2. A VIDA DAS IMAGENS
2.2. As imagens no Terreiro:
Os terreiros umbandistas, em grande parte das vezes, consomem muitas esculturas religiosas. Cada escultura, no entanto, ocupa um lugar simbólico dentro do espaço sagrado do terreiro. Quase todo centro religioso, como discorre Eliade, possui um espaço específico onde a presença do sagrado é mais latente (ELIADE, 2008) e na grande maioria das vezes esse local se apresenta, ou melhor, se faz representar visualmente para que assim a cosmologia sagrada se presentifique entre os fiéis por meio do sensível. Na Umbanda, esses locais que representam o máximo do espaço sagrado se chamam congás, os altares, que quase sempre são ocupados por esculturas diversas que recriam o panteão dos orixás/santos reverenciados nessa religiosidade. Algumas vezes, as representações das entidades chefes do terreiro também compartilham desse espaço. Todas as imagens, contudo, seguem em sua disposição no congá, uma espécie de padrão hierárquico enunciado por sua localização (ORTIZ, 1999).
Em entrevista com umbandistas foi dito, de maneira não muito diversa daquela relatada no livro psicografado pelo médium Robson Pinheiro intitulado Tambores de Angola, que a função do congá é a de concentrar as energias emanadas pelos orixás e pelas entidades espirituais que atuam no terreiro (PINHEIRO, 1998). Tais energias acumuladas nesse espaço, acreditam os religiosos, são direcionadas pelos espíritos aos médiuns e às pessoas que freqüentam os centros.
No espaço místico do congá encontramos, freqüentemente, na parte central e mais alta, e geralmente em maior escala, uma escultura que representa Jesus/Oxalá. Tal fato significa que esse personagem possui o maior grau hierárquico dentre todos os demais entes do panteão Umbandista. Ao seu lado, na grande maioria das vezes, encontramos as imagens dos demais santos/orixás: Nossa Senhora da Conceição/Oxum; Iemanjá; São Jorge/Ogum; Santa Bárbara/Iansã; São Lázaro/Obaluaê; São Jerônimo/Xangô; São Sebastião/Oxóssi; Santana Mestra/Nanã; São Cosme, Damião e Doum/Erês. Abaixo dessas representações, quase sempre em escala menor, ou em congás separados, mas ainda assim dentro do terreiro, encontramos as imagens dos Pretos-Velhos, dos Caboclos e das Crianças. Geralmente as esculturas das entidades presentes no congá são representações dos espíritos que trabalham na “coroa”1 do Pai ou Mãe de Santo do terreiro. Os orixás/santos estão miticamente acima das entidades espirituais que trabalham na Umbanda, por isso identificamos essas diferenças marcadas
1 Coroa é como é chamado o vínculo místico-espiritual encontrado próximo ao chamado plexo solar, shakra encontrado no topo da cabeça, que liga o médium às entidades espirituais que trabalham com ele por meio de incorporação.
visualmente por meio da disposição nos altares e pela escala, o que constitui simbolicamente uma recriação visual da ordenação do universo cosmogônico da Umbanda.
Figura 15. Congá da Tenda Espírita Nossa Senhora das Graças. Mesquita, 2009. Fonte:
Acervo pessoal.
Figura 16. Detalhe das esculturas das principais entidades da Tenda, todas dispostos abaixo das representações dos santos / orixás. Mesquita, 2009. Fonte: Acervo pessoal.
Contudo, há ainda um grupo de imagens que ocupa um espaço específico do terreiro, localizado bem distante do congá principal: os Exus e as Pombajiras. As imagens escultóricas destas últimas entidades são, quase sempre, colocadas na “Casa de Exu”, ou “tronqueira”, localizada próxima à entrada do terreiro. Birman atribui a distância simbólica existente entre Exus e Pombajiras e as demais entidades a uma espécie de dicotomia bem e mal, mundo da casa versus mundo da rua (BIRMAN, 1995), conceito rico, que, entretanto, acredito não dar conta da riqueza ritual e mítica que rege a diferença entre a disposição das esculturas dos Exus em relação às imagens das demais entidades. A distância que se estabelece entre esses grupos de imagens se deve fundamentalmente à diferença base da função mítica dos entes que representam, função essa que se liga às raízes africanas diversas que permanecem imersas e atuantes, apesar de transformadas, dentro das atribuições sagradas desses entes.
Ao adquirir as imagens que representam os santos/orixás ou demais entidades da Umbanda, o terreiro traz para seu ambiente um novo dado material, que até então pertencia ao mundo profano. As esculturas necessitam então renascer nesse novo campo, o do sagrado.
