3 A ASSISTÊNCIA DOMICILIAR NA UNIMED LAR: A APROXIMAÇÃO COM OS
3.2 Conversando com os sujeitos: as entrevistas
3.2.2 As implicações do cuidado: a saúde do cuidador
O cuidado como uma ação qualificada e executada, que exige muita dedicação, tem sérias implicações para o cuidador, que vive buscando combinar cuidado e qualidade de vida, tanto do seu paciente como de si mesmo. Observa-se que a sobrecarga de trabalho do cuidador tem sido um dos pontos de estresse e de abandono da função. Quando isso acontece, ele começa a apresentar sinais de cansaço, esgotamento, sintomas de doença e outros.
Como podemos observar no relato de um cuidador familiar que segue, no qual afirma que: “Se você não tomar um cuidado a sua saúde fica debilitada, né. Você começa a sentir estresse porque é muito cansativo e tudo mais. Mas você fazendo com amor e tendo alguém que ajude você, dá para continuar.” (M., 56 anos, filho cuidador).
O cuidado realizado somente por uma pessoa da família ou somente por um cuidador contratado provoca neste carga de estresse redobrado , chegando ao limite de suas possibilidades, cujo passo seguinte é administrar a situação, passando a dividir esta responsabilidade com outros membros da família ou de novos cuidadores contratados. Cuidar de um doente em casa tem sido recomendável, porém, cuidar de um doente, idoso, incapacitado e dependente durante 24 horas sem pausa é uma tarefa tarefa extremamente penosa para uma pessoa sozinha e geralmente com idade avançada, como podemos constatar nesta pesquisa. O relato a seguir, de um cuidador
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familiar, envolvido durante 24 horas por dia com o cuidado é prova disso: “[...] ela fica comigo vinte e quatro horas no atendimento direto. À medida que vai passando o tempo você começa a ter um cansaço muito grande, um estresse e você não agüenta sozinho, e isso ocorreu comigo uma coisa de uns dois meses prá cá” (M., 56 anos, filho cuidador).
Assim, “[...] a atividade de cuidar pode acabar asfixiando o cuidador se este não tem condições de oxigenar-se” e contar com o apoio de outras pessoas. Situações incertas podem acontecer, nas quais muitas vezes pessoas também em situação de risco, dependência ou enfermidade acabam assumindo a função (SAS, 1998, p. 19).
Karsch (2003) afirma que investigações tanto no Brasil como em outros países, verificaram que os cuidadores envolvidos diretamente com o doente sofrem de um nível elevado de estresse devido a pelo menos, quatro fatores:
as práticas de cuidar, em que o trabalho físico é requerido 24 horas; os comportamentos, quando idosos apresentam comportamentos perigosos e/ou agressivos; as relações interpessoais, quando os cuidados, e o esforço que exigem, desgastam a relação afetiva existente entre idoso e cuidador; e as conseqüências da vida social, quando as perdas ocasionadas pelo ritmo de cuidado com seus amigos e sua participação em qualquer atividade de lazer” (p. 108).
Cuidar de um familiar doente, idoso e dependente está diretamente vinculado à função de cuidar de doença e não de saúde, atingindo-o principalmente no final da vida e não no começo, no processo de uma recuperação lenta que pode ser parcial e não total, em uma dependência, e num processo emancipatório e lento com poucos ganhos do doente. O cuidador, mais do que ninguém, aposta nessa recuperação:
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Se Deus quiser, ele vai ter sempre... ter possibilidade de tomar o banho dele, de andar; eu espero que depois desse tratamento que o médico tá propondo fazer eu confio em Deus que vai dar tudo certo, que ele vai caminhar com os pés dele... Claro, vai ter cuidados meus, mas não aquele cuidado minucioso, que ele vai depender vinte e quatro horas por dia de mim, né. Isso aí, não... Eu tenho fé em Deus que ele vai superar isso aí”(W., 64 anos, esposa cuidadora).
A doença de um familiar coloca as pessoas diante da finitude e da fragilidade da vida humana. Os relatos a seguir nos aproximam desta afirmação. São relatos de cuidadores que convivem e cuidam de familiares doentes em domicílio e expressam os limites e as possibilidades do ser humano diante de questões relacionadas à vida. Neste sentido, afirma que [...] tudo o que agente podia fazer pela mãe nós fizemos, só que ela chegou numa hora [...] ela tava internada lá no hospital [...]” (Q., 31 anos, filha cuidadora).
