, apenas 144 crianças estudavam nas escolas da Intendência, passando para 600 em 1910, 1.855 cinco anos depois e chegando a 2.868 em 1920. Quando são tratados os dados sobre alfabetização, constata-se que, em 1910, dos 23.956 habitantes da cidade, 10.332 eram alfabetizados, o que corresponde a 43,1% da população. Já em 1930, quando o número de habitantes passou a ser de 32.622, 18.325 adultos eram alfabetizados, o que equivalia a 56,2% do total de habitantes (DALLA VECCHIA; HERÉDIA; RAMOS, 1997, p. 28, 60 e 92).