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3 AS IDENTIDADES E A RESPONSIVIDADE: ELEMENTOS QUE SE

3.2 AS IDENTIDADES E O TRABALHO COM A PRODUÇÃO EM SALA DE

A identidade é um processo contínuo de (re)construção, como dito anteriormente. A identidade social é um fenômeno construído na dialética homem/sociedade, tornando-se o que possibilita o reconhecimento social da pessoa e estando sujeita a variações, uma vez que as identidades não são imutáveis ou fixas (MOITA LOPES, 2002). Sobre isso, Bauman (2005) indica dois traços que representam o ato contínuo de (re)construção identitária: o primeiro relaciona-se à consistência e continuidade de nossa identidade com o passar do tempo; o segundo está relacionado à coerência daquilo que nos distingue como pessoas, o que quer que seja. Isso ocorre porque assumimos identidades diferentes em situações/espaços diferentes: o homem é pai, filho, profissional, namorado/marido, amigo, entre outros e, desse modo, o contexto social e discursivo nos quais o sujeito está inserido aponta para a identidade assumida e o discurso reflete tal identidade.

Hall (2014, p. 16), também discutindo sobre a característica fluida das identidades, afirma que “uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida”. Assim, essa característica permite que elas se encontrem sempre em processo, podendo ser (re)construídas continuamente. Dessa maneira, não se pode conceber homogeneidade na constituição do sujeito. Hall considera também que tudo aquilo que produzimos em uma situação comunicativa tem um “antes e um depois” e por isso não podemos falar de um sentido fixo e imutável. O autor (2014, p. 25-26) afirma que

As palavras são multimoduladas. Elas carregam ecos de outros significados que elas colocam em movimento, apesar de nossos melhores esforços em cerrar um significado. [...] O significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (identidade), mas ele é constantemente perturbado (pela diferença). (grifos do autor). Nesse sentido, as identidades construídas dentro dos muros da escola, e que podem ser evidenciadas nos movimentos interlocutivos nas interações em sala de aula, emergem nas práticas de linguagem no/do sujeito, cuja heterogeneidade não pode ser desconsiderada. A esse respeito, Moita Lopes (2002, p. 37) defende que “as identidades sociais não estão nos indivíduos, mas emergem na interação entre os indivíduos agindo em práticas discursivas particulares em que estão posicionados”. Isso ratifica a ideia que vem sendo discutida de que as identidades não são fixas, mas que elas são construídas em processo contínuo em um espaço discursivo, como posto anteriormente. A esse respeito, o autor (Ibid., p. 38) ainda assegura que “as identidades sociais construídas na escola podem desempenhar um papel importante na vida

dos indivíduos quando se depararem com outras práticas discursivas nas quais suas identidades são reexperienciadas ou reposicionadas”.

Considerando as discussões levantadas até então e o contexto de pesquisa deste estudo, compreende-se que os alunos são sujeitos que reproduzem e elaboram identidades através das experiências sociais vividas por eles no espaço escolar, este visto como uma unidade sociocultural complexa onde convivem diversidades que devem ser assumidas e tratadas como elementos desencadeadores da construção identitária. Nesse sentido, considerar o dizer do aluno, pelo texto escrito, pode favorecer a construção identitária, tanto do aluno quanto do professor, e os lugares institucionalmente marcados por cada um desses sujeitos, como discutido no subtópico 1.4 da seção 1, podem se deslocar e se realocar continuamente, em um movimento marcado pela interlocução e pela aprendizagem. No tocante a isso, Moita Lopes (Ibid., p. 62) afirma ainda que “ao consideramos as identidades sociais de nossos interlocutores, estamos simultaneamente, (re)construindo as nossas”.

Ainda para Moita Lopes (2002) , a escola desempenha papel importante na construção da identidade social dos sujeitos, tendo em vista que nesse espaço a construção da identidade se evidencia por diversos motivos, entre eles, o fator tempo. Nas palavras do autor (2002, p. 37):

Considerando a relevância da escola na vida dos indivíduos, ainda que, por nenhuma outra razão, pelo menos em termos da quantidade de tempo que passam/passaram na escola, pode-se argumentar que as práticas discursivas nesse contexto desempenham um papel importante no desenvolvimento de sua conscientização sobre suas identidades e a dos outros.

Nesse panorama, a responsabilidade do trabalho com temas que podem ser discutidos em sala de aula de LP, na busca de uma discussão social mais ampla, que trate, por exemplo, o preconceito ou o trabalho escravo, entre outros, pode favorecer a construção identitária desse aluno enquanto sujeito discursivo e, dessa maneira, a orientação para a atividade de produção textual, se baseada no entendimento do texto como lugar praticado dos movimentos interlocutivos, pode constituir-se como uma forma através da qual as questões identitárias que permeiam o aluno podem emergir nas práticas de linguagem e no dizer desse sujeito, num movimento dialógico contínuo de construção da aprendizagem e de formação identitária.

Observa-se que o estudo das identidades dos alunos pode favorecer a compreensão das diferenças, marcadas pela heterogeneidade característica do espaço de sala de aula. Apoiando- se nesse entendimento, defende-se que, no contexto da sala de aula de LP, o aluno é sujeito e pode encontrar na produção de texto uma alternativa para dar uma resposta que vai além de

uma mera proposta endógena, revelando seus posicionamentos discursivos formados a partir das identidades que são socialmente construídas, nos movimentos interacionais dentro e fora do contexto escolar, conforme a assertiva de Galli (2010, p. 63):

No processo de escrita, constituído pela intertextualidade e pela historia de cada sujeito que se inscreve, é inevitável a (re)construção de um outro texto e a (re)invenção do eu por um novo autor; a subjetividade torna-se escancarada, apontando para a produção de sentidos outros e para a manifestação das identidades (muitas vezes contraditórias).

Desse modo, a atividade de produção de texto, se orientada a partir de uma prática pedagógica fundada na dialogicidade, pode favorecer essa (re)construção identitária não só do aluno, mas também do professor, visto ser o texto um lugar de interação. Mais ainda: a responsividade, como atitude de resposta e, ao mesmo tempo, responsabilidade pela resposta, e que pode ser construída nos movimentos interlocutivos em sala de aula, pode, de alguma forma, se manifestar na materialidade linguístico-discursiva. Dessa maneira, essa prática situada oportuniza que a produção de texto e sua reelaboração não apaguem o aluno, mas estimulem-no a revelar-se discursivamente em um processo contínuo de resposta. Essa atitude de resposta será discutida no subtópico a seguir.