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4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

4.6 Identidade das Escolas de Samba

4.6.1 As Matriarcas da Avenida

O prefácio do livro foi escrito pela carnavalesca Rosa Magalhães. Rosa desenvolveu trabalhos nas quatro matriarcas: Salgueiro, Portela, Império Serrano e Mangueira. Iniciou desenhando os figurinos do Salgueiro para o carnaval 1971 e, 48 anos após, concebeu o desfile da Portela homenageando Clara Nunes. É uma artista que acompanhou a transformação dos desfiles de escolas de samba. Reconhece que o carnaval evoluiu em todos os sentidos, mas o que jamais deve se perder da festa é o Bum bum

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A Mangueira, umas da primeiras escolas de samba do Rio de Janeiro, é do tempo em que a música, as fantasias e a organização do desfile eram todas feitas dentro da própria comunidade. E o eixo central da estrutura das escolas de samba era a figura do compositor. Não por acaso a Mangueira teve seis presidentes-compositores em sua história. A verde-e-rosa, diferente de agremiações lembradas por seus carnavalescos, é identificada como uma escola de compositores. A sua essência são as majestosas canções relacionadas com a MPB.

Sob o comando de Cartola, nasce a Estação Primeira de Mangueira, no ano de 1928. As cores verde e rosa foram uma homenagem ao Rancho dos Arrepiados, em que o pai de Cartola desfilava. O nome Estação Primeira marca a primeira estação de trem, a partir da Central do Brasil, onde tinha samba. E foi ela a primeira campeã dos desfiles, em 1932. Os sambas dos compositores mangueirenses foram gravados por estrelas da Era de Ouro do Rádio. A primeira escola a possuir uma ala de compositores foi a Mangueira, por iniciativa de Cartola, em 1939. Com uma ligação íntima com a musicalidade, a Mangueira já homenageou Villa-Lobos, Braguinha, Chiquinha Gonzaga, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Chico Buarque, Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia), Nelson Cavaquinho, Cacique de Ramos e uma homenagem solo à Maria Bethânia.

Cartola, fundador da Mangueira, desfilou até 1979. A justificativa para o afastamento da avenida foi o ritmo frenético que os desfiles adquiriam. Segundo o artista mangueirense, mais parecia um desfile militar do que carnavalesco. Uma das últimas escolas a profissionalizar sua comissão-de-frente, a Mangueira teve com Carlinhos de Jesus grandes momentos na fase contemporânea do quesito. O trunfo do coreógrafo foi inovar no quesito sem renegar a tradição dos sambistas mangueirenses. A inesquecível comissão de 1999, sobre o século do samba, trazia 14 componentes com uma maquiagem impecável para representar sambistas consagrados e já falecidos. Lá estavam Noel Rosa, Pixinguinha, Donga, Sinhô, Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Ismael Silva, Natal, Mestre Fuleiro, Tia Ciata, Clara Nunes, Clementina de Jesus e Carmen Miranda.

Entre os maiores nomes da Mangueira está o de José Bispo Clementino dos Santos, o famoso Jamelão. O crítico e jornalista Tárik de Souza o classificou como uma das mais belas e completas vozes do Brasil (GASPARANI, 2016). Sempre exigiu que fosse chamado de intérprete. Negava-se a gravar os sambas da Mangueira para a gravadora Top-Tape sem receber cachê. Somente começou a gravar, em 1986, quando o carnaval estava mais profissionalizado, contando com uma gravadora própria das escolas

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de samba. Em 57 anos com o microfone principal da verde-e-rosa recebeu seis Estandartes de Ouro: 1974, 1982, 1990, 1992, 1996 e 1998. Gasparani (2016) aproveita para criticar o som atual no Sambódromo. Um sistema generalizado deturpa o timbre dos cantores. Quantas vezes esse som deixou a voz de Jamelão baixa ou abafada?

Sobre as mudanças nos desfiles, o passista número um da escola, Índio da Mangueira, desde 1971 na verde-e-rosa, conta que antigamente os passistas eram os grandes destaques. Isso era possível em função do andamento mais cadenciado. Hoje em dia os passistas não conseguem mostrar a sua dança pelo ritmo acelerado imposto pelas harmonias para cumprir o tempo regulamentar de desfile. Ao invés de dançarem e mostrarem a sua arte, os passistas realizam coreografias sem personalidade.

