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As matrículas das internas do Orphanato D Ulrico (1922-1929)

CAPÍTULO III EDUCAÇÃO DAS MENINAS DESVALIDAS DO ORPHANATO D.

3.1 A questão jurídica das menores abandonadas: a tutela e a adoção no Orphanato D Ulrico

3.2.1 As matrículas das internas do Orphanato D Ulrico (1922-1929)

Em 1922, ano de inauguração do Orphanato D. Ulrico foi registrado o maior número de matrículas, com 48 internas. É importante destacar que as jovens passaram longos períodos na Instituição, uma das internas residiu por 18 anos; em outros casos, percebemos que nesses primeiros anos muitas jovens passaram mais de uma década. Dessas 48 internas, 11 jovens passaram mais de dez anos; de 01 a 03 anos de internação ficaram apenas 03 jovens.

Quadro 4 - Demonstrativo sobre matrículas de 1922-1929

1922 1923 1924 1925 1926 1927 1928 1929 Quanto ao

número de

matrícula 48 12 06 21 17 09 06 16

Fontes: Quadro elaborado pela autora a partir de informações contidas nas fichas de matrícula 1922-1929.

Algumas internas ficaram sob os cuidados do Orphanato antes mesmo de sua inauguração.

Desde que tinhamos saldo, estava terminado o prédio e nos achavamos em marchas e contra-marchas para conseguir a directoria interna do instituto, demorando-se a sua inauguração, apezar de o meu esforço, até perante o Presidente da Republica, e, surgindo uns casos prementes de sete creanças abandonadas, entendi que seria falta de comprenhesão de nossos deveres, se não procurasse ampara-las. Assim, entendendo-me com o Dr. Juiz Orfãos colloquei-as no Collegio de N.S. da Conceição dirigido por D. Amalia Camará(4), duas em casa de D. Mariana Aranha, nesta Capital, e uma em casa da própria madrinha em Cabedello. Com estas creanças temos dispendido até hoje, salvo algumas pequenas despesas não escripturada - 3.181$000- Com ellas, que se acham presentes, inauguraremos o instituto. (CIDADE DA PARAHYBA, Ata da Inauguração do Orphanato D. Ulrico, 1922).

Entendemos como sendo uma urgência da família, pois não tiveram condições de cuidar de suas filhas ou pode ser encarado como uma estratégia dos responsáveis para demonstrar a necessidade e importância da sua criação para a sociedade paraibana do início século XX, fazendo com que um número maior de pessoas contribuísse para a construção do prédio do Orphanato. Tal situação foi noticiada, pelo o jornal A Imprensa, 1922, p.1. “Inaugurou-se Orphanato com oito órfãos, achando-se dois deles a quem a Directoria, já de tempos socorria ausentes com pessoas de confiança”.

As irmãs H.C.P e R.M.C.P foram entregues aos cuidados da Instituição em 1920. Eram naturais da cidade de Cabedelo, PB. O presidente no período era Heráclito Cavalcanti, que deixou as meninas no Colégio Nossa Senhora da Conceição até que o Orphanato fosse inaugurado em 1922.

A mais velha entre as irmãs R. M.C.P ficou 08 anos na Instituição enquanto sua irmã permaneceu por 06 anos. As duas tiveram o mesmo destino seguiram para a vida religiosa e foram para o Noviciado15 das Irmãs Pobres Santa Catarina de Sena, localizado na cidade de Belém-Pará. A ficha de matrícula informou também que H.C.P faleceu na cidade de Teixeira-PB e não indicou o ano nem os motivos que levaram ao

15 Local ou convento em que o noviço residia por 02 anos. Considerado o início na vida religiosa, período

seu falecimento (CIDADE DA PARAHYBA. Fichas de Matrículas. R.M.C.P, 06/12/ 1920).

Temos também E.H, que nasceu na Cidade da Parahyba e foi entregue aos cuidados do Orphanato, quando tinha 08 anos de idade e, de 1920 à 1922, ficou no Colégio Nossa Senhora da Conceição. Depois, foi para o Orphanato onde ficou de 1922 até 1933, quando foi morar com seu pai. (CIDADE DA PARAHYBA. Fichas de Matrículas. H.C.P, 06/12/ 1920).

