Enquanto nas artes o grotesco caracteriza-se como o monstruoso ou ridículo a partir da mistura dos domínios do humano e do animal, do racional e do irracional, do universo empírico e do universo onírico, na literatura o elemento grotesco está presente, por um lado, nas representações de cunho fantástico (licantropia, personificação da Morte, vampirismo, por exemplo) e, por outro lado, nas representações satíricas e cômicas. Neste último caso, o grotesco costuma ligar-se ao “baixo material e corporal” – nas palavras de Bakhtin – , que se relacionaria às necessidades naturais como comer e beber, ao sexo, às partes baixas do corpo, aos excrementos e secreções; o grotesco também relaciona-se às imprecações, ofensas e às palavras de baixo calão.
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Tais diferenças devem-se às concepções do grotesco como categoria estética: a primeira, presente em obras canônicas e mais relacionada ao onírico e ao monstruoso, reconhece-se em manifestações artísticas canônicas do Renascimento e do Maneirismo, e está estreitamente relacionada ao posterior desenvolvimento da literatura fantástica. Tratar-se-ia de um grotesco “puro”, com fim em si mesmo, ou seja, sem uma intenção alegórica ou de crítica social subjacente: o mundo grotesco seria um “mundo alheado”.
A segunda matriz do grotesco, que desafia as regras dos cânones clássicos e, por isso, mantém-se marginal, é a investigada por Bakhtin: o grotesco como originário da cultura popular, comum nas obras cômicas e satíricas populares na Idade Média e no Renascimento, com características da sátira menipéia e da tradição do Carnaval, que pode possuir intenção crítica e recorrer ao cômico.
No século XVI, Montaigne é o responsável por transladar o conceito de grotesco do domínio das artes plásticas para o da literatura, quando classifica seus próprios ensaios como grotescos, assemelhando-os a corpos monstruosos, sem proporção nem ordem. Assim, Montaigne dota o vocábulo de uma certa abstração, transformando-o em conceito estilístico. Essa nova utilização do termo grotesco pelo ensaísta constituiu um dos fatores capitais para que, no século XVII, os artistas franceses empregassem o termo como adjetivo, com um sentido mais amplo.
Ainda seguindo o percurso histórico do termo grotesco delineado por Kayser, percebe-se que é nos séculos XVII e XVIII que o vocábulo adquire um sentido mais abrangente, que não abarca apenas a ornamêntica. Nessa época, “grotesco” passa a designar aquilo que é singular por ter um caráter ridículo, caricatural e sobrenatural. Os dicionários franceses do século XVII já fornecem um sentido figurado da palavra grotesco que poderia significar ridículo ou bufão, como mostra Wolfgang Kayser, ao mencionar que, em 1694, no “dicionário da Academia”, o vocábulo grotesco é definido como ridículo, bizarro ou extravagante. Naquele período, constata-se um certo enfraquecimento do traço de temibilidade do grotesco que, associado ao cômico e ao burlesco, provocaria apenas o riso despreocupado.
No século XVIII, ocorre uma ampliação do termo com os estudos de Wieland sobre a caricatura, nos quais propõe uma tipologia do caricaturesco dividida em três gêneros:
“1. as verdadeiras, onde o pintor simplesmente reproduz a natureza disforme tal como a encontra; 2. as exageradas, onde, com algum
propósito especial, aumenta a deformação de seu objeto, mas procede de um modo tão análogo ao da natureza que o original continua sendo reconhecível; 3. as inteiramente fantásticas, ou, a bem dizer, as assim chamadas grotescas, onde o pintor, despreocupado com a verdade e a semelhança, se entrega a uma imaginação selvagem (como, por exemplo, o assim chamado Brueghel dos infernos), e através do sobrenatural e do contra-senso dos seus produtos cerebrais, quer despertar com eles apenas gargalhadas, nojo e surpresa pela audácia de suas criações.”83
Ainda no século XVIII, um outro gênero literário na França, o roman noir, originário da Inglaterra, apresenta em sua estrutura traços do grotesco monstruoso, satânico, erótico e escatológico, relacionado a zonas de representação obscuras e censuradas. Este gênero literário se configura pela representação de um horror extremo, de forma que a saturação das sombras e a intensidade antinatural da perversidade das personagens acabam por propiciar a correlação com uma estética grotesca de cunho satânico e fantástico. O subterrâneo, lugar misterioso e propício às manifestações sobrenaturais, até então relacionado apenas ao espaço de grutas e cavernas, encontra equivalente no ambiente lúgubre de prisões e calabouços.
No século XIX ressurge a polêmica sobre o grotesco, quando o fenômeno ganha novo fôlego nas discussões filosóficas de Kant, Hegel, Schlegel e Goethe; na ficção insólita de Hoffmann e Jean Paul; nos Contos do Grotesco e do Arabesco de Edgar Allan Poe, e na lírica de Baudelaire. Porém, o termo grotesco adquire status de categoria estética no século XIX, na França, com as formulações de Victor Hugo, que consolidará a importância do grotesco no campo artístico transformando-o num elemento-chave da arte romântica. Com a oposição do grotesco ao sublime, apresentada no prefácio de Cromwell (1827), Hugo efetivou a legitimação do grotesco enquanto categoria estética. Segundo Hugo, a natureza multiforme do grotesco seria mais atraente do que a unicidade do belo. A mistura do grotesco e do sublime num gênero literário é justificada pela afirmação de que o grotesco seria responsável por realçar os elementos sublimes por meio do contraste.