Os mestres-salas e porta-bandeiras da Mangueira se mantiveram fiéis ao pavilhão verde-e-rosa. Por muito tempo só dançaram para a sua agremiação, recusando propostas de outras escolas de samba. Uma ligação presente no seio familiar desses artistas da dança. Mocinha e Neide, famosas porta-bandeiras mangueirenses, eram sobrinhas, respectivamente, da primeira e da segunda porta-bandeira da história da Mangueira. Uma tradição passada de geração a geração na comunidade da escola. Giovanna, nascida na Mangueira, aprendeu nos anos 1980 a arte de porta-bandeira na escola Dalmo José de formação de mestres-salas e porta-bandeiras mirins da agremiação. Até 2009 defendeu com afeto o pavilhão verde-e-rosa. Mas como os tempos são outros carregou bandeiras distintas após sua saída da Mangueira. Prova disso são seus três estandartes de ouro, por três agremiações diferentes: Mangueira (2004), Unidos da Tijuca (2011) e Unidos de Vila Isabel (2014). Gasparani tem um sentimento de perda das tradições a respeito de tal acontecimento:

A verdade é que o mundo gira e tudo se modifica. Faz sentido a Mangueira ter sido a última a ceder ao mercado das escolas de samba S/A; como diz o samba, “é fantástico! Virou Hollywood isso aqui”. E, o que antes era o reflexo da geografia de uma cidade, de uma comunidade, transformou-se num grande showbiz! Aquele morro lírico e romântico não existe mais. Faz parte de outra época, lindamente retratada nos sambas de Cartola e seus contemporâneos (2016, p. 99).

Até 1946 a escola que representava o Morro da Serrinha era o Prazer da Serrinha. Após o rompimento de alguns nomes importantes com a Prazer da Serrinha nascia o Império Serrano, apelidado menino de 47 ou Reizinho de Madureira, uma instituição fundada na tradição africana do jongo na casa de Tia Eulália. O jongo e o Império Serrano

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são indissociáveis. O Morro da Serrinha é reduto de samba e de jongo da melhor qualidade. Alguns contam que os agogôs, instrumento característico da bateria do Império Serrano, são uma herança do jongo. Um dos nomes mais importantes, Mestre Darcy do Jongo, esteve junto a Candeia na criação da escola de samba Quilombo. A intenção era “recuperar o sentido comunitário das agremiações tradicionais” (SIMAS, 2016, p. 79). Mestre Darcy levou o jongo da Serrinha para os palcos de teatros nacionais e internacionais. Para quem dizia que ao fazer isso estava violando a tradição, Mestre Darcy respondia que esse era o modo de preservá-la.

A agremiação da Serrinha foi responsável por ser pioneira em alguns aspectos no carnaval. Olegária dos Anjos foi a primeira a criar fantasias para desfilar como destaque. A bateria imperiana inseriu os instrumentos pratos metálicos, reco-reco e agogô em sua orquestra de percussão. Foi o Império Serrano quem criou a primeira escola mirim, o Império do Futuro.

O Império Serrano possui um dos maiores nomes de compositores de sambas- enredo: Silas de Oliveira. Foi Silas quem compôs sozinho, em 1964, Aquarela Brasileira. Um samba que consta em toda lista das melhores composições de todos os tempos do gênero. No ano seguinte compôs com Dona Ivone Lara e Bacalhau um samba-enredo com característica de epopeia. Os Cinco Bailes Tradicionais na História do Rio marca a primeira vez que uma mulher assinou um samba para um dos maiores grêmios da cidade. Já, em 1969, junto aos parceiros Mano Décio e Manoel Ferreira, Silas compôs outra obra de impacto, Heróis da Liberdade, um clamor por liberdade em tempos ditatoriais no Brasil:

Ao longe soldados e tambores Alunos e professores Acompanhados de clarim

Cantavam assim Já raiou a liberdade A liberdade já raiou Essa brisa que a juventude afaga

Essa chama

Que o ódio não apaga pelo universo É a evolução em sua legítima razão

Uma história interessante que demonstra o afeto à sua escola de samba aconteceu no Império Serrano, em 1981. A ala de crianças desfilaria fantasiada de Saci-Pererê. Na época o sucesso do personagem era enorme pela exibição do Sítio do Pica-Pau Amarelo, na TV Globo. As crianças estavam muito entusiasmadas. Na véspera do desfile veio a

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fatídica notícia de que o cachimbo do Saci não ficara pronto. Decepção geral entre as crianças. O pai de uma delas, ao saber do ocorrido, ficou a noite, a madrugada e o dia do desfile talhando na madeira cada um dos cachimbos para que as crianças pudessem se apresentar felizes na avenida.

