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Começando pela direcção regional de educação, a professora da equipa de apoio às escolas revela percepções distintas acerca dos cursos de educação e formação e dos cursos profissionais. Aos primeiros associa o vector da escolarização, o cumprimento da escolaridade obrigatória, quando refere “Nos CEF’s são empurrados para ali para fazer o 9º ano”

(E5:471). Esta percepção articula-se com a imagem de alunos de insucesso que

frequentam estes cursos “nos CEFs são alunos de insucesso que desta forma terminam o 9º ano.”,

associada a uma imagem de um quadro familiar pouco presente e demissionário “os alunos dos CEFs pertencem em geral a famílias que dão pouco apoio, (…) que os pais não aparecem, os pais deixam que a escola resolva os problemas dos filhos.” Por outro lado, há a percepção que neste quadro familiar os cursos são pouco valorizados, em que a certificação profissional é considerada pouco credível e a académica é encarada como de segunda,

“Mesmo para os pais estes tipos de cursos não são bem vistos. Isto é uma segunda oportunidade. Quase um curso de segunda, não dá para outra coisa.” (E5:455)

Relativamente aos cursos profissionaishá um entendimentomais complexo. Por um lado, está associado ao vector do mercado de trabalho quando se refere que “Mas eu acho que quem procura os profissionais procura mesmo ter uma saída, quer mesmo arranjar emprego”

(E5:460). Por outro lado, encontramos uma imagem dos alunos destes cursos que está

ligada a um certo descontentamento e às notas baixas, “Alguns fizeram o 9º ano, não têm boas notas, ou andam chateados, e inscrevem-se num curso profissional”. Deste modo, se na primeira situação é o mercado de trabalho que atrai os alunos a estes cursos, no segundo é o

109 vector da escolarização que mais atrai, uma vez que estes cursos constituem uma possibilidade de concluir o secundário mais facilmente.

Por último, para esta professora da equipa de apoio às escolas, numa abordagem muito próxima da apresentação oficial da INO, estes cursos representam uma resposta para o cumprimento da escolaridade obrigatória, para o abandono escolar e para a falta de qualificação profissional.

“Eu penso que a vantagem é sobretudo para os alunos, para as escolas é mais uma adaptação, é mais uma experiência. Para os alunos é mais uma oportunidade, estes jovens que iriam abandonar (…). Depois a nível da qualificação, tanto escolar como profissional, fazia falta. A nossa população tinha até falta da escolaridade obrigatória e muito mais da qualificação (E5:454).

Passando agora para o depoimento da técnica da ANQ também encontramos uma imagem dos cursos muito próxima da abordagem institucional. Assim os cursos da INO aparecem associados à melhoria do serviço público educativo prestado pelas escolas do sistema educativo. Em primeiro lugar, surge a imagem em que a escola ganha a possibilidade de disponibilizar uma oferta curricular diversificada e mais ajustada aos interesses dos seus utentes, “ respostas diferentes, para públicos diferentes”. São ajustados na medida em que são mais práticos e prestáveis a uma maior motivação e sucessopara um determinado grupo de alunos. Deste modo, esta imagem configura uma escola atenta à sua população estudantil, no que diz respeito a cursos mais práticos, de forma a prestar um serviço público que enquadre aqueles que a frequentam,

“Há que dar respostas mais adequadas aos jovens. Há jovens tal como os adultos que preferem fazer actividades mais concretas do que abstractas e então não estão bem enquadrados num percurso regular que os está a preparar para o ensino superior. Sentem-se melhor e têm mais sucesso, e sentem-se mais motivados se estiverem num curso mais prático, com actividades mais práticas.”(E10:214)

Em segundo lugar, articula-se com a possibilidade de concretizar a igualdade de acesso a estes cursos suprindo o número limitado de escolas privadas profissionais no terreno,

“é preciso que a escola perceba que, enquanto serviço público, em Lisboa ainda temos muitas escolas, mas se formos para a Lezíria temos uma ou duas escolas públicas, com mais ou duas profissionais. Assim essas escolas têm que perceber que têm que dar uma oferta diversificada aos seus jovens. Não podem ficar só com percursos regulares e dar hipóteses só a alguns. (…) Não vejo porque tem que ser só as escolas profissionais, porque é assim, as escolas profissionais não abrangem todos os concelhos de Portugal, são privadas.” (E10:219)

Outra representação desta medida está associada, num primeiro momento, ao acréscimo de escolarização, isto é, o cumprimento de 12 anos de escolaridade.

