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As inferências dedutivas, indutivas e abdutivas

No documento Pragmatismo, decisão e efetividade (páginas 95-99)

1 O PARADIGMA ATUAL DE DIREITO

2.4 As dimensões do pragmatismo

2.4.1 A dimensão lógica

2.4.1.2 As inferências dedutivas, indutivas e abdutivas

Compreender o processo lógico de produção da crença, desde a percepção, passando pela geração e seleção de hipóteses explicativas até o momento de solução do problema ou

significação do conceito, é essencial para correlacioná-lo com o estudo do processo racional de tomada de decisão no direito.

Para tanto, é evidente que todo o processo de pensar se dá a partir de premissas, que, no caso, como já analisado anteriormente, tais premissas ingressam pelo juízo da percepção.

Mas, embora a percepção seja o processo de entrada do conhecimento, ela se desenvolve racionalmente, por meio de uma série de inferências.

Nesse contexto, a abdução compõe todo o processo de significação e tomada de decisão, sem excluir, contudo, as inferências indutivas e dedutivas. Com a abdução, ao lado das inferências já tradicionais, aprimora-se o método pragmatista. Isso porque a abdução se desenvolverá no contexto de descoberta, ao gerar e recomendar uma hipótese explanatória, capaz de ser testada experimentalmente. Em um segundo momento, didaticamente diferenciado, o investigador deduzirá predições experimentais, esperando que elas, após testadas indutivamente, se confirmem.

Segundo Peirce,

A abdução é o processo de formação de uma hipótese explanatória. É a única operação lógica que apresenta uma ideia nova, pois a indução nada faz além de determinar um valor, e a dedução meramente desenvolve as consequências necessárias de uma hipótese pura (PEIRCE, 2015, p. 220).

Nesse sentido, a abdução é uma inferência na qual o sujeito, de forma racional e com base em sua experiência, sugere que alguma coisa pode ser. Nesse sentido, é na abdução que nos deparamos com a geração e seleção de uma hipótese explicativa.

Em situações de perplexidade, somos capazes de imaginar uma explicação que torna a situação compreensível. Peirce trabalha com essa habilidade criadora em termos de instinto natural e não considera que ela possa ser reduzida a fórmulas estritas ou regras de procedimento, muito embora essa habilidade faça parte de uma lógica específica, ao mesmo tempo instintiva e lógica (SANTAELLA; VIEIRA, 2008, p. 118).

Esse ponto é imprescindível no pragmatismo de Peirce. Quando observamos um fato surpreendente, ou ao menos inesperado, uma dúvida genuína surge. Várias hipóteses podem surgir em nossa mente de acordo com nossa experiência acerca de fatos similares para explicar a surpresa.

Assim, embora os momentos do insight e da geração de hipóteses sejam instantâneos, estão interligados com nossos hábitos. Além disso, o processo de construção e seleção das hipóteses geradas é consciente, deliberado e controlado, estando aberto à reflexão (SANTAELLA; VIEIRA, 2008, p. 120).

Ultrapassado o momento inicial de geração de hipóteses, que está intimamente ligado às nossas experiências, àquilo que faz parte de nosso pensamento, de nossa rotina, passamos para o momento de seleção de hipóteses. Se existem várias hipóteses igualmente capazes de explicar um fato surpreendente, a ética e estética serão essenciais nesse processo de deliberação.

A abdução, portanto, opera essencialmente no contexto de descoberta inferindo dos efeitos à causa.

Porém, não podemos pensar que o método de investigação científico se resume à abdução. Isso porque, conforme Peirce acentua,

A retrodução (abdução) não fornece segurança. A hipótese deve ser testada.

Este teste, para ser logicamente válido, deve começar honestamente, não como a retrodução começa, com a análise do fenômeno, mas com o exame da hipótese e a soma de todas as espécies de consequências experimentais condicionais que se seguiram à sua verdade. Este constitui o Segundo Estágio da Investigação. Para sua forma característica de raciocínio, nossa linguagem foi, há dois séculos, suprida com o nome Dedução (PEIRCE, 1958, CP 6.470 apud SANTAELLA, 2004, p. 158).

Assim, a dedução passa a ser o segundo passo no método de investigação, caracterizada pelo desenrolar de consequências experimentais a partir das hipóteses explanatórias. Saliente-se que o primeiro grande diferencial no momento dedutivo de Peirce é que a dedução não pode ser tida como uma inferência infalível. O segundo diferencial é que toda dedução envolve a observação de um diagrama.

