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AS INFLUÊNCIAS DO PODER EXECUTIVO NA AUTONOMIA POLICIAL

4 O CONTROLE EXTERNO E A AUTONOMIA POLICIAL

4.3 AS INFLUÊNCIAS DO PODER EXECUTIVO NA AUTONOMIA POLICIAL

O mecanismo da separação entre os Poderes da soberania compõe parte do núcleo de gravidade do Estado Liberal. O princípio da separação dos poderes está previsto no artigo 2º da CF/1988 como um dos seus princípios fundamentais, acobertado inclusive, pela imutabilidade das cláusulas pétreas previstas no artigo 60. O que ocorre é a divisão de funções entre os órgãos constitucionais, através dos quais o Estado exerce as funções do poder político. Daí termos as funções: legislativa, executiva e jurisdicional (OLIVEIRA, 2010).

Considera, ainda, Oliveira (2010) que talvez por sua missão tradicional de executar as leis, ao Executivo tenha sido reservada a competência de gerir os organismos responsáveis pela segurança. Entretanto, se juridicamente, as polícias são órgãos vinculados à Administração Pública do Executivo, responsável pela prestação do serviço de Segurança pública interna, sob a perspectiva sociológica, são uma força, um poder de fato, com a mesma natureza daquelas formas antigas que pela coação das armas formaram, expandiram ou destruíram reinos e impérios: que forjaram, enfim, o modelo de Estado Antigo.

Destarte, por essa peculiaridade, sua situação institucional deve ser devidamente arquitetada para que as polícias não sejam manipuladas para agirem contra os interesses da sociedade e das demais parcelas da soberania.

Vale acrescentar a manipulação ideológica, que durante os regimes de exceção no Brasil, os Corpos Policiais sofreram de seus dirigentes políticos no sentido de passarem de órgãos de segurança para órgãos de polícia política. É inegável que a relação de subordinação com o Poder Executivo foi essencial para a ocorrência desse processo. A relação de dependência entre a polícia e a política impede que aquela crie uma identidade própria, que seus membros possuam um sentimento de identificação com o órgão e que estes tenham condições de

desenvolver uma percepção geral e crítica do seu papel no ambiente institucional e social. O pensamento policial muda à mercê da duração dos mandatos dos chefes do Poder Executivo (OLIVEIRA, 2010).

Ademais, complementa Barros Filho (2010) que a intervenção de membros do Poder Executivo na atividade de investigação criminal viola, entre outros, o princípio da impessoalidade, previsto no art. 37, da Constituição Federal:

Artigo 37 - A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (grifo meu)

O princípio da impessoalidade estabelece que a administração não pode agir de forma a beneficiar ou prejudicar determinadas pessoas; deve atuar sempre visando ao interesse público. Entretanto, apesar da seriedade da situação relatada, a interferência dos Chefes do Poder Executivo na atividade de investigação criminal é bastante comum (BARROS FILHO, 2010).

Conforme destacado por Leitão (2018), a autonomia administrativa é estratégica e fundamental para propiciar que as Polícias Judiciárias fiquem livres das ingerências do Poder Executivo e também de outros poderes. A autonomia administrativa também é indispensável para dar fôlego a essas operações como Lava Jato e tantas outras, a fim de que não esmoreçam e sejam alvos de ataques silenciosos e de sucateamento velado que vão esvaziando de forma sútil e silenciosa o poderio das forças policiais no combate e repressão ao crime.

Nesse contexto, não é exagero aduzir que o fortalecimento da Polícia Federal e das Polícias Civis se sobressai como interesse público primário da sociedade. Sua autonomia materializa o escudo protetivo contra interferências indevidas de setores obscuros da sociedade brasileira, permitindo o atingimento do equilíbrio entre as demandas sociais e a capacidade de resposta institucional (CASTRO, 2016).

Leitão (2018) afirma categoricamente que a melhor forma que um governante tem para inviabilizar os trabalhos investigativos e fazer como tem se visto em várias unidades federativas e na própria esfera federal é o abandono às Polícias Judiciárias com destinação de valores orçamentários ínfimos ou não adequados para o desenvolvimento dos trabalhos investigativos e de repressão ao

crime. A autonomia financeira cria um orçamento próprio e projeta uma maior independência das Polícias Judiciárias perante os outros poderes e órgãos públicos. Ademais, a autonomia financeira deixa mais evidente se o discurso de investimento na Segurança pública é real ou apenas falácia dos gestores dentro do palco do

discurso enganoso.