Para isso processos rituais precisam ser realizados. Segundo informações concedidas pelo Pai
Pequeno2 da Tenda Espírita Nossa Senhora das Graças, localizada no Município de Mesquita, Bruno Benvindo da Silva, as imagens escultóricas consumidas pelo terreiro precisam ser consagradas, imantadas energeticamente por meio de axé3. Para isso, as esculturas que representam os espíritos da direita e os santos/orixás são lavadas com água do mar e água da cachoeira, elementos que representam o axé das iabás4. Logo depois são lavadas com ervas específicas que variam de acordo com a entidade que é figurada pela escultura. Após secar, as imagens são riscadas com pemba5 na parte inferior, rito normalmente realizado por uma das entidades chefes do terreiro, ou pela Mãe ou Pai de Santo, finalizando o processo de consagração da imagem. Por meio desse ritual que se divide em fases, esse objeto consumido pelo terreiro nasce para o mundo sagrado, pois permanece, após esse processo e a partir dele, cheio da força mística da entidade que representa visualmente.
Os ritos que acompanham as imagens escultóricas de Exus e Pombajiras diferem, em certa medida, daqueles das demais entidades. Primeiramente as esculturas são lavadas com cachaça, no caso dos Exus, e com champanhe ou anis, no caso das Pombajiras. Também as imagens são riscadas com pemba e quase sempre são dispostas não no congá do terreiro, juntamente com as demais entidades, mas na tronqueira, espécie de quartinho que fica localizado próximo à entrada do terreiro. Depois de lavadas e riscadas, as imagens de Exu ou/e de Pombajira são devidamente depositadas no interior da tronqueira. Quando adentram esse espaço outros ritos continuam a acompanhar o percurso dessas representações escultóricas. Uma vez recolhidas nesse ambiente, as imagens devem receber sua comida ritual, que em alguns terreiros de Umbanda herda do Candomblé nagô o nome de padê (pàdé), rito no qual Exu é servido antes de todas as demais entidades míticas, para que ele mantenha a ordem propiciatória de bons trabalhos (SANTOS, 2008).
Diferente da complexidade ritual envolvida no pàdé nagô, o ritual que acompanha as imagens dos Exus da Umbanda são bem mais simples, apesar de dialogar com os processos ritualísticos do Candomblé. O padê da Umbanda, assim como o realizado pelos Candomblés, contém farinha misturada a azeite de dendê. Ao invés do sacrifício animal, abolido nos rituais umbandistas, na comida da entidade é também ofertado um bife cru ou mal passado, guarnecido por cebolas. Tal oferenda é disposta em um alguidar de barro e, então, é colocada na tronqueira, aos pés da imagem escultórica, juntamente com sua bebida alcoólica
2 Segundo sacerdote na hierarquia da Umbanda, está logo abaixo da Mãe de Santo/Babá.
3 Força sagrada de cada orixá.
4 Orixás femininos.
5 Pequeno bastão, geralmente cônico, de giz colorido misturado com cola, com que se riscam os pontos(conjunto de sinais mágicos) que identificam cada entidade, segundo um código de cores e formas.
ritualística: cachaça para os Exus, cachaça ou cerveja para os Malandros e champanhe ou anis para as Pombajiras. É também oferecido o fumo predileto da entidade que a escultura representa, que deve ser entregue aceso, usualmente charuto no caso dos Exus, cigarro no caso dos Malandros e cigarros ou cigarrilhas para as Pombajiras. Junto às imagens destas entidades femininas são depositadas também rosas vermelhas, que nunca devem estar em botão, mas abertas, sempre tendo seus espinhos cuidadosamente retirados. Depois de um ou três dias a oferenda com carne é despachada, mas a oferta é refeita periodicamente assim como os outros elementos que devem ser constantemente repostos.
A Umbanda é extremamente diversa e se ramifica em várias vertentes. Citei aqui um tipo de rito que é comum a algumas casas de Umbanda mais ligadas a seus elos negros.
Indubitavelmente, esse rito varia e mesmo inexiste em algumas outras casas umbandistas. Há terreiros mais “embranquecidos” onde ritos com forte caráter de ascendência africana, como as oferendas e mesmo o uso de fumo e álcool, foram abolidos por serem considerados primitivos, o que pode ser atribuído à influência do pensamento neoplatônico eurocêntrico do espiritismo kardecista. Contudo, dificilmente uma imagem escultórica é consumida sem passar por um rito que simbolize seu nascimento para o campo sagrado.
