• Nenhum resultado encontrado

SENSU BRASILEIRA COM AS TRANSFORMAÇÕES DO CAPITALISMO MUNDIA

A partir da década de 1990 presenciamos na sociedade brasileira um avanço bastante expressivo do controle da produção do conhecimento da pós-graduação stricto sensu. Vivencia-se uma mudança de paradigma na produção das políticas públicas em geral. Tal processo é decorrente de múltiplas determinações e fatores com aspectos de natureza variada, mas que se encontram inter-relacionados, tais como: a reconfiguração do Estado, as mudanças do mundo do trabalho, a reestruturação produtiva, a consolidação do neoliberalismo e os novos contornos das fronteiras entre as dimensões pública e privada. Esses mecanismos, como abordado anteriormente, denotam o perfil da sociedade contemporânea e incidem nas mais diferentes esferas do tecido social, como a educação, no caso estudado aqui, a pós- graduação stricto sensu brasileira. Esta tem sido alvo da materialização de política homogênea

e reguladora18, vinculado ao termo controle, porém sendo muito mais do que controle, um controle social, através do currículo lattes dos/as pesquisadores/as de avaliação, com critérios hegemônicos, indução à produtividade e predomínio de uma perspectiva contábil. Há, nisso, a priorização dos resultados em detrimento dos processos existentes na pós-graduação stricto

sensu brasileira, ensejada especialmente nos anos 1990 e considerados como elementos

fundantes do processo de disseminação de argumentos contrários de alguns/as pesquisadores/as às exigências pela Capes. Inserem-se aí questões como a perda da autonomia universitária, alienação “do” e “no” trabalho, uma vez que passam a ser redefinidas a estruturação dos programas, dos docentes, dos temas e pesquisas realizadas. Para proceder à análise desta lógica da produtividade, reportaremo-nos às críticas e resistências por parte dos intelectuais na área da educação diante do modelo avaliativo coordenado pela Capes no tempo presente.

Para tanto, faz-se necessário repensar o papel social da educação superior em nossa sociedade, uma reflexão (ação) sobre a finalidade da educação, do papel da Universidade Pública e dos intelectuais que nela atuam e que saem dela para atender a sociedade como um todo. Nesse sentido, Gentili (1997) nos alerta para a importância teórica e prática de se compreender o neoliberalismo como um complexo processo de construção hegemônica e de se questionar a forma neoliberal de se pensar e projetar as políticas educacionais, pois trata-se de um ambicioso projeto de reforma ideológica de nossa sociedade, o qual faz parte de um movimento mais amplo de expansão do capital.

Urge construir uma história diferente na pós-graduação stricto sensu do que esta em vigor na universidade brasileira. Um desafio que implica em apostarmos em utopias, transformando-as em realidade, pois ao contrário do fim da história, construir e transformar a história são os desafios que se colocam para toda a humanidade. Como diz Oswaldo Montenegro: “Eu insito em cantar; diferente do que ouvi; seja como for; recomeçar. Nada há, mas há de vir.”

As expressões ideologia, alienação, corpo, poder e hegemonia nos permitem refletir sobre a dimensão histórico-política vivida pela pós-Graduação stricto sensu brasileira no tempo presente e serão conceituadas a partir dos escritos de Marx, em seus manuscritos sobre o trabalho, em Marilena Chauí, por considerar que esta filósofa também trouxe importantes contribuições para a análise de ideários que insistem em ocultar a realidade dos fatos, e por 18 O termo regulação vem de uma ideia organicista (corpo auto-regulável); ideia de que a sociedade é regulada. Conceito oriundo do neoclacismo, compreendem que a sociedade é aberta, mas o elemento da dinâmica não está presente. Regulação fordista: produção do trabalho em série e intensificada, divisão do trabalho. Estado Regulador. CAPES exemplo perfeito de regulação.

ela, Chauí, corroborar para romper com a manutenção da exploração econômica, da desigualdade econômica e a dominação política nos diversos âmbitos da sociedade brasileira.

