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A escolha dos participantes a serem entrevistados a partir da História Oral não assume posições estatísticas, onde a quantidade irá conduzir a qualidade do estudo. Evidentemente, conseguir uma quantidade razoável de participantes pode oportunizar ao pesquisador um conjunto maior de informações para a compreensão do que está sendo estudado, contudo esse elemento foge totalmente do controle do pesquisador por envolver questões que ultrapassam seu espaço e condição.

No caso deste estudo, a busca por pessoas que tiveram forte vivência durante a construção e itinerário do curso noturno de Licenciatura em Química da UFC foi um processo lento e de difícil composição. De início, foram pensados alguns nomes de ex-professores/as do curso que pudessem contribuir para a geração dos dados orais, alterando-se durante a pesquisa documental e a realização das entrevistas, onde alguns nomes foram acrescentados e outros descartados. Teve-se como principais critérios de seleção dos professores a disponibilidade e o interesse em participar da pesquisa, aliados à vivência, em algum momento, no curso de licenciatura noturna em Química.

Uma parte considerável dos professores e professoras que contribuíram para a implantação do referido curso, em 1995, possui formação de bacharel; outra parte, embora licenciada, foi formada nas antigas licenciaturas respaldadas pelo currículo 3+1. Foi desse contexto que surgiram os nomes dos possíveis entrevistados que poderiam contribuir para a constituição da história do curso.

De início, considerando as sugestões de nomes de professores e professoras que emergiram da pesquisa documental e das entrevistas, foram pensados nove professores e professoras (cinco ativos e quatro aposentados) que poderiam ser entrevistados. Após algumas tentativas de contato via e-mail, pessoalmente e/ou por telefone, conseguiu-se um retorno de

oito professores e professoras (quatro ativos e quatro aposentados), mas apenas cinco (um ativo e quatro aposentados) aceitaram conceder entrevistas narrando o que sabiam sobre o curso. Desses, no encontro presencial para a gravação das entrevistas, um professor aposentado da UFC disse que teve ampla participação na implantação e trajetória dos cursos de Química e Engenharia da universidade, mas não na licenciatura. Em documento escrito e entregue na ocasião pelo próprio professor, assim disse:

“Não participei em nenhum momento do processo de constituição do Curso de Licenciatura em Química da Universidade Federal do Ceará. Contudo ao examinar sua estrutura curricular, conforme análise dos Históricos Escolares dos (das) graduados (as) deste Curso registrados (as) no Conselho Regional de Química da 10ª. Região, constatei que referidos Históricos Escolares contemplam as disciplinas básicas de Matemática, Física e Química, as disciplinas profissionais da área da química (Química Inorgânica, Química Orgânica, Química Analítica e Físico- Química), as disciplinas de natureza didático-pedagógicas (Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem na Adolescência, Estudos Sócio-Históricos e Culturais da Educação, Metodologia do Ensino de Química, Didática, Prática de Ensino em Química), além da História da Química e Química Ambiental.

Assim, concluo, na condição de professor aposentado da UFC, da área de Química, e como Presidente do Conselho Regional de Química da 10ª. Região, que os (as) graduados (as) neste Curso estão aptos (as) ao exercício de professor no ramo da química, desde que sua formação satisfaz as exigências técnico-legais necessárias ao exercício profissional desta atividade”.

Como verificado, sua resposta foi extremamente técnica ao se basear puramente em aspectos legais do curso ao pontuar as disciplinas que o integram. Isso reforça sua não participação na criação e desenvolvimento do curso de licenciatura em Química da UFC, diurno nem noturno, o que justifica sua exclusão na pesquisa. Outro professor aposentado da instituição teve ampla participação nos cursos de Química da UFC, inclusive na licenciatura em Química diurna nos moldes do currículo 3+1, porém não participou da criação nem ministrou aulas na licenciatura noturna em Química.

Diferentemente do professor anterior, com este a entrevista ocorreu em todas as suas etapas, mas, após a releitura da transcrição, optou-se por não mais considerar sua participação, tendo em vista sua não vivência nem contribuição para a constituição da história da licenciatura noturna em Química da UFC. O referido professor, além de aposentado da UFC e da UECE, é membro fundador da Academia Cearense de Química (ACQ), membro titular do CRQ-X e da Associação Brasileira de Química (ABQ), atuando como avaliador institucional dos cursos de graduação no país através do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (BASis/INEP). Na ocasião, o professor doou um livro organizado por membros do CRQ-X, em que constam alguns acontecimentos históricos da Química no Ceará até 2011, porém com poucos dados acerca da licenciatura.