O menor número de jovens matriculadas se deu nos anos de 1924 e em 1928, com apenas seis jovens em cada um dos anos (Quadro 4), acreditamos que a Instituição não comportava todos os pedidos de matrículas e, devido a isso em alguns anos, ocorreu uma redução do número de meninas matriculadas. Na Ata do ano 1924, Heráclito Cavalcanti, informou a necessidade de ampliar o Orphanato, haja vista a demanda de meninas pobres na cidade. Lembrava aos sócios o fato de que não esquecessem os donativos. (CIDADE DA PARAHYBA. Ata de reunião..., sessão realizada em 1924).

No ano de 1928, ingressou no Orphanato A.M, nativa da cidade do Cabo-PE, órfã de mãe. Foi internada aos 11 anos de idade e passou apenas 02 meses, menor período de tempo encontrado nas fichas de matrículas de permanência das internas. A justificativa para a exclusão da jovem foi a de que seria “[...] incorrigível seu comportamento” e foi entregue ao pai. (CIDADE DA PARAHYBA. Ficha de Matrícula. A.M, 20/09/1928).

O caso de A.M foi inusitado pelo pouco tempo que permaneceu na Instituição. Um dos objetivos da educação proposta era manter sobre vigilância os corpos, as mentes e as almas das meninas moldando seus pensamentos e atitudes.

As meninas deixavam a Instituição caso a família fosse buscar ou quando eram entregues para trabalhar na casa de um algum sócio benemérito; neste último caso, as jovens não recebiam remuneração. Quando as internas atingiam a idade entre os 18 a 21 anos eram transferidas para o Patronato, o que gerava um agravante para a Instituição, pois no mesmo não tinha muitas vagas, por isso a necessidade de locação das jovens em uma casa de família.

Algumas das constatações que encontramos no Orphanato foram verificadas em outras instituições como no caso do Colégio Nossa Senhora do Amparo:

Administração do Colégio teve problema com o qual teve que conviver. Completada a educação e atingida à idade do regulamento, ficavam as meninas, já então moças, no estabelecimento, por não terem parentes, protetores ou tutores, constituindo, assim, uma sobrecarga no Colégio. (SABINO, 2012, p. 101).

Essa aceitação das internas em prestar serviços nas casas das famílias paraibanas, se deu devido à educação recebida. De acordo com Sabino (2012), nesses longos anos eram repassadas aprendizagens às crianças, que se restringiam às prendas domésticas, em um cenário de obediência e servidão.

O ingresso no Orphanato D. Ulrico era umas das poucas oportunidades que essas jovens teriam de inserção na sociedade, mas não podemos confundir com ascensão social, pois, a partir do momento do ingresso, a maioria delas já tinha suas trajetórias traçadas. Tudo isso acontecia de forma a silenciar as famílias das internas que não questionavam ou, pelo menos, não vieram a público manifestar nenhuma queixa. Também podemos levantar a hipótese de que as possíveis queixas nunca foram publicadas ou consideradas pelas formas de comunicação da época.

Sabe-se que a educação em internatos femininos beneficentes tem um poder maior de influência sobre as formandas, com relação aos valores cultivados, se comparados às escolas convencionais. Detém-se o controle estrito do tempo, espaços limitados, atitudes controladas em tempo integral, o hábito, o vestuário, que imprime e antecipa caráter. De antemão delimita-se claramente o grupo social a que pertencem, transformando-se em objeto de pública e privada caridade. Por fim, as conduzem a um certo modo de apropriação das tarefas, presumivelmente ligadas à natureza do sexo: habituá-las no que deveria ser sua ocupação no futuro como mães ou eventuais serventes de sua casa ou dos outros. (MADEIRA,2008, p. 263).

Diante do exposto, percebemos que o Orphanato cumpriu seu propósito de internalizar atitudes e comportamentos compatíveis com sua instrução para as prendas domésticas, preparando, desde cedo, as internas para a função que desempenhariam na sociedade paraibana do início do século XX.