De acordo com o dicionário do pensamento marxista (2012) pode-se compreender a ideologia a partir da relação que o conceito expressa ao se referir a uma distorção do pensamento que nasce das contradições sociais e as oculta. Por isso, o conceito apresenta uma clara conotação negativa, crítica, aparente e invertida do mundo real. A leitura do dicionário expressa que os verdadeiros problemas da humanidade não são as ideias errôneas, e sim as contradições sociais reais e que aquelas são consequências destas. Por isso é necessário haver o desmascaramento das aparências econômicas mistificadas, de uma dupla inversão conservada em todos os momentos, tornando-se cada vez mais complexa, na consciência e na realidade e dos princípios aparentemente libertários e igualitários do capitalismo.

Para Marx, o conceito só se aplica às distorções relacionadas ao ocultamento de uma realidade contraditória e invertida. E o autor acrescenta novos significados aos conceitos: a totalidade das formas de consciência social – passou a ser expressa pelo conceito de “superestrutura ideológica” – e a concepção da ideologia como as ideias políticas relacionadas aos interesses de uma classe, as quais Gramsci se refere às formas jurídicas, políticas e filosóficas, como sendo ideológicas, em apoio de sua concepção da ideologia como a esfera superestrutural que tudo abrange.

Baseando-se nesta análise, Gramsci propõe, portanto, uma distinção entre “ideologias arbitrárias” e “ideologias orgânicas”, demonstrando seu interesse nestas últimas, pois a partir destas, é que o autor trabalha com o conceito de ideologia relacionado à capacidade inspirar atitudes concretas e proporcionar orientação para a ação, sendo, portanto, mais do que um sistema. Assim, expressa na ideologia e pela ideologia que uma classe pode exercer “hegemonia” sobre outras, isto é, pode assegurar a adesão e o consentimento das grandes massas. Gramsci abriu um campo novo ao analisar, de maneira muito sugestiva, o papel dos “intelectuais” e dos aparelhos ideológicos (educação, meios de comunicação etc.) na produção da ideologia.

Marilena Chauí (2008) explicita que a ideologia é um ideário histórico, social e político que oculta a realidade, e que esse ocultamento é uma forma de assegurar e manter a exploração econômica, a desigualdade social e a dominação política. Ademais, uma teoria exprime, por meio de ideias, uma realidade social e histórica determinada, e o pensador pode ou não estar consciente disso. E exemplifica, quando sabe que suas ideias estão enraizadas na história, podendo esperar que elas ajudem a compreender a realidade de onde surgiram. Quando, porém, não percebe a raiz histórica de suas ideias e imagina que elas serão

verdadeiras para todos os tempos e todos os lugares, corre o risco de estar, simplesmente, produzindo uma ideologia. Portanto, um dos traços fundamentais da ideologia consiste, justamente, em tornar as ideias como independentes da realidade histórica e social, quando na verdade é essa realidade que torna compreensíveis as ideias elaboradas e a capacidade ou não que elas possuem para explicar a realidade que as provocou.

É, portanto, a partir das relações sociais que temos que partir, a fim de compreender os conteúdos e as causas dos pensamentos e das ações dos homens e por que eles agem e pensam de maneiras determinadas, sendo capazes de atribuir sentido a tais relações, de conservá-las ou de transformá-las, de encará-las como processos históricos. Uma vez que a história não é sucessão de fatos no tempo, não é progresso das ideias, mas o modo como homens determinados em condições determinadas criam os meios e as formas de sua existência social, reproduzem ou transformam essa existência social que é econômica, política e cultural.

Nessa perspectiva, Chauí nos alerta que, a história é o real, e o real é o movimento incessante pelo qual os homens, em condições que nem sempre foram escolhidas por eles, instauram um modo de sociabilidade e procuram fixá-lo em instituições determinadas (família, condições de trabalho, relações políticas, instituições religiosas, tipos de educação, formas de arte, transmissão de costumes, língua etc.). [...] Em sociedades divididas em classes (e também em cascas), nas quais uma das classes explora e domina as outras, essas explicações ou essas ideias e representações serão produzidas e difundidas pela classe dominante para legitimar e assegurar seu poder econômico, social e político. Por esse motivo, essas ideias ou representações tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política. Por seu intermédio, os dominantes legitimam as condições sociais de exploração e de dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas.

