• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III - METÁFORA: ORNAMENTAÇÃO, ESTILO E COGNIÇÃO

4.1 Cordel “Recomece”

4.1.1 As metáforas orientacionais

Retomando a teoria proposta por Lakoff e Johnson (2002), o conceito orientacional organiza todo um sistema de conceitos em relação a um outro conceito.

As metáforas orientacionais são assim denominadas por terem relação com a

orientação espacial: para cima – para baixo, dentro – fora, frente – trás, cima de – fora de, fundo – raso, central – periférico.

No caso do poema “Recomece”, as construções metafóricas orientacionais são:

Quando esse mundo pesado Lhe ferir, lhe esmagar É hora do recomeço Recomece a LUTAR.

e você só duvidar É hora do recomeço Recomece a ACREDITAR.

Quando a estrada for longa e seu o corpo fraquejar

nem um lugar para chegar É hora do recomeço Recomece a CAMINHAR

Quando o abraço faltar É hora do recomeço Recomece a AMAR

Quando você cair e ninguém lhe aparar

Quando a força do que é ruim Conseguir lhe derrubar É hora do recomeço Recomece a LEVANTAR.

For difícil suportar [...]

É hora do recomeço Recomece a SONHAR

É preciso de um final Para poder recomeçar Como é preciso cair Para poder levantar Nem sempre engatar a ré Significa voltar

Remarque aquele encontro reconquiste um amor reúna quem lhe quer bem recomece, se refaça relembre o que foi bom reconstrua cada sonho redescubra algum dom reaprenda quando errar

rebole quando dançar e se um dia, lá na frente, a vida der uma ré recupere sua fé

e recomece novamente (BESSA, 2018a, p. 16).

As metáforas orientacionais são os nossos orientadores posicionais, ou seja, organizam as noções segundo a espacialidade. O cordel “Recomece” é constituído pelos conceitos metafóricos REFAZER É PARA CIMA e REFAZER É BOM.

Considerando o embasamento teórico acerca da metáfora conceptual, temos BOM É PARA CIMA, MAU É PARA BAIXO; EVENTOS FUTUROS PREVISÍVEIS SÃO PARA CIMA (OU PARA FRENTE).

É interessante ressaltar que Bessa emprega repetições no fim de algumas estrofes, como “É hora do recomeço” e “Recomece a...”, que sintetizam a construção das metáforas REFAZER É PARA CIMA e REFAZER É BOM. Tais repetições decorrem de intempéries como: “Lhe ferir, lhe esmagar”, “e você só duvidar”, “nenhum lugar para chegar”, “Quando o abraço faltar”, “Quando você cair e ninguém lhe aparar”,

“conseguir lhe derrubar” e “for difícil suportar”. Em sequência, o poeta indica o momento de agir diante do infortúnio, consequentemente danoso, que pode ou poderá ocorrer na vida do leitor. Este terá uma noção, ou seja, uma orientação espacial para observar que MAU É PARA BAIXO, ou seja, aquilo que causa danos ou algum mal é observado na posição PARA BAIXO. Esse conceito inicial da metáfora MAU É PARA BAIXO, de acordo com Lakoff e Johnson (2002, p. 63), refere-se à “Base física do bem-estar pessoal: Felicidade, saúde, vida e controle das coisas que especialmente caracterizam o que é bom para uma pessoa – são todos PARA CIMA”; desse modo, tudo o que remete a inferioridade, estar por baixo, cair – todas as ações rasteiras.

Silva (2018) argumenta que o referencial no estabelecimento da organização espacial é o bipedismo, ereto e reto. A ideia de PARA BAIXO, em algumas culturas, remete a chão, debaixo da terra, enterrado, morto – a maioria das culturas enterra seus mortos debaixo do chão, trata-se de um ritual histórico. De acordo com Martin (1994), o primeiro cemitério surgiu em 60.000 a. C., uma indicação de que o ato de enterrar os mortos é primitivo e visava a proteger os corpos contra animais predadores atraídos pelo estado de decomposição. Tais conceitos, arraigados na história da humanidade, ajustam-se ao fim, à derrota, ou seja, a tudo que remete PARA BAIXO e é desagradável à nossa realidade e à nossa conceptualização.