Diante de tais situações, restaram apenas três professoras (uma ativa e duas aposentadas) para a gravação das entrevistas e que tiveram forte participação na criação e/ou funcionamento do curso. O contato inicial e demais momentos de geração dos dados orais com as professoras serão descritos a seguir. Por questões éticas (inclusive constando no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme Apêndice D, assinado em duas vias pelas professoras, ficando uma em poder do pesquisador e outra das professoras), seus verdadeiros nomes foram ocultados, sendo substituídos por nomes fictícios atribuídos pelo pesquisador.

Os nomes atribuídos não foram escolhidos de forma aleatória nem isentos de significados sociais, políticos e históricos. Para a identificação das interlocutoras entrevistadas foram escolhidos nomes de três importantes químicas/cientistas negras brasileira e estrangeiras, que tiveram forte participação no desenvolvimento científico da Química, mas que em virtude das configurações do racismo, passaram por processos de apagamento social e científico quanto suas contribuições à ciência.

A adoção de tais nomes também representa uma questão pessoal e política do autor desta dissertação como químico negro, visualizando na história desta ciência a invisibilidade da atuação e contribuição de químicos e químicas negras, havendo destaque para os estudos idealizados por químicos brancos do Ocidente. Os nomes escolhidos foram baseados nos estudos de Pinheiro (2019) e Silva e Pinheiro (2019), também químicas negras, que discutem racismo institucional e científico na Química e na Educação em Ciências.

A primeira entrevistada, chamada aqui de Alice Augusta Ball50, tem 56 anos, é bacharela, mestra e doutora em Química pelo Instituto de Química de São Carlos (IQSC/USP). Já como professora da UFC, sentiu a necessidade de fazer sua segunda graduação, desta vez licenciando-se em Química na própria UFC. Posteriormente, fez pós-

50 Alice Augusta Ball (1892 – 1916) nasceu em Seattle – EUA, graduou-se em Química Farmacêutica em Farmácia pela Universidade de Washington em 1912 e 1914, respectivamente. Ingressou no mestrado na Universidade do Havaí a partir de uma bolsa, tornando-a primeira mulher e primeira mulher afro-americana a estudar Química na referida universidade. Dentre seus estudos, destaca-se os ligados à composição e princípios ativos do óleo de Chaulmoogra por ser rico em ácidos hidnocárpico e chaulmúgrico responsáveis pela ação terapêutica que exercem em pacientes com hanseníase, conhecido na época como lepra. Todavia, até então as tentativas de injetar e digestão em seres humanos eram falhas, pois o líquido era muito viscoso e de pouca aceitação no estômago dos pacientes. Dessa forma, Alice Ball conseguiu isolar os princípios ativos deste óleo para que pudessem ser injetados e absorvidos em seres humanos. Alice faleceu em 1916, por causas desconhecidas, sem ter conhecimento do sucesso de sua descoberta, sendo esta continuada por Arthur L. Dean, presidente da referida universidade, que chegou a patentear o estudo de Alice como sendo de sua autoria, chamando-o de “Método Dean”, desconsiderando sua verdadeira autora. Em 1922, porém, Harry T. Hollmann, médico que incentivou Alice na realização do estudo em questão, publicou um artigo dando os devidos créditos do método desenvolvido à sua verdadeira idealizadora, a Química Alice Ball. O trabalho desenvolvido pela cientista possibilitou qualidade de vida a pacientes com hanseníase de modo que estes não fossem isolados socialmente para o tratamento da doença (Biografia extraída de Silva e Pinheiro, 2019).

doutoramento em Química na Wayne State University, Estados Unidos, e outro na Università del Salento, Itália. Atualmente é professora titular da UFC e Bolsista de Produtividade em Pesquisa Nível 2 do CNPq, lotada no Departamento de Química Orgânica e Inorgânica (DQOI), desenvolvendo pesquisas entre ambas as áreas.

Alice foi admitida como professora do DQOI/UFC, no curso de Química, em 1997, após aprovação em concurso público. Seu início como professora da instituição se deu no bacharelado em Química ministrando disciplinas ligadas à Química Geral e Fundamentos de Química. Em 2001, após concluir a licenciatura, passou a ministrar aulas na licenciatura noturna em Química, inicialmente com as disciplinas de Introdução aos Cursos de Química e Prática de Ensino em Química, estando esta última sob sua responsabilidade até o momento da realização da entrevista.