Ao adentrar o terreiro onde existe uma tronqueira, os freqüentadores do culto devem reverenciar esse espaço sagrado que guarda a força dos entes protetores da ordem. Nas tendas umbandistas que pude observar, geralmente os adeptos do culto se curvam frente a esse local em saudação, tocando o chão com a mão direita pedindo licença aos guardiões. O espaço da tronqueira habitualmente é fechado e seu interior só pode ser adentrado por iniciados do culto.
Dentro, no lado esquerdo da construção, ficam dispostas as imagens dos principais Exus, Pombagiras protetores da casa, geralmente os que trabalham com as Mães ou Pais de Santo.
No exemplo registrado, a tronqueira da Tenda Espírita Nossa Senhora das Graças, localizada no município de Mesquita, isso é bastante notório. Vemos diferentes imagens de Exus, sendo os principais, Tranca Ruas e Rosalina, e duas representações da Pombajira Rosalina, entidades que trabalhavam com os fundadores da Tenda, em escala maior. Um pouco menor está representado Exu Pimenta, entidade que trabalha com a atual Babá da casa. As outras esculturas em escalas menos expressivas representam os espíritos que trabalham com os dois Pais Pequenos da casa, a saber: Exu Veludo, Exu Tiriri e Exu das Sete Encruzilhadas. Entre as supracitadas esculturas de entes da “esquerda” um detalhe iconográfico afirma a idéia de mudança sofrida pela mítica de Exus e Pombajiras ao longo das décadas. Nessa tronqueira existem duas representações da mesma Pombajira, Rosalina. A mais antiga é feita de cerâmica, tem 63 anos de idade e está na Tenda Umbandista desde sua fundação. A outra
escultura da mesma entidade tem um pouco mais de 15 anos e é feita de gesso. A princípio, a iconografia de ambas parece ter sido produzida pelo mesmo molde, pois ambas possuem postura física muito similar e as mesmas vestes. No entanto, um pequeno detalhe diferencia as esculturas e revela um dado simbólico ligado à mítica do ente figurado. A imagem antiga de Rosalina guarda ainda um dos ícones visuais da demonização dos entes da Umbanda, os chifres que surgem na testa da entidade figurada. Já na imagem recente não vemos nenhum chifre ou qualquer outro símbolo comum à iconografia dos demônios cristãos. Tal modificação iconográfica acaba por denotar o processo de transformação que a mítica de Exus e Pombajiras da Umbanda vem sofrendo ao longo dos anos, o que gradualmente, parece diluir os símbolos demoníacos em detrimento de imagens que figuram entes cada vez mais humanizados.
Próximo à tronqueira, por vezes em espaço conjugado, sempre do lado direito, fica localizado o espaço das almas, usualmente ocupado por imagens de Pretos-Velhos, ou mesmo apenas uma cruz branca guarnecida por velas, representando o cruzeiro das almas. A composição desses espaços, obviamente, varia de acordo com a casa, sendo que em alguns terreiros de Umbanda nem mesmo existem. Na Tenda Espírita Nossa Senhora das Graças vemos duas pequenas imagens de cerâmica representando dois Pretos-Velhos, além de suas bebidas rituais (café e água), velas, uma cruz e uma pequena imagem de Obaluaê, orixá chefe da linha das almas.
Figura 17. Localização da tronqueira e da casa das almas da Tenda Espírita Nossa Senhora das Graças, situada próxima à porta de entrada. Mesquita, 2009. Fonte: Acervo pessoal.
Figura 18. Espaço da tronqueira e da casa das almas. Mesquita, 2009. Fonte: Acervo Pessoal.
Figura 19. Interior da tronqueira e da casa das almas da Tenda Espírita Nossa Senhora das Graças. Mesquita, 2009. Fonte: Acervo pessoal.
Figura 20. Detalhe dos espaços da tronqueira e da casa das almas. Nova Iguaçu, 2009. Fonte:
Acervo pessoal.
Figura 21. Detalhe da tronqueira, onde é possível ver diferentes esculturas policromadas. As imagens representam respectivamente: Exu Pimenta, Exu Veludo e Pombajira Rosalina. Esta última perdeu sua policromia e tem em torno de 63 anos, tempo de existência do terreiro.
Mesquita, 2009. Fonte: Acervo pessoal.