Desse modo, para Chauí nossa tarefa será, pois, compreender por que a ideologia é possível: qual sua origem, quais seus fins, quais seus mecanismos e quais seus efeitos históricos, isto é, sociais, econômicos, políticos e culturais.

Marx conservará o significado napoleônico do termo: o ideólogo é aquele que inverte as relações entre as ideias e o real. Assim, a ideologia, que inicialmente designava uma ciência natural da aquisição, pelo homem, das ideias calcadas sobre o próprio real, passa a designar, daí por diante, um sistema de ideias condenadas a desconhecer sua relação real com a realidade. [...] Marx não separa a produção das ideias e as condições sociais e históricas nas quais são produzidas (tal separação, aliás, é o que caracteriza a ideologia) [...] quando a interiorização não ocorre, isto é, quando o Sujeito da história não se reconhece como produtor das obras e como Sujeito da história, mas toma as obras e a história como forças estranhas, exteriores, alheias a ele e que o dominam e perseguem, temos o que Hegel designa como

alienação (palavra derivada do pronome latino alienus, que quer dizer: o outro de si

mesmo, um outro que si mesmo). Essa é a impossibilidade de o sujeito histórico identificar-se com sua obra, tornando-a como um poder separado dele, ameaçador e estranho, outro que não ele mesmo; [...] não há uma “essência humana”, pois o homem é um ser histórico que se faz diferentemente em condições históricas diferentes; e, em segundo lugar, a alienação religiosa não é a forma fundamental da alienação, mas apenas um efeito de uma outra alienação real, que é a alienação do trabalho. O trabalho alienado é aquele no qual o produtor não se pode reconhecer no produto de seu trabalho porque as condições desse trabalho, suas finalidades reais e seu valor não dependem do próprio trabalhador, mas do proprietário das condições do trabalho. [...] Significa mostrar que no modo de produção capitalista os homens realmente são transformados em coisas e as coisas são realmente transformadas em “gente.” [...] Desaparecem os seres humanos, ou melhor, eles existem sob a forma de coisas (donde o termo usado por Lucáks: reificação; do latim: res, que significa coisa) (CHAUÍ, 2008, p. 30- 59).

Assim, as atividades humanas são permeadas pela alienação, reificação e fetichismo, e muitas vezes começam a realizar-se como se fossem autônomas ou independentes dos homens, passando a dirigir e comandar a vida dos homens, sem que estes possam controlá-las. São ameaçados e perseguidos por elas. Tornam-se objetos delas.

Chauí (2008) tece importantes indagações a este respeito: por que os homens conservam essa realidade? Como se explica que não percebam a reificação? Como entender que o trabalhador não se revolte contra uma situação na qual não só lhe foi roubada a condição humana, mas ainda é explorado naquilo que faz, pois seu trabalho não pago (a mais-valia) é o que mantém a existência do capital e do capitalista? Como explicar que essa realidade nos apareça como natural, normal, racional, aceitável? De onde vem o obscurecimento da existência das contradições e dos antagonismos sociais? De onde vem a não percepção da existência das classes sociais, uma das quais vive da exploração e dominação das outras? Segundo a autora, a resposta a essas questões nos conduz diretamente ao fenômeno da ideologia, a qual Marx e Engels determinam o momento de seu surgimento: no instante em que a divisão social do trabalho separa trabalho material ou manual de trabalho intelectual.

Nasce agora a ideologia propriamente dita, isto é, o sistema ordenado de ideias ou representações e das normas e regras como algo separado e independente das condições materiais, visto que seus produtores – os teóricos, os ideólogos, os intelectuais – não estão diretamente vinculados à produção material das condições de existência. E, sem perceber, exprimem essa desvinculação ou separação através de suas ideias. Ou seja: as ideias aparecem como produzidas somente pelo pensamento, porque os seus pensadores estão distanciados da produção material. [...] As ideias não aparecem como produtos do pensamento de homens determinados – aqueles que estão fora da produção material direta – mas como entidades autônomas descobertas por tais homens (CHAUÍ, 2008, p. 66).