A Polícia Federal merece especial atenção, pois diferente das outras forças policiais, ao exercer com exclusividade o papel de Polícia Judiciária da União, é um ente subordinado ao Ministério da Justiça e sabendo ainda que o Ministro da Justiça é escolhido pelo presidente a cada mandato, pode-se especular que há a possibilidade de um controle governamental, mesmo que indireto, perante o funcionamento e execução de operações. Levando em conta a situação política em que se encontra o País, na qual questiona-se a idoneidade moral de seus governantes e tendo-os na qualidade de investigados em algumas operações, é levantada a possibilidade de uma reestruturação da Polícia Federal, concedendo-a mais autonomia e liberdade (PONTE, 2016).

Haja vista a herança histórica do comando exercido pelo Poder Executivo sobre as polícias ter se tornado uma cultura tão arraigada ao nosso pensamento constitucional, é insofismável que o Projeto de Emenda Constitucional Nº 184/07 (PEC 184/07) propõe avanços, tais como: a) a inclusão dos delegados de polícia no quinto constitucional, b) a previsão de crime de responsabilidade para os atos do Poder Executivo que atentem contra o livre exercício da polícia judiciária, c) o tratamento das polícias judiciárias no capítulo que trata das funções essenciais à Justiça e d) a retirada, expressa, das polícias judiciárias da situação de subordinação em relação aos Governadores dos Estados (OLIVEIRA, 2010).

Como forma de aprimorar o atual sistema de freios e contrapesos, buscando atingir um ponto de equilíbrio ideal, Oliveira (2010) pontua que as Polícias Civis deveriam ser emancipadas, completamente, de qualquer forma de dependência em relação ao Poder Executivo, através de uma emenda constitucional, que elevasse as Polícias Civis à categoria de uma instituição com autonomia administrativa, financeira e orçamentária, dotando-as de órgãos com formatos colegiados, com, inclusive, a inserção de outros mecanismos legais, ou seja, a criação de garantias pessoais e institucionais de independência funcional,

que reforçariam o combate ao risco de ingerências políticas. Uma proposta nesse sentido, não estaria infringindo a cláusula pétrea contida no inciso III do § 4º do artigo 60 da Constituição Federal. Pelo contrário, o equilíbrio proporcionado pela mudança, garantiria, ainda mais, a separação harmônica entre os poderes, protegida pela referida cláusula de imutabilidade. O Ministério Público, após alcançar certo nível de autonomia e independência, passou a desempenhar considerável papel de garantidor da separação entre os Poderes.

Como bem explica a doutrina:

A ausência de autonomia dificulta a correta aplicação da lei e impede o legítimo desenvolvimento das atividades de polícia judiciária, com o perigo de transformá-la em um instrumento a serviço dos detentores do poder, incapacitando-a do pleno exercício de suas funções constitucionalmente atribuídas (...) É importante e fundamental deixar claro que não se trata da utilização da autonomia para a obtenção de vantagens corporativistas, mas sim, na proteção institucional, com o objetivo de afastar a incapacitação para o exercício funcional de atribuições legalmente instituídas, por meio de medidas inviabilizadoras do normal exercício das tarefas institucionais manifesta no contingenciamento (WERNER, 2015, p. 17-63).

Na visão de Barros Filho (2010), é evidente que a ausência de autonomia possibilita aos detentores do poder político, principalmente às autoridades vinculadas ao Poder Executivo, a interferência indevida no âmbito da Polícia Judiciária, causando prejuízo à justiça criminal. Portanto, tal omissão precisa ser sanada, possibilitando às autoridades policiais o exercício livre de suas relevantes funções, sem ingerência política, por intermédio da concessão das garantias institucionais e pessoais. Isto significa que a Polícia Judiciária precisa se transformar em um órgão de Estado – permanente, sem qualquer vínculo político-partidário, isto é, um instrumento voltado à defesa da sociedade, com compromisso apenas com a democracia, deixando, assim, de ser um órgão de governo - transitório, ou seja, subordinada aos detentores do poder.

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