Figura 22. Outro ângulo do interior da tronqueira. Aqui é possível ver novamente a imagem antiga da Pombajira Rosalina, sem policromia; uma representação de Tranca Ruas; uma segunda imagem da Pombajira Rosalina, esta, mais recente. Em escala menor, no lado direito, estão as imagens de Exu das Sete Encruzilhadas e do Exu Tiriri. Mesquita, 2009. Fonte:
Acervo pessoal.
Figura 23. Detalhe da casa das almas. Neste espaço existem duas pequenas representações de cerâmica de um casal de Pretos-Velhos, guarnecidos por velas, xícaras de café, um copo de água, uma cruz branca, e uma pequena imagem do orixá Obaluaê. Mesquita, 2009. Fonte:
Acervo pessoal.
Dificilmente é permitido pelas autoridades sacerdotais dos terreiros que possuem tronqueira, fotografar o interior de tal espaço sagrado, por ele conter elementos simbólicos, mistérios magísticos e rituais que devem permanecer velados aos olhos dos não iniciados.
Em sua publicação, Tranca Ruas e sua evolução milenar, Francisco Mariano descreve o que existe na casa das almas e na tronqueira de seu terreiro, que difere pouco do citado anteriormente:
Do lado esquerdo temos duas casas de alvenaria conjugadas, com portas de ferro envidraçadas, espaçosas, cabendo cada uma pelo menos seis pessoas em pé. Na primeira casa estão plantadas as obrigações dos Pretos-Velhos e das Pretas Velhas, chefiados por Pai Manuel de Aruanda e Vovó Cambinda da Guiné, todos representados por imagens de gesso, acompanhadas de dos coités contendo água e vinho, seus fumos e cachimbos, sendo a casa iluminhada por uma lâmpada elétrica de 25 watts e velas de cera.
Na segunda casa estão plantados os Exus do terreiro, que são representados por imagens de gesso de sessenta centímetros da Pombagira Maria Padilha, Tranca Rua de Embaré, Zé Pelintra, João Caveira e Lúcifer, todos com seus respectivos fundamentos. No solo da casa
dos Exus existem vários materiais enterrados a pedido dos mesmos, que não podem ser revelados, pois constituem segredos e as magias de suas firmezas e de seus trabalhos na casa.
Já no assentamento (por cima do solo) têm carvão, saibro, tabatinga, enxofre, ferro em pó, ferro virgem, ferro imantado, raspas de pembas, dendê e querosene, tudo iluminado por uma tênue lâmpada vermelha e velas da mesma cor.
Cada entidade tem duas quartinhas para sua alimentação e bebidas, que no caso da Pombagira pode ser champanhe, batida de anis ou contreau e para os Exus whisky, conhaque ou cachaça, acompanhado de cigarros e charutos. (MARIANO, 1998, p. 122)
Conforme relatos recolhidos entre umbandistas e ainda baseado no que discorre a literatura contemporânea espírita (PINHEIRO, 1998) é quase unânime a concepção religiosa que afirma que os Exus e as Pombajiras são os guardiões das tendas Umbandistas. A localização de suas representações no espaço do terreiro corresponde à sua função mítica que, de certa maneira, dialoga com a função atribuída à representação do orixá Èsù. Na África, os nagô depositavam as imagens de Èsù nas encruzilhadas, nos centros comerciais, nas portas das casas e dos locais de culto para que os maus espíritos fossem afastados e pudesse, dessa maneira, manter a ordem social equilibrada, sem grandes desajustes (VERGER,1999;
SANTOS, 2008). A função de ente protetor é descrita inclusive nas cantigas dos candomblés nas quais o orixá Exu aparece como Iná e Òjisé:
[...] Iná, kó o wá gba Iná, Iná, kó o wá gba àiyé.
tradução:
[...] Iná, venha e proteja
Iná, Iná, venha e proteja o mundo. (SANTOS, 2008, p. 190)
Òjisé pa le fun wáá o Òdàrà pa le s' oba [...]
tradução:
Òjisé, tome conta da casa para nós (seja nosso guia nosso protetor Òdàrà seja o guia, seja o rei [...]. (SANTOS, 2008, p.191)
A herança mítica de ente protetor dos Exus na Umbanda pode ser notada apesar de suas funções nesse sistema serem menos complexas do que as múltiplas funções cosmogônicas de Èsù orixá, conforme explicitadas por Juana Elbein em Os Nagô e a Morte (SANTOS, 2008).
Talvez o principal aspecto herdado da cosmologia iorubana seja o de ente do culto que precisa ser reverenciado para que a harmonia geral seja mantida. Exu seria o guardião não apenas do sagrado, mas de toda ordem social.