Posterior à explicação do nascimento da ideologia, a filósofa exprime as diferenças e aproximações entre ideologia e alienação, sendo possível compreender a ideologia das

políticas educacionais impostas pela Capes pautadas num produtivismo exacerbado:

A ideologia não é um processo subjetivo consciente, mas um fenômeno objetivo e subjetivo involuntário produzido pelas condições objetivas da existência social dos indivíduos. [...] A ideologia é um dos meios usados pelos dominantes para exercer a dominação, fazendo com que esta não seja percebida como tal pelos dominados. A ideologia é o processo pelo qual as ideias da classe dominante tornam-se ideias de todas as classes sociais, tornam-se ideias dominantes. Marx e Engels insistem em que a alienação é um fenômeno objetivo (algo produzido pelas condições reais de existência dos homens) e não um simples fenômeno subjetivo, isto é, um engano de nossa consciência. A alienação é um processo ou o processo social como um todo. Não é produzida por um erro da consciência que se desvia da verdade, mas é resultado da própria ação social dos homens, da própria atividade material quando esta se separa deles, quando não podem controlar e são ameaçados e governados por ela. A transformação deve ser simultaneamente subjetiva e objetiva: a prática dos homens precisa ser diferente para que suas ideias sejam diferentes. Através do Estado, a classe dominante monta um aparelho de coerção e de repressão social que lhe permite exercer o poder sobre toda a sociedade, fazendo-a submeter-se às regras políticas (CHAUÍ, 2008, p. 76-102).

Em a Ideologia Alemã de Marx e Engels (2005) os autores afirmam que os homens até hoje, sempre tiveram falsas noções sobre si mesmos, sobre o que são ou deveriam ser e chamam a atenção para a necessidade de educarmos a humanidade para substituir suas fantasias por pensamentos condizentes à essência do homem. Discorrem ainda que, a consciência nunca pode ser outra coisa que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real. E se, em toda ideologia, a humanidade e suas relações aparecem de ponta-cabeça, como ocorre em uma câmara escura, tal fenômeno resulta de seu processo histórico de vida, da mesma maneira pela qual a inversão dos objetos na retina decorre de seu processo de vida diretamente físico.

[...] desde o momento em que o trabalho começa a ser dividido, cada um dispõe de uma esfera de atividade exclusiva e determinada, que lhe é imposta e da qual não pode sair; o homem é caçador, pescador, pastor ou crítico, e aí permanecerá caso não queira perder seus meios de sobrevivência – já na sociedade comunista, onde o indivíduo não tem uma única atividade, mas pode aprimorar-se no ramo que o satisfaça, a produção geral é regulada pela que me dá a possibilidade de hoje fazer determinada coisa, amanhã outra, caçar pela manhã, pescar à tarde, criar animais ao anoitecer, criticar depois do jantar, segundo meu desejo, sem jamais me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico. [...] É justamente nessa contradição entre o interesse particular e o coletivo, que o interesse coletivo toma, na qualidade de

Estado, uma forma independente, distinta dos reais interesses particulares e gerais e,

ao mesmo tempo, na qualidade de uma coletividade ilusória. Essa “alienação” pode ser superada apenas sob dois pressupostos práticos. Para que ela se transforme em um poder “insuportável”, isto é, um poder contra o qual se faça a revolução, é necessário que tenha produzido uma massa humana totalmente “destituída de propriedade.” [...] o desenvolvimento das forças produtivas (que implica já que a existência empírica real dos homens se passe em um plano histórico-mundial e não no plano da vida puramente local) (MARX e ENGELS, 2005, p. 60-62).

Para os respectivos autores, apenas com a regulamentação comunista de produção (que propõe a eliminação da relação alienada entre os homens e os seus próprios produtos) o poder da relação entre a oferta e a procura desaparecerá. O comunismo não é um estado que deve ser criado, ou um ideal pelo qual a realidade terá de ser conduzida. Consideram o comunismo como o movimento real que supera o atual status quo.