De acordo com Koch e Elias (2016), as repetições são elementos significativos no estabelecimento da coesão textual, com função textual e persuasiva, podendo ser designadas como paralelismo sintático, que é a repetição de uma mesma estrutura sintática, mas a cada vez preenchida com itens lexicais diferentes.

Nessa direção, observamos que as estruturas “É hora do recomeço” e

“Recomece a...” se apresentam em construções paralelas, como se fossem fórmulas para recomeçar. Por meio desse recurso, o poeta orienta o leitor para a conclusão que a recorrência sintática ajuda a reforçar, mantendo em foco o tópico principal do cordel, além de enfatizar o seu propósito orientacional e exercer no leitor a memorização desse propósito. Em vista disso, o poeta abarca o leitor na metáfora REFAZER É PARA CIMA, REFAZER É BOM, dado que a repetição está atrelada a essa metáfora.

No cordel, também notamos a ocorrência de verbos no modo imperativo e precedidos do prefixo “re”, os quais estão em itálico no trecho apresentado e que elencamos a seguir:

De acordo com Bechara (2015, p. 385), o prefixo latino “re-” indica “repetição, reciprocidade, regredir, refazer”. Meirelles e Cançado (2014) compartilham do mesmo entendimento e afirmam que pode se tratar de categorias de mudanças de estado, isto é, quando relacionado a um verbo primitivo. Observamos que tais verbos, no texto, estão no modo imperativo, que expressa, segundo Faraco, Moura e Maruxo Jr. (2016), ordem, desejo, súplica, conselho, sugestão, recomendação, orientação, alerta, aviso.

Os verbos metaforizados tematizam o próprio cordel e acompanham a rima do título

“Recomece”, recorrente em todo o corpo do texto. O poeta busca motivar, assim, a mudança de estado (re), além de aconselhar e envolver recorrentemente o leitor em direção a uma mudança. Em estudos na área da psicologia, em respeito ao aconselhamento, as metáforas servem como recurso para o paciente formular ou criar uma história, daí o uso da metáfora ser uma terapia narrativa, afirma Loue (2013).

Os conceitos metafóricos orientacionais REFAZER É PARA CIMA e REFAZER É BOM, identificados nos verbos com prefixo “re”, são coerentes com a noção de

“mudança de estado”, de “refazer para melhorar”, de “repetir a ação”, que correspondem a um aprimoramento da ação, de acordo com as definições de Meirelles e Cançado (2014) e de Bechara (2015). Portanto, tais conceitos não são

Recomece, recomeço, remarque, reconquiste, reúna, refaça, relembre, reconstrua, redescubra, reaprenda, rebole.

arbitrários; estão, de fato, relacionados a uma base física em que BOM É PARA CIMA, MAU É PARA BAIXO e EVENTOS FUTUROS PREVISÍVEIS SÃO PARA CIMA (OU PARA FRENTE).

A base física, como destaca Moura (2005), é a postura que a pessoa apresenta quando está em movimento. Em suma, quando alguém está triste, possivelmente terá uma postura e estará com o emocional caídos; ao contrário, quando alguém está feliz, sua postura e seu estado emocional se elevam. Observemos a relação com a base física nos trechos seguintes:

É preciso de um final Para poder recomeçar Como é preciso cair Para poder levantar Nem sempre engatar a ré

Significa voltar (BESSA, 2018a, p. 16).

Referente aos trechos em destaque, notamos que Bessa relaciona refazer, repetir, a algo necessário à vida, a uma forma de aprender a ser resiliente. Desse modo, compreendemos as relações de:

Um final: cair, para baixo, descer.

Recomeçar: refazer, levantar de onde caiu.

É preciso cair: cair é necessário à existência.

Para poder levantar: é preciso passar pela experiência de cair para aprender levantar.

Engatar ré: voltar para trás.

Não significa voltar: no caso, a “ré” traduz o sentido de “refazer”.

