Ainda no âmbito do orçamento familiar, não se pode deixar de citar a Lei de Engel, ponto chave quando se trata deste assunto. Tal lei afirma que o perfil relativo das despesas familiares se diferencia conforme a disponibilidade de recursos de uma família (DU; KAMAKURA, 2008) e o orçamento familiar, por sua vez, sinaliza o limite máximo do consumo.
Além disso, estas leis estão ligadas às leis de consumo, deixando implícito que à medida em que a renda de uma família cresce, maior quantidade de dinheiro será gasta em todas as categorias. Segundo estas leis, e consenso que (MILLICAN, 1961):
1. Maior a renda, menor a porcentagem da mesma gasta em alimentação;
2. A porcentagem da renda gasta com vestuário é aproximadamente a mesma, não importando a faixa de renda da família;
3. A porcentagem da renda destinada ao aluguel, combustível e energia é aproximadamente a mesma, mesmo que a renda aumente;
4. À medida que a renda aumenta a porcentagem correspondente aos gastos com “gêneros diversos” (lazer, educação, saúde) também aumenta.
As Curvas de Engel, por sua vez, originam-se das Leis de Engel. Tais curvas consistem em uma função de demanda mantendo-se os preços constantes e permitindo que a renda varie. A renda é plotada no eixo horizontal e a quantidade demandada no eixo vertical (BESANKO; BRAEUTIGAM; 2011; PINDICK; RUBINFELD, 2002). A inclinação das curvas de Engel permitem a construção de uma taxonomia de bens normais e bens inferiores. A curva de Engel para um bem normal tem inclinação positiva e para um bem inferior tem inclinação negativa (EATON; EATON, 1999).
Pelo comportamento dos dados dispostos em uma curva de Engel, é possível calcular a elasticidade-renda da demanda que, por sua vez, mede como a quantidade demandada reage à variação de renda (VARIAN, 2000). Neste sentido, a elasticidade-renda da demanda também pode ser definida como a variação percentual da quantidade
demandada resultante de um aumento de 1% da renda (PINDYCK; RUBINFELD, 2002; BESANKO; BRAEUTIGAM; 2011).
A elasticidade-renda da demanda ainda permite classificar os bens em bens de luxo, de primeira necessidade, e inferiores. Um bem é de luxo se seu consumo aumentar a uma taxa maior do que a taxa de aumento da renda, ou seja, se a elasticidade-renda da demanda desse produto for maior que 1. Da mesma forma, tem-se um bem de primeira necessidade se a elasticidade-renda da demanda desse produto estiver entre 0 e 1. Já a elasticidade- renda da demanda para um bem inferior é negativa, uma vez que sua quantidade demandada diminui conforme a renda aumenta (PINDYCK; RUBINFELD, 2002; EATON; EATON, 1999; BESANKO; BRAEUTIGAM; 2011).
Destaca-se também que a estimação das curvas de Engel com base em dados empíricos, tem uma longa tradição na literatura de economia. Dados de gastos familiares de muitas nações têm sido analisados para quantificar as elasticidades-renda da demanda para diferentes categorias de produto (GILES; HAMPTON, 1985). As Leis de Engel e suas generalizações têm sido comprovadas por vários estudos de economistas ao longo do tempo em diferentes países (SHAMIM; AHMAD, 2007).
Além disso, pesquisadores têm buscado novas interpretações que refutam ou corroboram sua universalidade. Alguns estudos afirmar que, além da renda, preços e variáveis sócio demográficas como tamanho da família e composição dela também influenciam o comportamento da curva de Engel, que pode também ser utilizada como base para análise do bem estar das famílias. Baseada nos paradigmas do pensamento econômico, a análise do orçamento familiar realizada pelos pesquisadores tende a focar os comportamentos de segmentos determinados por diferentes faixas de renda. Clássicos estudos econômicos de elasticidade procuram explicar a velocidade com que os gastos variam em função da renda (NORRIS; PENDAKUR, 2013; REE ET AL., 2013; LI; SONG; MA, 2015).
Ainda que as Leis de Engel tenham sido concebidas em um ambiente menos complexo do que o atual, onde os consumidores possuíam renda mais baixa, menor escala de opções de compra, poucos estímulos de marketing para o consumo, um ambiente varejista menos desenvolvido e níveis educacionais mais limitados, que restringiam o acesso à informação; reconhece-se que o comportamento do consumidor ainda pode ser refletido por elas (HUTTIN, 2000; HOFFMANN, 2007; SHAMIM; AHMAD, 2007).
Acredita-se ainda que, quando se trata de elasticidade renda da demanda, os grupos mais importantes são alimentação e saúde, que apresentam elasticidade próxima a 0,7. Isto significa que quando a renda aumenta 1%, a demanda por ambas as categorias cresce aproximadamente 0,7%. Além desses dois grupos, habitação, comunicação e educação são categorias importantes, que também apresentam elasticidade menor que um e se classificam como bens de primeira necessidade (GOSTKOWSKI, 2018). Ainda, os maiores coeficientes de elasticidade dizem respeito a transporte e lazer, sendo considerados como bens de luxo (GOSTKOWSKI, 2018; BLACKLOW; NICHOLAS; RAY, 2010).
Cabe também ressaltar que a educação pode ser considerada, em alguns casos, um bem de luxo e apresentar elasticidade maior que um. Isso porque, em alguns países, ela tende a ser considerada como um investimento, já que tem potencial para trazer retornos futuros (QUINTAES et al, 2006).
Outro aspecto importante nas discussões a respeito da elasticidade renda são as mudanças socioeconômicas pelas quais passam a sociedade. No Brasil, por conta da intensificação da urbanização no último século e da mudança do papel da mulher, que passou a realizar jornada dupla, tendo um trabalho fora de casa e o trabalho doméstico, os hábitos alimentares têm apresentado mudanças. Comer fora de casa tem sido um hábito cada vez mais recorrente, assim como consumir alimentos processados e semi-prontos. Isso pode tanto afetar a
elasticidade renda da alimentação dentro do domicílio quanto a e elasticidade renda da alimentação fora do domicílio (SCHLINDWEIN; MONTEIRO, 2010; SCHLINDWEIN; KASSOUF, 2006).
Tendo em vista tudo o que foi dito até agora, é possível afirmar que o orçamento familiar pode ser tido como uma variável de segmentação de mercado, uma vez que sinaliza a homogeneidade e heterogeneidade entre as famílias brasileiras quando se trata de padrões de consumo (SILVA, 2009). Além disso, as leis de Engel permitem que se observe como a quantidade demanda de bens abarcados por determinada categoria reage ao aumento e diminuição da renda, de forma que se torna possível detalhar ainda mais os padrões que regem cada taxonomia.
A seguir, apresenta-se a metodologia a ser empregada a fim de viabilizar a realização dos objetivos já propostos.