2. Enquadramento da Prática Profissional
2.4. Futebol – O jogo e seus alicerces
2.4.2. As Ideias e os Princípios do Modelo de Jogo
A periodização tática pressupõe que o processo de preparação deve centrar-se na operacionalização de um “jogar” através da criação e desenvolvimento contínuo do modelo de jogo e, portanto, dos seus princípios (Gomes, 2008). Este processo confere primazia à tática (guiando-se no desenvolvimento de uma organização coletiva), centrando-se na aquisição e desenvolvimento de uma conceção complexa de determinadas regularidades no “jogar” da equipa, através da operacionalização dos princípios do modelo de jogo, assumindo-se, por isso, num treino específico, conferindo-lhe um significado coletivo entre a especificidade das relações entre o “todo” organizado (jogo) e as suas partes (relações dos jogadores). É exatamente a criação e o desenvolvimento de uma
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certa organização dinâmica de equipa, isto é, um “jogar”, que através das próprias ideias, permite ir de encontro a algo específico. Surgem assim três palavras-chave (Ideia, “Jogar” e Modelo de jogo) que importam entender para perceber toda a sua ligação. Assim, quando se fala em Ideia, esta remete-nos para um conhecimento puro e racional acerca do nosso entendimento, à planificação, disposição e intenção para a formação de uma obra. Concomitantemente, uma ideia de jogo, é algo que idealizamos e planeamos tendo em conta as nossas intenções e a forma como projetamos e queremos jogar (finalidade), definindo-se essa ideia de forma objetiva, que se vai desenvolvendo ao longo do processo. Para que esta ideia possa ser posta em prática é determinante que o treinador saiba o que pretende da equipa e do jogo, que as ideias sejam concretas, claras e específicas relativamente ao que se pretende, determinada pelo seu histórico futebolístico, pelo tipo de futebol que viu e viveu, onde o treinador deve ser, segundo Frade (2003), alguém que se deve formar como um ser reflexivo, organizado e ponderado. É assim fundamental que os jogadores a compreendam, de forma a ter os comportamentos ideais e ajustados à filosofia de jogo pretendido.
Indo de encontro ao citado anteriormente, quando nos referimos a tática, referimos à cultura de jogo, na qual surge a necessidade de existência de um
modelo de jogo, ou seja, de um conjunto de regras, pressupostos, valores e
princípios que procurem construir um padrão comum de equipa na resolução dos problemas do jogo e que confiram uma determinada lógica aos factos de jogo. Deste modo, a partir do modelo, criam-se uma série de referências que definem a organização da equipa e dos jogadores nos diversos momentos de jogo, o qual orienta o processo para um jogar concreto através dos princípios coletivos e individuais em função do que é pretendido. Como referido anteriormente, o modelo envolve a operacionalização dos princípios de ação dos jogadores nos vários momentos de jogo, quer a nível individual quer a nível coletivo. Frade (2003) refere-se à importância do modelo de jogo, afirmando que o jogar é uma organização construída pelo processo de treino face a algo que se pretende atingir, isto é, a algo que se aspira. Em conformidade, sendo o jogo um fenómeno que se encontra em permanente construção, Oliveira (2004)
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concorda que é tão importante as ideias do treinador para o jogar, como também é a forma como os jogadores compreendem o projeto coletivo da equipa e o desenvolvem, sendo o contexto (cultura do clube) também um dos aspetos importantes a ter em conta. Em complemento, o entendimento individual, isto é, a forma como os jogadores analisam e interpretam os factos do jogo, deve ir de encontro ao entendimento da equipa de forma a ser criada uma lógica comum e assim conferir-lhe um significado próprio, pois é fundamental para que as decisões e interações dos jogadores sejam antecipadas pelos colegas de equipa, de acordo com um conjunto de diretrizes (nos vários momentos de jogo) tornando-o num contexto específico coletivo. Neste aspeto, Tamarit (2007) refere que o modelo de jogo deverá permitir a criatividade do jogador, tonando-o mais rico, pois quanto mais os jogadores colocam a sua criatividade e talento em jogo, sem nunca ignorar os princípios da equipa, mais este será particular, onde a inteligência do jogador, isto é, a forma de pensar, a rápida tomada de decisão, a procura de soluções, a procura do erro e a resolução das situações, sobressaem através da tática.