O primeiro contato com Alice se deu via e-mail no dia 27 de janeiro de 2020, com apresentação do pesquisador e da pesquisa a ser desenvolvida, sendo retornado pela entrevistada no dia 31 de janeiro de 2020. No mesmo dia, houve um segundo contato com Alice, via WhatsApp, para agendamento da entrevista e explicação da metodologia utilizada para a geração dos dados (entrevista reflexiva). A entrevista individual ocorreu no dia 04 de fevereiro de 2020, das 16 h 8 min às 17 h 11 min, portanto com uma duração de 1 h 3 min 48 s, na própria sala da professora, localizada no DQOI/UFC do campus do Pici. A escolha do local ficou a critério da entrevistada. Após ter acesso ao documento transcrito, Alice sentiu a necessidade de fazer algumas alterações para melhor descrever sua vivência no curso, modificando, retirando e acrescentando trechos de sua fala, mas sem trazer prejuízos ao material gerado inicialmente.

A segunda entrevista foi realizada coletivamente com Marie Maynard Daly51 e Joana D’Arc Félix de Souza52, ambas professoras aposentadas da UFC. Tal fato deu-se em

51 Marie Maynard Daly (1921 - 2003) nasceu em New York, Estados Unidos, e formou-se em Química no ano de 1942 no Queens College vinculado à Universidade de New York. Obteve mestrado em Química pela mesma universidade enquanto trabalhava como assistente de laboratório na instituição que se graduou, doutorando-se na área de Bioquímica pela Universidade de Columbia, em 1947, o que a levou à ser reconhecida como a primeira mulher negra afro-americana a obter um título de doutorado nesta área nos Estados Unidos. Em virtude da Segunda Guerra Mundial que requereu homens para a mesma, Marie, antes de concluir seu doutorado, começou a atuar como tutora e orientadora de ciências físicas na Universidade de Howard, em Washington. Premiada pela Sociedade Americana de Câncer, Marie teve apoio financeiro para seu pós-doutoramento no Instituto Rockefeller estudando núcleo celular. Com ampla atuação na bioquímica, com ênfase nos aspectos bioquímicos do metabolismo humano, a cientista também buscou fomentar a luta pelo ingresso de grupos minoritários, sobretudo pessoas negras, em cursos de graduação em Medicina e em pós-graduação na área de ciências a partir da criação de bolsas de estudos nas áreas de Física e Química em homenagem ao seu pai que ingressou no curso de Química da Cornell University, mas não concluiu sua graduação por falta de recursos financeiros. No fim de sua vida, em 1999, Marie foi reconhecida como uma das cinquenta mulheres mais influentes nas áreas de Ciência, Tecnologia e Engenharia pela National Technical Association. Marrie pesquisou os efeitos da

virtude de problemas de saúde de Joana D’Arc, preferindo que Marie, amiga e colega de profissão desde que ingressaram como professoras do DQOI/UFC em 1976, se fizesse presente neste momento, para que ambas pudessem dar seus depoimentos orais juntas, pois são memórias de mais de quarenta anos.

O contato inicial com ambas as professoras se deu a partir de Marie, no dia 06 de janeiro de 2020, via rede social Facebook, sendo fornecido seu e-mail para apresentação do pesquisador e repasse de informações sobre a pesquisa. Com mediação de Marie e da filha de Joana D’Arc, seu contato ocorreu no dia 21 do mesmo mês, via aplicativo de mensagens WhatsApp. A entrevista aconteceu no dia 06 de fevereiro de 2020 na casa da professora Joana D’Arc, das 14 h 15 min às 16 h 30 min, porém somente 55 min 38 s do encontro foram gravados em formato de áudio. O restante da conversa, embora tratasse da trajetória de ambas como professores do DQOI/UFC, não diziam respeito à licenciatura noturna em Química. Do texto transcrito, Joana D’Arc não quis fazer alteração em seu depoimento, autorizando analisá-lo da forma em que estava. Já Marie acrescentou mais informações a pedido do pesquisador.

Marie, 69 anos, é licenciada em Química pela UFC, com especialização em Química dos Elementos Menos Comuns pela mesma universidade e em Metodologia do Ensino de Química pela UECE. Iniciou sua carreira docente na Universidade de Fortaleza (UNIFOR), sendo convidada para prestar concurso do magistério superior junto ao DQOI/UFC no curso de Química, dando início às suas atividades docentes em 1976, ministrando as disciplinas de Química Geral e Química Inorgânica. Aposentando-se da universidade em 1999, Marie atuou como coordenadora do curso de bacharelado em Química da UFC entre 1988 a 1992, além de diretora do Clube de Ciências - atual Museu Seara da Ciência vinculado à universidade. Também ministrou disciplinas de PEQ I e II na licenciatura

hipertensão no sistema circulatório, os efeitos do cigarro em artérias e pulmões, núcleos de tecidos, síntese de proteínas, dentre outros assuntos (Biografia extraída de Silva e Pinheiro, 2019).