Os locais onde predomina a presença mítica desses entes na Umbanda revelam parte fundamental da concepção que lhes é atribuída no universo do sagrado desse culto afro-brasileiro. E, investigando os dados simbólicos presentes em seus locais sagrados, compreendemos a função exercida por suas representações nas tronqueiras do terreiro. Essa função está distante de dialogar com dicotomia bem versus mal, supostamente representada
pela distância simbolizada pela localização das representações das entidades da esquerda em relação às imagens das entidades da direita.
As encruzilhadas, as portas dos terreiros e os cemitérios são locais de tensão entre o campo harmônico e o universo caótico, entre o mundo pacato conhecido e o universo desordenado e desconhecido. A encruzilhada é foco das observações de Chevalier (2006) por ser, nas mais diversas culturas e nas mais distantes temporalidades, espaço de grande importância simbólica vinculado quase sempre ao limiar entre a ordem e o caos. Em seu dicionário de símbolos o autor diz que a encruzilhada:
Liga-se à situação de cruzamento de caminhos que converte numa espécie de centro do mundo. Pois, para quem se encontra numa encruzilhada, ela é, nesse momento, o verdadeiro centro do mundo. Lugares epifânicos (i.e., aqueles onde ocorrem aparições e revelações) por excelência, as encruzilhadas costumam ser assombradas por gênios (ou espíritos), geralmente temíveis, com os quais o homem tem que se reconciliar. (CHEVALIER, 2006, p. 367)
Chevalier ainda adentra nas concepções religiosas sobre as encruzilhadas vistas pelo prisma de diferentes culturas africanas. Esse trecho chama a atenção pela proximidade existente entre o universo sagrado dessas culturas com a função mítica contemporânea dos donos das encruzas da Umbanda. De forma não muito distinta da concepção religiosa dos entes das encruzilhadas dos bambara, os Exus e Pombajiras da Umbanda, além de também receberem oferendas nesses espaços, são igualmente reconhecidos por sua função de limpar os locais de toda espécie de energia nociva:
Entre os bambara dos Mali, costuma-se depositar nas encruzilhadas, oferendas (ferramentas, algodão bruto, tecidos etc.) para os espíritos Soba, que constantemente intervêm nos destinos humanos. O mesmo acontece entre os balubas, luluas e outros bantos do Casai. [...] No entanto, a encruzilhada, embora seja um lugar de passagem por excelência, é também o local propício para que as pessoas se desembaracem das forças residuais, negativas, inaproveitáveis, nocivas para a comunidade: os bambaras, por exemplo, depositavam nas encruzilhadas as imundícies da cidade, carregadas de uma força impura, que só os espíritos conseguem neutralizar ou transmutar em força positiva. E também por essa razão os bambaras costumam depositar nesse mesmo local os objetos que tenham pertencido aos mortos. Pois acreditam que os espíritos as encruzilhadas são capazes de absorver as forças assim eliminadas [...] Os senufos também consideram os monturos depositados nas encruzilhadas como locais sagrados, freqüentados durante a noite por espíritos protetores da família.
Costumam depositar nesse local oferendas votivas, tais como casca de ovos, ossos de animais sacrificados aos espíritos, penas de ave misturadas com sangue. (CHEVALIER, 2006, p. 367-368)
É exatamente nesse local “privilegiado para as emboscadas” (CHEVALIER, 2006, p.
370), onde o perigo espreita os passantes, que nos deparamos com as entidades sagradas da Umbanda mais próximas ao universo profano, Exu e Pombajira. Estes são os entes mais humanizados do culto, que por pertencerem não só à ordem, mas por também compartilharem um pouco do caos, e, portanto, o conhecerem bem, conseguem contê-lo ou, pelo menos,
limitar sua ação. São eles, então, seres temidos e, simultaneamente, amados, que sabem indicar no confuso e desconhecido entrecruzamento infinito de estradas qual o caminho mais seguro a ser trilhado. Pombajira e Exu surgem nas encruzilhadas e concedem favores no momento em que o caos e a escuridão se pronunciam, assim como sugerem os pontos cantados, coletados durante trabalho de campo:
Lá na encruza na encruza existe um homem valente com sua capa e cartola e seu punhal entre os dentes é madrugada, é madrugada ele está do meu lado
por isso eu te digo Tranca Rua você é meu advogado.