Bessa, ao enfatizar a expressão “é preciso cair”, defende a vivência indispensável das experiências danosas, dolorosas e adversas, as quais são responsáveis pelo crescimento e pelo discernimento humano. Ele propõe ao leitor o ato de refazer como forma de favorecimento e resiliência diante dos infortúnios.

Verificamos a construção do conceito metafórico orientacional EVENTOS FUTUROS PREVISÍVEIS SÃO PARA CIMA (OU PARA FRENTE) no trecho “e se um dia, lá na frente, a vida der uma ré, recupere sua fé e recomece novamente”. Lakoff e Johnson (2002) defendem esse conceito por meio da base física, os nossos olhos, que seguem

na direção conforme os movemos: para frente – em frente. Dado que o chão é percebido como fixo, o topo do objeto parece se mover para cima no campo de visão da pessoa. Bessa finaliza o cordel visionando o futuro, as possíveis adversidades que surgirão na vida do leitor – não obstante o conceito configurar o termo PARA CIMA, relacionado com felicidade, vida, saúde e controle das coisas, como já expusemos.

Isso posto, Bessa atribui aos empecilhos futuros um certo controle e uma superação, advindos do modo como foram engendrados no passado.

Ao analisarmos os trechos constitutivos das metáforas orientacionais, notamos que o objetivo do poeta, por um lado, é motivar o público que vivencia ou vivenciou infortúnios, construindo o conceito metafórico orientacional MAU É PARA BAIXO, por meio de expressões que externam desagrados e danos, tais como “Quando você cair e ninguém lhe aparar”; por outro lado, fomenta construções como REFAZER É PARA CIMA, REFAZER É BOM, portanto, BOM É PARA CIMA, as quais são representadas por meio das expressões recorrentes “é hora do recomeço” e “Recomece”, além dos verbos motivacionais precedidos do prefixo “re”, que exprimem repetição ou mudança de estado. Bessa realça nesses verbos e expressões o sentido de superar as adversidades e atribui ao futuro a capacidade do leitor de superar as possíveis adversidades, o que se dá pela construção metafórica EVENTOS FUTUROS PREVISÍVEIS SÃO PARA CIMA (OU PARA FRENTE).

É importante observar que a participação do público é significativa, visto que a mensagem determina esse público como alvo. Então, o discurso é elaborado com base em dimensões socioculturais nas quais o leitor se vê inserido; e ele se reconhece em situações desagradáveis, comuns, da vivência. Bessa inicia o cordel com a sequência de conceitos metafóricos orientacionais que estão presentes no sistema conceptual da nossa sociedade, como: “esmagar”, “ferir”, “escuro”, “incerto”, “duvidar”,

“fraquejar” “empurrar”, “cair”, derrubar”, “machucar”, “suportar”, “final”. Tais conceitos são compreendidos metaforicamente como desagradáveis e desastrosos; logo, o leitor se reconhece em alguns deles e toma para si o discurso. Essa sequência de conceitos orientacionais formulam a construção MAU É PARA BAIXO, como já demonstrado.

Bessa finaliza cada estrofe com as formas recorrentes “é hora do recomeço” e

“Recomece a”, as quais constituem um estímulo à superação, além disso, defende a

perspectiva do conceito metafórico REFAZER É BOM, que engloba as desventuras citadas em cada estrofe.

Na última estrofe, reforça a ideia inserida no conceito REFAZER É PARA CIMA, REFAZER É BOM, ao empregar verbos com o prefixo “re”, e retoma a convicção de

“repetir”, “refazer”, como uma forma de se superar os dissabores cotidianos. Ao final, ao construir o conceito EVENTOS FUTUROS PREVISÍVEIS SÃO PARA CIMA (OU PARA FRENTE), projeta um futuro em que o leitor deve se manter resiliente.

Dessa maneira, a construção das metáforas orientacionais, nesse cordel, organiza-se seguindo um critério de disposição: “situações desagradáveis”, seguidas dos argumentos “refazer” e “superar” e da finalização com “continue superando no futuro”.

A seguir, passamos à análise da construção das metáforas ontológicas.