52 Joana D’Arc Félix de Souza nasceu em 1953 na cidade de Franca, São Paulo, graduando-se em Química Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas, realizando mestrado, doutorado e pós-doutorado em Química pela mesma instituição, sendo parte do seu doutorado realizado na Clemson University, Estados Unidos. A química e cientista brasileira ganhou reconhecimento em suas pesquisas a partir de estudos sobre reaproveitamento e aplicação de couro e pele suína. Atuando como professora e pesquisadora da Escola Técnica Prof. Carmelino Corrêa Júnior na cidade onde nasceu desde 1999, Joana D’Arc recebeu, em 2014, o Prêmio Kurt Politzer de Tecnologia pela Associação Brasileira de Indústria Química por sua atuação na inovação de tecnologias aplicadas ao uso de pele suína em transplantes de pele em seres humanos. Com toda a sua importância científica e acadêmica, em 2019 a química teve sua história ocultada pelo racismo científico e desautorização intelectual ao dizer que havia feito um pós-doutorado junto à Universidade de Harvard, o que não chegou a acontecer, tendo em vista sua não efetivação como aluna da instituição, embora a frequentasse. A escolha pelo nome da cientista para representar uma das professoras aqui entrevistadas é uma forma de evidenciar suas contribuições à ciência brasileira que não podem ser invisibilizadas em detrimento de uma falha, cuja colonialidade acadêmica incitou a busca pela recusa de sua autoria intelectual e episteme.

em Química entre 1991 a 1998, dentre outras disciplinas da área. Atualmente é professora do Centro de Formação de Instrutores do Instituto Centro de Ensino Tecnológico (CENTEC), membro-fundadora da Academia Cearense de Química e membro titular do CRQ-X.

Joana D’Arc, 73 anos, é bacharela em Química Industrial e Engenheira Química pela UFC, com especialização em Tecnologia Educacional pela UNIFOR e mestrado em Química Inorgânica pela UFC. Também iniciou sua trajetória docente na UNIFOR, prestou concurso junto ao DQOI/UFC para atuar no curso de Química, compondo o corpo docente do referido curso a partir de 1976 ministrando, de início, Química Orgânica e Inorgânica. De 1992 a 1996, a professora atuou como coordenadora do curso de Química, incluindo a licenciatura noturna. Aposentando-se da UFC em 1998, Marie teve importante atuação na implantação e desenvolvimento do curso de licenciatura noturna em Química da UFC. Afastada das atividades acadêmicas e científicas em decorrência de problemas de saúde, a professora é membro-fundadora da Academia Cearense de Química e membro titular do CRQ-X.

Deve-se reiterar que no uso da HO as entrevistas reflexivas não podem ser realizadas com um excesso de sujeitos, dada a complexidade do processo e o dispêndio de tempo. Nas entrevistas buscou-se intervir pouco, somente quando necessário, para que não houvesse implicações em suas memórias, pois:

Ao selecionar a entrevista como seu procedimento de produção de dados, o pesquisador deve estar atento não só à fala de seu entrevistado, mas também ao seu meio. Este inclui os diversos aspectos do ambiente físico e social, e também as interações que o entrevistado estabelece durante a situação de entrevista (SZYMANSKI; ALMEIDA; PRANDINI, 2011, p. 74).

As narrativas que emergiram desses encontros evidenciaram uma memória coletiva acerca do curso pesquisado, cabendo pontuar que representam memórias de quem vivenciou tal acontecimento e darão suporte para a construção da história, pois “através do resgate da memória se reconstrói o passado” (FREITAS, 2002, p. 52). A dinâmica que emerge dessa oralidade é que separa a memória da história e “é aí que se dá o papel da história oral como mediadora entre uma solução que se baseia em documentos escritos (história) e outra (memória) que se estrutura, quase que exclusivamente apoiada na fluidez das transmissões orais” (MEIHY, 2002, p. 53-54).

O capítulo a seguir apresenta o que foi gerado de todo esse processo percorrido na busca pela compreensão da constituição e transformações do curso de Licenciatura em Química da UFC desde sua criação.

5 A HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONTOU: O (PER)CURSO DA LICENCIATURA

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