Deu meia noite a lua se escondeu Lá na encruzilhada dando a sua gargalhada Pombajira apareceu é laroiê é laroiê é laroiê é mojubá é mojubá é mojubá ela é Odara
que tem fé nessa Lebara é só pedir que ela dá.
(Ponto cantado registrado na Tenda Espírita Nossa Senhora das Graças, Mesquita, Rio de Janeiro, 2008.)
Não há motivo para temer o breu da madrugada, nem os perigos que rondam a noite, pois se você possui um Exu como amigo não precisa temer a desordem. Essa é a idéia que impera nos terreiros de Umbanda. Fato que comprova tal crença é a chamada “sessão de proteção para o carnaval”. Nesta gira, comumente realizada pela maioria dos terreiros de Umbanda, os Exus, Pombajiras e Malandros são evocados para conceder sua proteção ante o caos enunciado pela chegada do carnaval. Quem melhor para proteger os foliões de toda sorte de violência física e espiritual, que os umbandistas acreditam ampliar substancialmente nesse período do ano graças à atuação de espíritos maléficos, do que aqueles que também compartilham do gosto pelos festejos profanos de Momo? Por serem entidades humanizadas e, desta maneira, portarem em si a ambivalência bem e mal, os Exus e Pombajiras podem circular nos ambientes considerados mais profanos e “carregados”, protegendo, assim, seus amigos em toda espécie de lugar e de todo tipo de mau espírito, esteja este encarnado ou desencarnado.
Além da encruzilhada, outro lugar sagrado onde Exus e Pombajiras recebem culto são as porteiras, sejam elas dos cemitérios ou dos terreiros. Como dito anteriormente, as representações escultóricas desses entes da Umbanda estão quase sempre localizadas
próximas às portas das casas de culto. As porteiras são elementos míticos de simbologias complexas que, apesar de sua diversidade simbólica, podem ser relacionadas com o campo mítico das “encruzas” e, assim, nos fazer compreender por meio desses diálogos qual a relação desses ambientes com o “povo da esquerda”.
A porta simboliza o local de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido o desconhecido, a luz e as trevas, o tesouro e a pobreza extrema. A porta se abre sobre um mistério [...] As portas dos templos são muitas vezes guarnecidas de guardiães ferozes [...] Trata-se ao mesmo tempo de proibir a entrada no recinto sagrado de forças impuras, maléficas, e de proteger o acesso dos aspirantes que são dele dignos. (CHEVALIER, 2006, p. 734)
Exus e Pombajiras se encontram à frente dos campos de tensão entre o sagrado e o profano, ou melhor, entre diferentes campos sagrados, porque na Umbanda as ruas assim como as encruzilhadas também possuem sua dimensão sagrada. Eles pertencem a ambas as esferas, se encontram no limiar entre esses dois mundos, e por isso são os mediadores das passagens. Conhecem o caos e a escuridão, já pertenceram a ele e têm acesso livre a esse meio. Portanto, compreendem a natureza daqueles que ainda se encontram lá, ao mesmo tempo em que reconhecem a superioridade da ordem do sagrado e da esfera superior da luz, com quem buscam cooperar. Essa concepção de luz e trevas pertence claramente a um fundo doutrinário cristianizado.
Contudo, Exu e Pombajira conseguem, paradoxalmente, apesar de fazerem parte de um culto “embranquecido” pela lógica religiosa cristã, se manterem entre, se cultivarem duais e fazerem disso seu principal atributo dentro dessa religiosidade. Ao mesmo tempo em que são amigos indispensáveis, são guardiões temíveis, tidos sempre contraditoriamente com extremo respeito, temor, carinho e intimidade pelos adeptos do culto.
As representações dos senhores e senhoras da esquerda se encontram próximas às entradas e à rua, e não junto ao congá, porque os Exus e as Pombajiras são os mediadores das passagens, são mantenedores da ordem a despeito do caos. Pertencer ao “povo da rua” não significa que eles sejam entes maléficos e quase profanos que precisam ser aplacados com oferendas, até porque as ruas, assim como seus encontros, são, para os adeptos do culto, sagradas. A tronqueira é o posto simbólico de vigilância dos entes da esquerda, localizados em um ponto de tensão, o encontro de diferentes universos sagrados. Na Umbanda, as oferendas dispostas nesses espaços a essas entidades são antes de tudo uma espécie de homenagem, uma forma mágico-simbólica de agradecimento, prestada àqueles que estão à frente de uma batalha exaustiva, a de manter a harmonia em seus vários níveis, a de impedir o