“A meta principal é que a grande maioria dos alunos cheguem e concluam o ensino secundário, embora na lei de bases ainda esteja a escolaridade obrigatória o 9º ano. Neste momento o

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patamar mínimo que se pretende atingir é de facto que os jovens concluam o ensino secundário” (E10:505)

E, num segundo momento, o apelo do mercado, a preparação de profissionais intermédios, é outra imagem que é desenvolvida pela técnica da ANQ como aqui se refere

“(…) aquilo que se nota, e o que o tecido empresarial tem dito, é que o facto de nós há muito tempo termos optado por um tipo de ensino diferente, e de facto os cursos tecnológicos não preparavam para a vida activa, nem sequer tinham estágio, e durante algum tempo a maior parte dos alunos acabava por ir para cursos superiores. O que nós temos neste momento é falta de profissionais qualificados em termos intermédios. Há pessoas que estão a exercer profissões que não estão qualificadas e portanto os alunos não deixam de prosseguir para o ensino superior e, tudo bem, fazem um profissional de nível 2 ou 3 e depois podem prosseguir. Se não for agora, pode ser mais tarde, mas ficam também com uma qualificação. Se quiserem começar a trabalhar estão preparados para isso.”(E10:513)

A esta imagem de resposta ao apelo de mercado, os cursos de dupla certificação aparecem mais adaptados, «afinados», comparativamente aos dos cursos tecnológicos que “não preparavam para a vida activa, nem sequer tinham estágio”. Contudo esta imagem, que tem como referência o mercado, salvaguarda a importância atribuída ao percurso académico aqui expresso pela frase “ não deixam de prosseguir para o ensino superior” como forma de credibilizar este percurso escolar.

Em síntese, nesta secção, verificamos que tanto na escola como na DRE e na ANQ perpassa a imagem «oficial» na qual estes cursos ajudam a diminuir o insucesso no ensino regular, a cumprir a escolaridade obrigatória e a combater o abandono escolar. Ainda neste registo «oficial» também está presente a imagem de uma maior diversificação de oferta escolar e de um maior ajuste às características dos alunos, bem como de uma maior facilidade na transição para a vida activa e na resposta ao apelo do mercado. Na sequência desta abordagem oficial, encontramos na escola uma imagem associada a estes cursos de reconhecimento profissional dos docentes e da legitimação da escola perante os pais, encarregados de educação e as empresas. Contudo, em relação à formação teórica proporcionada por estes cursos há na escola uma apreciação menos positiva que é tida como uma formação «mínima». Há mesmo uma percepção em que a resposta ao problema da distribuição de serviço docente é o aspecto determinante, desvalorizando o carácter formativo dos cursos. Por outro lado, estes cursos também são vistos como uma possibilidade da escola se abrir ao exterior, designadamente para as empresas, e criar uma maior interdependência. Tanto na escola como nas empresas

111 encontramos a percepção que é necessário desenvolver o conhecimento mútuo. Nas empresas há a percepção que participam no desenvolvimento curricular no que diz respeito à formação prática numa dualidade complementar em que a escola faculta a formação teórica. Na empresa também há a percepção de vantagens na relação com as escolas designadamente no recrutamento de novos trabalhadores, que é facilitado quando proporcionam estágios às escolas. Porém também encontrámos a imagem que estes cursos estariam mais apropriados para os adultos e não para os jovens, pois estes deviam estar só na escola a «estudar».

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Capítulo VI - Considerações Finais