Como podemos observar neste relato que segue, no qual a cuidadora afirma que a vida tem uma lei, e, se tentarmos burlá-la, mesmo assim teremos que cumpri-la. Ela diz: [...] agora eu tô mais presa em casa. A lei da vida é essa, a gente tem que respeitá-la, né (risos). (N., 78 anos, esposa cuidadora).
Podemos caracterizar a partir dos relatos acima que estas questões também se caracterizam como fatores de estresse de cuidadores e familiares. O relato de uma cuidadora que desempenha a função de cuidar de sua mãe, também explicita o que descrevemos: [...] ela sentia muita dor, as coisa que ela gostava de fazer, ela não fazia mais, pedia pra gente [...] (Q., 31 anos, filha cuidadora).
Quando o cuidador principal começa a apresentar sinais de cansaço, recorre a outras pessoas para que os auxilie na tarefa de cuidar, sendo estas contratadas ou familiares. Se o cuidador permanecer sozinho, o que se observa é que acaba adoecendo e ficando sem forças para continuar o processo, chegando ao “seu limite”. Segundo o depoimento que segue, o cuidador demonstra consciência do seu limite e
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busca ajuda para dividir a função; “Cheguei no limite.logo vi que tava chegando, já comecei a querer me cuidar disso, então precisa realmente, daí você tem que dividir, não tem jeito” (M., 56 anos, filho cuidador).
O desgaste no papel do cuidador representa o peso do cuidado sobre sua saúde física e emocional, e seus efeitos sobre a organização social e familiar do doente. Neste sentido, ter cautela e solicitar ajuda de outras pessoas são passos importantes para não sentir tanto o desgaste e o estresse de cuidar (DIAS, 2002).
A tarefa de buscar outros cuidadores para auxiliar nas atividades implica o desgaste de definir novas estratégias e procedimentos, tais como: quem escolher, o que ensinar, horário de trabalho, a formalização das relações de trabalho, expectativas e outros. Esta questão pode ser observada no relato que segue sobre a organização do cuidado a partir de um novo cuidador e como este poderá tocar sua vida fora da função de cuidar:
É isso que a gente agora tá começando a fazer e de preferência com pessoas que ela já conheça e que se dá bem, como essa menina que trabalha aqui já há vinte anos, ela é considerada como uma filha. Então fica cinco horas com ela ali [...] eu às vezes tô em casa tô em casa mas daí eu me desligo daquele trabalho e vou fazer alguma outra coisa, ou vou fazer uma compra, vou ao banco, vou ao supermercado, e isso já me [...] deixa a cabeça um pouco mais leve. (M., 56 anos, filho cuidador).
Os familiares, quando não residem próximo ao doente, pouco ou nada se envolvem com o cuidado. Esta questão tem sido fator de conflitos familiares, pois torna-se obrigação e responsabilidade para somente aquele que convive mais próximo. O relato a seguir feito por uma mãe cuidadora em relação ao seu filho demonstra a não participação dos filhos no processo de cuidar em relação ao pai doente. O doente, 58 anos, separado, do segundo casamento, sem renda, pois abandonou o serviço público há cinco anos sem possuir direito a benefícios, portador de doença pulmonar obstrutiva e coronariana (DPOC), semidependente, reside com a mãe, ficando a esta
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como cuidadora principal e com responsabilidade pelo filho doente: “[...] muito difícil alguém vir. As filhas nunca mais vieram aqui, nem ligar pra saber dele. Às vezes elas vinham buscar, levavam pra lá, passavam o fim de semana com ele e, agora nem isso elas não fazem. Não tem mais, é completa minha responsabilidade. (E., mãe cuidadora).
O relato a seguir também demonstra a ocupação dos filhos em não dispor de tempo para ajudar a cuidar, restando a esposa como cuidadora responsável:
[...]visitar eles, vêm, mas eles também têm as ocupações deles, né, têm as famílias, estão sempre com pressa, e aqui no prédio não tem uma garagem que seja da gente, então eles estacionam o carro e têm que tá tirando, e corre pra lá e corre pra cá ; não dá de ficar assim [...] muitas horas, ajudando, né. (N., 78 anos, esposa cuidadora).