Contudo, o modelo de jogo não é único, pois cada treinador tem as suas ideias muito próprias sob a forma como quer que a sua equipa se comporte, sendo um processo contínuo de evolução e de constante adaptação, no qual se deve enquadrar as características de cada jogador e tirar o máximo de proveito dos mesmos para o desenvolvimento da forma de “jogar”, criando assim hábitos e princípios de ação nos comportamentos individuais e coletivos.
O modelo de jogo rege-se pelas interações individuais, procurando que os jogadores possuam para além de um saber fazer, um saber sobre esse saber
fazer, isto é, que sejam capazes de perceber qual a intenção coletiva colocada
em cada ação do jogo e treino, cabendo ao treinador orientar as decisões dos jogadores, tornando o jogo numa cultura comportamental assente em determinados princípios, o qual deve e tem de ser trabalhado no treino. Assim, o objetivo do treino passa por criar uma forma de jogar e desenvolver adaptações nos jogadores para o desenvolvimento de um jogar e portanto, de uma organização coletiva. O Modelo de jogo deve guiar a forma de estruturar os treinos e os exercícios, cirando uma especificidade de jogo, em que a
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elaboração dos exercícios deve ser uma simplificação do jogo que queremos alcançar permitindo a aquisição dos princípios e subprincípios pretendidos: Oliveira et al. (2006) refere que os exercícios devem exigir que os atletas pensem muito, comuniquem muito e que, através da sua complexidade, os obriguem a uma concentração permanente, para, dessa forma, criar uma “imagem mental” na cabeça dos jogadores sobre a forma de “jogar” que se pretende implementar. Neste sentido, criar um modelo de jogo implica o desenvolvimento de um “jogar” específico, ou seja, tal como refere Frade (2003), a construção de um processo específico que esteja concentrado no desenvolvimento do modelo de jogo. O desenvolvimento deste “jogar” compreende assim a organização comportamental em momento defensivo, ofensivo, da transição defesa-ataque e da transição ataque-defesa, procurando que exista uma inter-relação entre os princípios defensivos e ofensivos, promovendo uma dinâmica de qualidade.
O desenvolvimento do “jogar” compreende a articulação dos princípios, subprincípios e subprincípios de subprincípios que suportam os grandes princípios de cada momento de jogo, criando comportamentos específicos dentro da mesma posição, relações entre posições e relações setoriais e intersectoriais, tal como grupais, promovendo uma determinada dinâmica de equipa e de jogadores. Sendo o treinador o grande responsável pelo desenvolvimento do “jogar” (pois é este quem o pensa e lidera a equipa), ao colocar um maior ou menor ênfase num determinado princípio, faz com que a evolução do processo seja particular, onde a forma como interage e intervém no processo de treino e competição, através de correções e explicações com o intuito de premiar as suas virtudes, é determinante para garantir qualidade e levar a equipa a uma determinada forma de jogar. Para tal, e como já foi referido anteriormente, a ideia de jogo do treinador deve ser clara e específica, a qual é determinada pelo seu histórico futebolístico. Por outro lado, a maneira como se pensa o jogo e se elabora o processo de treino no dia-a-dia é visto como um fenómeno dinâmico da própria ideia de jogo, a qual necessita de ser constantemente aprimorada. Concluindo, pode-se referir que a operacionalização de uma forma de “jogar” é específica de cada treinador,
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estando dependente da equipa e dos jogadores que tem à sua disposição, de forma a colocar as suas ideias em prática e assim desenvolver o seu modelo de jogo, o qual é regido por princípios de ação únicos e com uma identidade muito própria de jogo.
2.4.3. O exercício como um meio – a influência dos Jogos Reduzidos no