Nesse sentido, Peirce esclarece:

Todo raciocínio necessário, sem exceção, é diagramático. Isto é, construímos um ícone de nosso estado de coisas hipotético e passamos a observá-lo. Essa observação leva-nos a suspeitar que algo é verdadeiro, algo que podemos ou não ser capazes de formular com precisão, e passamos a indagar se é ou não verdadeiro. Para realizar-se este objetivo é necessário formar um plano de investigação e esta é a parte mais difícil de toda a operação. Não apenas temos de selecionar os traços do diagrama ao qual será pertinente prestar atenção, como também e da maior importância voltar mais de uma vez a certos traços. Caso contrário, embora nossas conclusões possam estar corretas, não serão as conclusões particulares que estamos visando. A habilidade maior, porém, consiste na introdução de abstrações adequadas (PEIRCE, 2015, p. 216).

Note-se, portanto, que a dedução de Peirce é bem mais complexa do que o silogismo aristotélico. Trata-se de um raciocínio totalmente conectado com a etapa anterior da abdução, na qual geramos e selecionamos hipóteses. Essas hipóteses geradas (que também não deixam de ser signos) são abstraídas como ícones (por similaridade) e passam a ser desenvolvidas na busca de suas possíveis consequências. Mas isso não é feito de forma intuitiva, ou cegamente.

Essa análise é feita por meio de um pensamento diagramático, ou seja, realiza-se uma representação virtual e estruturada de consequências possíveis diante da hipótese gerada e selecionada.

Nesse sentido, esclarece Cassino Terra Rodrigues:

Na pesquisa científica, a função da dedução é estabelecer a necessidade das conclusões previstas pela hipótese abdutiva (ou mostrar que não existe necessidade alguma). A dedução diz: de uma sugestão abdutiva, podemos tirar certas conclusões e não outras. Contudo, em aplicações sempre há margem para erros: se as conclusões que tiramos se assemelham ao que fora afirmado nas premissas, então a dedução é validade, mas nada impede raciocinarmos erroneamente. É sua aplicação à experiência, ou à experiência possível, que abre a porta à probabilidade, deixando para fora a certeza e a necessidade absolutas in toto. Portanto, quando raciocinamos dedutivamente, o erro é apenas teoricamente impossível (RODRIGUES, 2017, p. 13).

Lembramos que as hipóteses são geradas e selecionadas a partir de deliberação e propósito racionais, sendo a lógica a ciência dos meios para agir razoavelmente, acrescentando ser papel da ética ajudar e guiar a lógica pela análise dos fins aos quais esses meios devem ser dirigidos, sem deixar de lado a estética, que determina o ideal último, o bem supremo para o qual a nossa sensibilidade nos dirige, o qual, para Peirce, seria a razoabilidade concreta, entendida como o crescimento da razão criativa corporificada no mundo.

Por fim, temos ainda a inferência indutiva, na qual o investigador se certifica acerca de quão longe as consequências estão de acordo com a experiência e julga se a hipótese está correta ou se deve ser afastada.

A indução, nesse contexto, confirmará ou falsificará a hipótese. Mas essa confirmação na experiência funciona novamente a partir de juízos perceptivos, pois são tais juízos que nos colocam em contato com o mundo.

Segundo Santaella, o estágio indutivo possui três fases: a) a classificação, em que ideias gerais são atadas a objetos de experiência; b) a comprovação, em que essas ideias são testadas considerando-se as consequências experimentais; c) a fase sentencial, quando o investigador avalia as diferentes comprovações isoladamente, então suas combinações, fazendo, a seguir, uma autoavaliação dessas avaliações e passando, por fim, ao julgamento final dos resultados totais (PEIRCE, 1958, CP 6.468-73 apud SANTAELLA, 2004, p. 158).

Note-se que fica evidente que, embora Peirce concentre a questão do pensamento diagramático quando da análise da dedução, a construção de diagramas ocorre em todos os estágios do raciocínio. A partir da asserção perceptiva com a formação do interpretante, inicia-se uma contínua representação estruturada e simplificada de uma determinada hipótese (geração e seleção), para, em sequência, representar suas consequências experienciais. Por

fim, mesmo no teste indutivo, a percepção e compreensão da validade das hipóteses (ou sua falsidade) dependem do conhecimento experiencial em que estamos inseridos e que fora produzido pelos hábitos introjetados no mundo.

No documento Pragmatismo, decisão e efetividade (páginas 95-99)