Como vemos descrevendo no decorrer deste trabalho, a partir dos relatos das entrevistas dos familiares cuidadores observamos que o desgaste, o estresse, o cansaço e a pouca participação de alguns de seus membros no processo de cuidar, podem ser fatores determinantes dos conflitos familiares e do processo de cuidar.
Neste sentido, os prestadores de cuidado, com responsabilidades múltiplas e ininterruptas, relutam em admitir que necessitam de ajuda. Essa relutância pode ser interpretada como dispensa por ajuda. O cuidador torna-se mais isolado, com sentimentos de desprezo e de pouca importância, ou de pouca apreciação pela quantidade de trabalho, o que pode resultar em depressão, estresse, raiva e doenças, e até mesmo levar à automedicação. Os relatos a seguir ilustram:
[...] na semana passada, eu senti uma pressão no coração assim [...] Muito [...] Ansiedade, muito mais. Então eu tomei a liberdade já, uns três, quatro dias pra cá de tomar um Lorax uma miligrama e [...] Comecei a me sentir melhor. Quer dizer, já é um sinal, eu sei disso, um sinal de estresse pelo tempo, que são quase oito meses se arrastando o problema, muitas horas não tem assim [...] Um revezamento, né, porque é difícil. Seria fácil se tivesse um revezamento de seis em seis horas, de oito em oito horas. Você fez aquelas oitos horas, você sai [...] Esfria a cabeça, depois volta no
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outro dia, mais oito horas, e isso não leva você a se cansar mais. (M., 56 anos, filho cuidador).
Diz o cuidador: “[...] a gente começa a haver um cansaço. É uma constância de serviços, é uma [...] você tem praticamente sua vida em função desse atendimento.”(M., 56 anos, filho cuidador).
E mais: “[...] tu não sai mais os finais de semana, fica só trancada dentro de casa [...]” (Q., 31 anos, filha cuidadora).
Segundo Mendes (2002), isso parece ser uma característica constante do processo de cuidar em família, pois o cuidador, ao assumir o cuidado, abdica de sua vida particular, passando a cuidar dia e noite, e fortalece o que o autor designa de uma forma de trabalho subalternizada na hierarquia familiar.
Outro fator de preocupação e desgaste é a rotina exigida no processo de cuidar. Os relatos das cuidadoras a seguir expressam a exigência de tal rotina, quanto a: horário da medicação: [...] horário [...] Meia-noite, uma hora [...] Teve remédio que ele já tomou às duas horas da manhã, eu fico de plantão, não durmo, sabe [...]Uma e pouco da manhã..[...] (W., 64 anos, esposa cuidadora); curativos: “Só me dizendo como é que eu devo fazer, não tem escapatória. Tudo, aqueles curativos dele ali, dessa perna aqui [...] Tinha que limpar bem lá dentro, bem lá dentro [...] Eu limpava, passava bastante soro, Polvedini [...] Naquela époc,a eu passava Dersane, depois, né, arrumava [..]. duas vezes por dia eu fazia aquilo ali.[...]” (W., 64 anos, esposa cuidadora); banho: “esses dias, aí foi eu e a D. que demo banho nele, botamo na cadeirinha, trocamo fralda, tudo [..]” ( V., 36 anos, cuidadora contratada).
Diante disto, é possível dizer que a dinâmica das condições de trabalho e o modo de vida continuam sendo fatores importantes para que se compreenda o processo
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de cuidado da saúde, adoecimento e morte da população. Neste sentido, Minayo afirma que
“[...] a saúde e a doença envolvem uma complexa interação entre os aspectos físicos, psicológicos, sociais e ambientais da condição humana e de atribuições de significados. Pois saúde e doença exprimem agora e sempre uma relação que perpassa o corpo individual e social, confrontando com as turbulências do ser humano enquanto ser total” (1993, p. 15).
Fica-nos evidente que o binômio saúde/doença pressupõe a articulação entre as diferentes interfaces sociais e que ele depende do modo de viver, da qualidade de vida e do acesso que os indivíduos tenham a bens e serviços disponíveis para desenvolver o trabalho (MENDES e OLIVEIRA, 2002).
Uma das premissas do cuidado em assistência domiciliar é ele ser dividido com os membros da família. Não sendo possível, recorre-se a uma rede de apoio para dar sustentabilidade e conforto ao paciente. Esta não se concretizando, a busca é para fora da rede, recorre-se a profissionais pagos para desenvolver a tarefa. Neste sentido, detalharemos mais sobre o assunto no item que segue.