A fim de reforçar a conexão entre a sustentabilidade e o planejamento integrado de transporte e uso do solo, esta sessão tecerá considerações sobre a necessidade da integração entre os planejamentos, estratégias e medias. Para isso, serão aprofundados os conceitos de sustentabilidade e mobilidade urbana sustentável.
Tomando como base, novamente, os estudos teóricos acerca da inter-relação de transporte e uso do solo elaborados por Hansen, em 1956, e abordados e comprovados amplamente pela literatura do tema, temos que: que a distribuição do uso do solo determina a locação das atividades humanas; que a distribuição de tais atividades no espaço molda as viagens no sistema de transporte; que a estrutura de tal sistema de transporte cria oportunidades de interação espacial, cuja mensuração
pode ser feita através da acessibilidade e que tal acessibilidade impacta nas decisões que geram mudanças no uso do solo.
Dessa maneira, intervenções no “ciclo do uso do solo e transportes” podem moldar a dinâmica das cidades. Tais alterações, no entanto, precisam de diretrizes, que guiem seus objetivos. No âmbito do estudo das conexões entre transportes e uso do solo, podemos apontar a “mobilidade urbana sustentável” como a diretriz das intervenções no “ciclo do uso solo e transportes”, através de medidas. Tal conceito foi abordado por dois estudos europeus, voltados à temática de sustentabilidade nos transportes, o PROPOLIS (Planning and Research of Policies for Land Use and
Transport for Increasing Urban Sustainability) e o SUMMA (2003) (Sustainable mobility, policy measures and assessment).
O PROPOLIS foca na definição de sustentabilidade pautada no dever de cada geração para com seus sucessores, adotada pela Comissão de Brundtland, em 1987, em seu relatório Nosso Futuro Comum. Desse ponto, desenvolve, através da Agência Européia de Meio-ambiente, em 1995, cinco princípios da sustentabilidade urbana: capacidade ambiental, reversibilidade, resiliência, eficiência e equidade. O primeiro prega que as cidades devem ser projetadas e gerenciadas dentro dos limites impostos pelo ambiente natural. O segundo, que o planejamento das intervenções devem ser tão reversíveis quanto possível para não pôr em perigo a capacidade da cidade de se adaptar às novas demandas decorrentes de mudanças nas atividades populacionais e econômicas. O terceiro pauta a capacidade das cidades de se recuperarem de tensões externas. O quarto, aborda o máximo benefício econômico e humano para cada unidade de recursos utilizados. E, por fim, o quinto, trata da equidade do acesso aos meios de transporte.
Já o SUMMA, por outro lado, traz a definição desenvolvida pelo Centro para Transporte Sustentável, em 1997, (Centre for Sustainable Transportation), e revisada pelos ministros dos transportes da União Europeia, em 2001. Para eles, um sistema de mobilidade urbana sustentável precisa conter três premissas: primeiro, permite que as necessidades básicas de acessibilidade e desenvolvimento de indivíduos, empresas e sociedades sejam atendidas de forma segura e consistente, com saúde humana e ecológica, com atenção às necessidades das gerações
futuras. Segundo, tem preços acessíveis, funciona de forma justa e eficiente, oferecendo opções de modos de transportes e apoiando uma economia competitiva, bem como um desenvolvimento regional equilibrado. E, por fim, em terceiro, limita as emissões de poluentes dentro da capacidade do planeta para absorvê-los, minimizando o impacto sobre a terra e a geração de ruídos.
Os maiores problemas causados pelo transporte urbano estão relacionados ao congestionamento, poluição do ar, consumo de energia, acidentes, poluição sonora e utilização de solo urbano. Tal utilização do solo urbano, por outro lado, tem impactos no meio-ambiente, ao diminuir o espaço verde, biodiversidade e outros valores locais como históricos e estéticos (PROPOLIS, 2004). Tais assuntos são regulados e controlados pelos estados, através de Instrumentos de Políticas Públicas, que podem, ou não estar contidas em leis. As complexas inter-relações entre transporte e uso do solo são a principal razão que justifica a utilização de medidas integradas de uso do solo e transportes, pois isoladas não são suficientes para atacar os problemas atuais da mobilidade urbana (MACÁRIO, 2005).
Na literatura, a definição mais utilizada de Instrumentos de Políticas Públicas é a abordada no estudo europeu PROSPECTS (Procedures for Recommending
Optimal Sustainable Planning of European City Transport Systems), de 2003:
Instrumentos de Políticas Públicas são ferramentas que podem ser utilizadas para superarem problemas e atingirem objetivos. Eles incluem medidas de intervenção em transportes ou mudanças no uso e ocupação do solo. Se voltadas as mudanças aos transportes, essas podem ser classificadas como novas infraestruturas, gerenciamento de tráfego, políticas de precificação, mudanças de atitudes e utilização da tecnologia da informação. Caso voltadas ao uso do solo, podem contribuir significativamente para a redução dos problemas dos transportes.
Para Macário (2005), uma estratégia integrada de transporte e uso do solo consiste na combinação de medidas das duas categorias. Dessa maneira, é possível alcançar os objetivos de forma efetiva; não devendo, no entanto, sua primeira aplicação ser identificada como o fim do processo, visto que tal estratégia envolve uma seleção de pacotes integrados de ações que se reforçam até atingir o objetivo final, superando as barreiras. Tais instrumentos podem, por sua vez, ser
implementados levando em consideração a totalidade da cidade (como criação de tarifas), em uma parte da cidade (como uma linha férrea), em uma hora do dia (como limitação no estacionamento), ou, ainda, em níveis diferentes de intensidade (taxas progressivas de acordo com o nível do serviço oferecido) (PROSPECTS, 2003).
Tal integração, no entanto, pode apenas proporcionar uma contribuição parcial na implantação da sustentabilidade. O uso de políticas públicas voltada a sustentabilidade tende ao desenvolvimento sustentável através de duas maneiras: suprir a demanda por uso do solo ocupando menos espaço, e suprir a demanda por transportes através de modos ambientalmente amigáveis (TRANSLAND, 2000). São enumeradas pelo TRANSLAND (2000) as seguintes ações para atingir as metas: ampliar a acessibilidade e o uso do espaço, aumentar modos sustentáveis de transportes, reduzir o congestionamento, melhorar a segurança no trânsito, diminuir a poluições de externalidades dos transportes, manter uma economia urbana sustentável, assegurar a segurança e igualdade social.
Tecidas considerações acerca de medidas integradas de transporte e uso do solo como promotoras da sustentabilidade, nesta sessão, voltamo-nos aos projetos do item 3.1. Neles foram identificadas quatro abordagens principais de intervenção: primeiramente, apontando as “maneiras” de interferência (interferindo na demanda ou na oferta) de transportes. Depois no “meio” de intervir, ou seja, alterando-se os planejamentos e legislações dos transportes e de uso e ocupação do solo. Identificou-se, ainda, a “estratégia” de interferência como tema, tratando dos objetivos a serem alcançados (como, por exemplo, redução na necessidade de viagens) e, por fim, apontando, diretamente, as medidas passíveis de integração de uso e ocupação do solo. Tais temas serão abordados nos tópicos a seguir.