[...] só é possível realizar a libertação real no mundo real e por meio de meios reais; [...] não é possível libertar os homens enquanto não estiverem em condições de obter alimentação e bebida, habitação e vestimenta adequados qualitativa e quantitativamente. A “libertação” é um ato histórico e não um ato de pensamento, e é realizada por condições históricas, pela situação da indústria, do comércio, da agricultura, do intercâmbio (MARX e ENGELS 2005, p. 73).

Concomitante à explicação de ideologia e alienação, Marx (2006) em “Manuscritos econômico-filosóficos” exemplifica em que consistiria a emancipação dos judeus, sendo certo que os judeus alemães procuram a emancipação e esperam certamente a emancipação civil,

política. No diálogo que estabelece com Bauer, Marx conclui que o homem não se emancipou

da religião, mas sim recebeu a liberdade religiosa. Não ficou livre da propriedade, recebeu a liberdade da propriedade. Não foi libertado do egoísmo do comércio, recebeu a liberdade para se empenhar no comércio. Uma vez que a emancipação humana só será plena “quando o homem real e individual tiver em si o cidadão abstrato, quando como homem individual, na sua vida empírica, no trabalho e nas suas relações individuais, se tiver tornado um ser

genérico; e quando tiver reconhecido e organizado as suas próprias forças como forças

sociais, de maneira a nunca mais separar de si esta força social como força política. Ao emancipar-se do tráfico e do dinheiro e, portanto, do judaísmo real e prático, em nossa época conquistará a própria emancipação. Libertou o corpo das suas cadeias porque com cadeias acorrentou o coração. [...] emancipação geral” (MARX 2006, p. 37, 39 e 53).

“Emancipação” no dicionário do pensamento marxista, Bottomore (2012) está compreendida na perspectiva liberal clássica, a liberdade como ausência de interferência ou, ainda mais especificamente, de coerção. Isto é, ser (sou) livre para fazer aquilo que os outros não (me) impedem de fazer. Nesse sentido, é que Marx e os marxistas tendem a ver a liberdade em termos da eliminação dos obstáculos à emancipação humana, ou seja, ao múltiplo desenvolvimento das possibilidades humanas e à criação de uma forma de associação digna da condição humana.

A explicação de emancipação está muito próxima a de autonomia. No caso aqui estudado, a autonomia universitária. Autonomia – vocábulo de origem grega, a palavra autonomia, devido a seus radicais – auto, que significa próprio, peculiar e nomia, que

significa lei, regra – exprime a ideia composta de “direção própria”.

De acordo com Ranieri (1988) em sua obra: “Autonomia universitária: as Universidades Públicas e a Constituição Federal de 1988” o regime de autonomia universitária tem se constituído em um dos temas mais importantes do debate sobre os rumos da universidade pública no Brasil. Por isso o significado e os limites da autonomia universitária tem se constituído em um dos mais ricos debates na redefinição de rumos da universidade pública. Princípio este estabelecido e enunciado do art. 207 e da Constituição Federal de 1988: “as universidades públicas gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre o ensino, pesquisa e extensão”. O princípio da indissociabilidade reforça sua autonomia: sendo úteis ao Estado resultados de sua atividade enquanto prestadora de serviços, a Universidade, de “protegida”, passa a parceira do Estado, abandonada para ambas as partes a tradicional postura paternalista.

Na esfera da autonomia universitária, não se pode esquecer de mencionar autonomia didática, científica e administrativa. A autonomia didática implica, portanto, o reconhecimento da competência da Universidade para definir a relevância do conhecimento a ser transmitido, bem como sua forma de transmissão. A autonomia científica, ou de pesquisa, conjuntamente com a autonomia didática, repropõe a questão da liberdade do conhecimento. Eis o princípio de extração constitucional ex-vi do inciso II, do art. 206: “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] liberdade de aprender, ensinar, pesquisar, e divulgar o pensamento, arte e o saber.” Já a autonomia administrativa, portanto, é instrumento,