1.5 AS JUVENTUDES COMO SUJEITOS DO ENSINO MÉDIO
1.5.1 As juventudes e suas diferentes realidades
As pluralidades regionais e diversidades culturais, econômicas e sociais do Rio Grande do Sul desaparecem quando a análise se refere às juventudes gaúchas, às demandas, aos desejos e às intencionalidades, justamente porque há uma grande expectativa por aprender, por crescer pessoalmente e profissionalmente e por ocupar um lugar no espaço sócio-histórico e econômico-cultural da sociedade, conforme revela o relatório de escuta desenvolvido a partir das pesquisas com as escolas piloto do Novo Ensino Médio da rede estadual.
Interpretar as demandas, sonhos, expectativas, angústias e possibilidades para a educação das juventudes gaúchas e da população que ainda não teve acesso ao ensino formal, implica considerar que esses indivíduos se reconhecem contingentes, carentes – algo lhes falta – mas, também, se reconhecem como grupos intensos, livres, sonhadores, idealistas e, simultaneamente, um grupo que quer enfrentar o desafio de crescer, descobrir com diferentes metodologias que lhe facilitem o aprender, o ter gosto pelo conhecimento e o desenvolver das habilidades próprias e específicas tanto de si mesmo, quanto das unidades de conhecimento.
Essas juventudes e adultos em busca de conhecer e ser estimam a escola – a educação formal, portanto – como lugar de empreender relações, a partir de aprendizados inter, trans e multidisciplinares, pois parecem visualizar as diversidades de perspectivas e possibilidades para vivências, experiências e aprendizados.
As juventudes querem crescer, conquistar seus sonhos e apresentam vários caminhos e possibilidades. Percebe-se um protagonismo cidadão desde as proposições que emanam desses públicos, no sentido da necessidade de construir conhecimento para a vida e para o mundo do trabalho. Neste horizonte, faz-se relevante destacar a necessidade da escuta permanente, do diálogo que enriquece pela compreensão, pela parceria, pelo estímulo e cobrança, mas também pela afetividade, especialmente entre estudantes e professores/as. As juventudes querem crescer em segurança, amadurecer e ser; têm vontades e apresentam dinamicidades, porém, se reconhecem operando na indecisão, sem orientações, por isso têm medo e compreendem que vivenciam um período de lembranças e construções que se estruturam para a vida toda. Diante desse cenário, afirmam que a juventude é um período de dor, de passagem, mas também de amadurecimento, de aprendizado e enfrentamento que marcará suas vidas para sempre.
As juventudes têm interesses, têm desejos, querem viver, querem estudar e querem participar; têm fala para anunciar e têm pensamento para expressar. Ao se realizar uma hermenêutica dos desejos e expressões das juventudes, percebe-se que paira o sonho por uma comunidade que tenha uma escola, uma escola com aula boa, onde seja possível aprender para
a vida e para o mundo do trabalho; uma escola onde as juventudes e os demais indivíduos, até então, excluídos do processo de alfabetização, letramento e produção de conhecimento, possam participar e, nesse espaço, seja possível uma construção pessoal, individual, científica, cidadã, profissional, que lhes permita egressar melhores do que entraram.
Essa reflexão remete à ideia do acesso à escola, permanência e aprendizado significativo. Nesse ponto, o problema da Escola não é só da Escola, e da educação não é somente da educação, é da sociedade, do Estado e implica os direitos fundamentais contidos na Constituição Federal, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Brasileira e no Plano Nacional de Educação. Esse movimento sugere que a escola, unidade conhecedora de sua comunidade e de seus sujeitos, visualize as potencialidades de cada localidade e as contextualize em cada região, confrontando com os desejos e as demandas deles. Um exercício a muitas mãos, assessorado e motivado pelas instâncias administrativas realmente interessadas no desenvolvimento humano, social, cultural, intelectual, científico e econômico das pessoas e da sociedade.
Quando as juventudes falam e a comunidade, as instituições, o Estado, a escola, escutam, se intensifica um movimento educativo de redirecionamento de rumos e perspectivas que relocalizam as instituições constituídas para dinamizar e revitalizar o conhecimento, as culturas, as dinâmicas científicas e o mundo do trabalho. Ver o/a outro/a transforma a escola, os indivíduos e as relações, porque atualiza as compreensões e recoloca a sociedade em parâmetros de criatividade, de novidade e de ação superadora. É possível, desse modo, compreender os sujeitos que compõem as juventudes múltiplas do Rio Grande do Sul em suas várias manifestações e vivências, experiências e sentimentos. Nessa porção significativa da população, são apresentadas preocupações comuns, quer seja de áreas interioranas, fronteiriças, litorâneas ou dos centros urbanos maiores: o cuidado com o futuro, a expectativa com o mundo do trabalho, com segurança, com a vida. Essas apreensões são maiores do que as estruturas educacionais, de ensino, vigentes.