Da mesma região do Império Serrano está situada a Portela. A mais antiga escola de samba em atividade participou de todos os desfiles. Foi fundada em 11 de abril de 1923, na zona norte da cidade, no bairro de Oswaldo Cruz. É a campeã do primeiro desfile não-oficial, organizado por Zé Espinguela, em 1929. Uma das personalidades mais marcantes da sua história foi o bicheiro Natalino José do Nascimento, mais conhecido como Natal da Portela. No fundo da casa de seu pai surgiu a Portela. Era ele quem comandava a organização do jogo do bicho na região de Madureira. Natal investiu muito de seus recursos na escola de samba para construir a sede da agremiação.

Alguns meses após a morte de Natal, o compositor Candeia se afasta da Portela e funda, em dezembro de 1975, uma escola de samba chamada Quilombo. Essa agremiação era uma crítica à perda da tradição que excluía os sambistas da sua própria festa. Candeia tinha resistência “aos de fora” que vinham comandar os rumos da escola só movidos pelo retorno financeiro. Um exemplo foi a exigência da participação do amigo pessoal do presidente Carlinhos Maracanã, o compositor David Correa, na disputa de sambas. Mergulhada em uma crise interna, nem de longe parecia a agremiação que ganhara nove títulos entre 1953 e 1970, a Portela foi cada vez mais se distanciando das principais concorrentes. Nos anos 1980 os herdeiros do famoso Natal deixam a Portela e fundam uma nova agremiação, a Tradição. Uma resposta ao que estaria se perdendo na águia de Oswaldo Cruz. Magalhães indaga:

A árvore teria esquecido definitivamente suas raízes? Ou terá sido afastada dela pelos novos rumos de uma festa de dimensões globais, ou, pelo menos, pretensamente globais? Como contê-la, a festa, se terá passado a representar não mais uma parte da sociedade, mas a sociedade em sua dimensão urbana, industrial, de consumo? Como preservar os fundamentos do canto e da dança do samba, reinventar suas tradições, aliando-as à competitividade? Como realizar esta sua missão de grande escola em meio a mudanças tantas vezes descomprometidas, meramente imediatas? (2016, p. 62).

Durante muitos anos a Portela foi uma escola que se manteve baseada na tradição, sem competitividade frente aos novos tempos. Geralmente a parte estética da agremiação vinha bastante aquém para almejar um novo título. Tempos difíceis para quem foi

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heptacampeã no período de 1941 a 1947 e é a maior campeã do carnaval até hoje. Um período tão longo sem títulos e continuar uma instituição respeitada, como explicar isso? Para Magalhães (2016), parte da resposta está na presença da agremiação no cenário musical brasileiro de forma geral e, especialmente, na cultura carioca. A Portela é uma escola com atividades intensas, além do carnaval, disseminando o samba pelo Rio de Janeiro e por outros estados Brasil afora através do contato com portelenses ilustres.

Fundada em 1953, não demorou muito para o Salgueiro se destacar. Nelson Andrade, presidente da alvirrubra tijucana, percebeu a necessidade de mudanças nos desfiles. Foi ele quem criou o famoso lema: “Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”. O primeiro passo se deu, em 1959, quando trouxe o casal Dirceu e Marie Louise Nery para desenvolver um enredo sobre o artista Jean-Baptiste Debret. Uma proposta bastante diferenciada da tendência das escolas em contar enredos históricos baseados em livros didáticos. De jurado no ano anterior, Fernando Pamplona se tornou carnavalesco do Salgueiro para o desfile de 1960. Nas décadas de 1960 e 1970 grandes inovações no quesito enredo foram capitaneadas por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Cacá Diegues, um dos mais importantes cineastas brasileiros, se inspirou para realizar o filme sobre Xica da Silva a partir do desfile salgueirense. Diferente da Mangueira que fez inúmeras homenagens a figuras ilustres, a única homenagem prestada pelo Salgueiro foi ao carnavalesco Fernando Pamplona, em 1986, e o impacto de seus enredos sobre a cultura brasileira.

No carnaval de 2006 o Salgueiro teve a sua pior classificação nos desfiles, um décimo primeiro lugar com o enredo Microcosmos: o que os olhos não veem, o coração

sente. Para resgatar a autoestima se optou por um enredo afro e com uma narrativa de

história quase desconhecida do grande público para 2007. Várias consultorias espirituais foram realizadas para apresentar adequadamente o enredo Candaces, uma reverência à luta da mulher negra. O desfile foi um sucesso de público e crítica, o Salgueiro se reencontrava com sua identidade. Mas os envelopes abertos na Quarta-feira de Cinzas não traduziram o esperado. O Salgueiro ficou com a sétima colocação e nem sequer entre as campeãs retornou.

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