Embora não se dinamize uma sociedade sem um projeto, sem uma estrutura planejada, as estruturas precisam ser organizadas para facilitar o crescimento e a inserção de todos e todas aos processos formativos. Desse modo, a escola precisa ser efetividade, cuidado, sensibilidade.
E é, nesse contexto, que se visualiza a necessidade e a validade da Educação Integral, dos olhares para as juventudes e da Formação Geral Básica que envolvam possibilidades protagonistas como os Itinerários Formativos, o Projeto de vida e Unidades Curriculares Eletivas que, se esforcem ao máximo para o atendimento às demandas das juventudes e das populações sedentas por aprender.
Analisa-se como relevante para as escolas das diversas redes do Rio Grande do Sul, pensar metodologias próprias para o Ensino Médio como, metodologias ativas, metodologia de alternância que permitam, dentro de uma estrutura para a rede, desenvolvida pela própria rede a partir das escolas – em interação mais intensa com as expectativas dos sujeitos das comunidades –, o exercício da autonomia tanto das escolas quanto dos territórios instituídos pela Base Nacional Comum Curricular. Os territórios, em regimes de colaboração, de parceria, entre as redes de ensino integrantes, assumem maior protagonismo no desenvolvimento de novas matrizes produtivas, de capacidade de mobilizações para a potencialização dos esforços de desenvolvimento e qualificação da educação, indicando superações, na prática, das fragmentações entre redes, entre sistemas e, fortalecendo, reciprocamente as identidades das regiões, dos territórios e das comunidades para desenvolver ciência, conhecimento, trabalho e renda e dinamizar as relações sócio-culturais incorporando as diversidades e o compromisso ético, político, econômico e cultural com a região, com a população e com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que é responsabilidade com a vida em seu sentido mais amplo.
Essas perspectivas demandadas pelas comunidades, pelos estudantes, principalmente, e pelas famílias, comprometem a rede gaúcha de ensino no sentido de permitir maior grau de flexibilidade nas organizações curriculares, nas arquiteturas dos documentos que precisam ser articulados com as demais redes de ensino no território, na região e na Unidade Federativa, para ampliar as possibilidades de escolhas das escolas, uni-las no entorno das vocações e potencialidades locais e regionais e conectá-las com a unidade nacional para promover a integração e a potencialização das matrizes mais específicas de modo que o trabalho possa ser visto, como demandam as juventudes, como princípio educativo e se instale o diálogo com o contexto sócio-histórico, profissional, intelectual, não como força estranha, impositiva, externa, mas a partir dos arranjos produtivos locais e das demandas da comunidade.
É nesse sentido que se dirige o Novo Ensino Médio com as possibilidades dos itinerários formativos, das Unidades Curriculares Eletivas, da educação integral e da formação profissional adequada às potencialidades regionais e locais, sem descuidar do aprofundamento das aprendizagens essenciais indicadas na BNCC como a formação ética baseada nas ideias de justiça, solidariedade, autonomia, liberdade de pensamento e de escolha, assumindo um projeto de sociedade pautado pela compreensão, reconhecimento das diferenças, respeito aos direitos humanos e à interculturalidade e no combate aos preconceitos de qualquer natureza.
Ao encontrar-se com suas adversidades, a escola, os sujeitos (implicados no contexto) e os sistemas percebem a necessidade dos estudantes explorarem e produzirem conhecimentos, uma vez que esses estudantes demonstram capacidade de articular informações e
conhecimentos, assim como de mobilizar o desenvolvimento das propriedades de observação, de memória e de abstração para favorecer processos de simbolização e significação. Também cabe aos sujeitos envolvidos no contexto escolar a capacidade de estabelecer diálogos e habilidades no domínio de conceitos e metodologias, além de identificar, selecionar, organizar, comparar, analisar, interpretar e compreender, como sugere a BNCC.
1.6 ESPECIFICIDADES DO ENSINO MÉDIO NO RIO GRANDE DO SUL