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2.1. ANÁLISE CRÍTICA DE GÊNERO

2.1.3. Linguística Sistêmico-Funcional

2.1.3.1. As metafunções ideacional, interpessoal e textual

Nesta subseção, apresento as metafunções ideacional, interpessoal e textual, bem como os recursos léxico-gramaticais por meio dos quais as metafunções são realizadas. Uma vez que o enquadre teórico-metodológico adotado para esta pesquisa é interdisciplinar, essa revisão articula, em alguns pontos, a LSF e a ACD. Enquanto que a primeira formula teórica e analiticamente as metafunções, a última adota a GSF (que as apresenta e descreve) enquanto ferramenta para a análise textual (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999, p. 139). Reviso, primeiramente, a metafunção ideacional, seguida da metafunção interpessoal e da metafunção textual. A metafunção ideacional está relacionada à variável Campo, no nível do Registro, e caracteriza-se, semanticamente, por expressar o conteúdo da experiência (seja ela física ou mental). Esta metafunção subdivide-se em outras duas: experiencial e lógica. Em nível léxico-gramatical, a metafunção ideacional lógica tem como unidade de análise o complexo oracional; já a experiencial é realizada por meio do sistema de transitividade, o qual constrói a experiência por meio da configuração de Processos (sintagma verbal), Participantes (sintagma nominal e adjetival) e Circunstâncias (sintagma adverbial ou preposicional) (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 177). Sob o escopo da metafunção ideacional, a oração é concebida como representação (GOUVEIA, 2009).

As orações diferem em relação ao tipo de processo empregado. Com base nisso, Halliday e Matthiessen (2004) apontam seis tipos de orações, as quais são divididas em dois grupos: o grupo de processos principais (mais recorrentes e em maior número no sistema da linguagem) e o grupo de processos secundários, ou intermediários. No primeiro grupo, estão as 1) orações materiais, 2) orações mentais, 3) orações relacionais; no segundo grupo, as 4) orações comportamentais, 5) orações verbais e 6) orações existenciais (ibid., p. 248).

O Quadro 3 apresenta uma sistematização dos seis tipos de orações supracitadas com respectivos exemplos, retirados da coluna de opinião “Humilhar e

ignorar professor pode. Ferir e sufocar, não”17, da jornalista e comentarista Eliane

Brum, publicado no jornal “El País”, em 11 de maio de 2015, sobre a violência da Polícia Militar do Paraná contra a manifestação de professores do estado do Paraná, no dia 29 de abril de 2015.

Quadro 3 – Representação dos tipos de orações

Tipos de processo Significados construídos Exemplos Materiais

Relacionam-se com o mundo da experiência material; são orações do ‘fazer e acontecer’; constroem uma mudança no fluxo dos eventos por meio do uso de energia (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 179)

Ex.: "Eles estão atirando em nós".

Ex.: Que os policiais militares, também eles servidores mal pagos do Estado, façam o serviço sujo.

Mentais

Relacionam-se com o mundo da experiência mental, da própria consciência (ibid., p. 197)

Ex.: Principalmente porque eles acreditam que seus filhos estão a salvo.

Ex.: [...] dos filhos dos “outros” eu sinto pena [...]

Relacionais

Caracterizam e identificam entidades; processos de ‘ser’ e ‘ter’ (ibid, p. 210-211)

Ex.: [...] um professor não era mais um professor.

Ex.: Os coletivos de mídia independente tiveram inegável importância na documentação da história em movimento.

Comportamentais Relacionam-se a processos de comportamento fisiológico e psicológico (ibid., p. 248)

Ex.: Aí a sociedade grita.

Ex.: Professores desmaiam [...] com as bombas de gás lacrimogêneo [...]

Verbais Relacionam-se ao processo de dizer (ibid., p. 252)

Ex.: E então homens públicos como Beto Richa declaram, rosto compungido: “Não tem ninguém mais ferido do que eu.”

Ex.: [...] mas o governador Geraldo Alckmin afirmou: “Na realidade, não existe greve de professores”.

Existenciais

Representa que algo existe ou acontece (ibid., p. 256)

Ex.: Ainda houve quem tentasse transformar os professores em “vândalos” [...]

Ex.: Não existe equívoco de inocência nessa versão.

Fonte: Autora (com base em HALLIDAY; MATTHIESSEN (2004)).

17 Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/11/opinion/1431351138_436101.html>.

A metafunção ideacional, ou os significados representacionais, nos termos de Fairclough (2003), possibilita a análise não apenas dos tipos de processos escolhidos para compor uma determinada oração, como também dos participantes que figuram nessa oração e das circunstâncias em que ocorre. Representar, como afirma Fairclough (2003, p. 144), pressupõe escolhas, as quais corroboram para a construção de determinada representação (e não outra), a partir de uma gama de possibilidades em potencial. Nesse sentido, não apenas aquilo que é dito tem significado, mas também o que não é dito, uma vez que, ao representarmos alguma entidade, fazemo-lo tendo como pano de fundo uma infinidade de opções em potencial das quais escolhemos algumas em detrimento de muitas outras. Essas escolhas (relativamente conscientes) são influenciadas, conforme já mencionado, pelo Contexto de Situação e pelo Contexto de Cultura, bem como pelos propósitos individuais do enunciador.

Para tentar ilustrar esse princípio, consideremos a oração “Os alunos não são passivos diante do conhecimento”, retirado do segundo corpus. Esse enunciado é construído a partir da escolha de certos elementos potenciais que o sistema da língua oferece. No nível mais básico do sistema (Figura 4), o sistema fonológico e grafológico oferece sons, letras e sílabas. No nível subsequente, o sistema léxico-gramatical oferece palavras e combinações de palavras que constroem a oração. No nível semântico, as escolhas realizadas a partir dos dois sistemas anteriores constroem determinados significados. Enquanto essas escolhas priorizam alguns elementos (como “alunos”, “são”, “passivos”, “conhecimento”), uma série de outros elementos deixa de ser selecionada, contribuindo, consequentemente, para uma determinada representação de alunos, no caso, Portador do Atributo não-passivo (oração relacional)18. Em nível contextual, em relação ao Contexto de Situação, o enunciado

é influenciado pelo Campo (ensino de inglês), Relações (autor da reportagem e leitor) e Modo (linguagem constitutiva, canal gráfico, modo escrito). Em relação ao Contexto de Cultura, toma-se o enunciado em questão como parte do gênero reportagem didática, constituído pela padronização do discurso em termos dos “atos retóricos ou atos de fala realizados por meio da linguagem em circunstâncias específicas, com características retóricas recorrentes” (MOTTA-ROTH; HEBERLE, 2005, p. 15).

18 O marcador de polaridade “não” é melhor explorado na revisão da próxima metafunção, a

Enquanto gênero, a reportagem didática foca em algum objeto do conhecimento cujas explicações não trazem à luz um conhecimento novo, mas, sim, um conhecimento já consolidado, o qual serve de pano de fundo para a oferta de diretrizes e dicas para o leitor (BONINI, 2009, p. 214). Nessa perspectiva, o fato de o referido enunciado ser instanciado por meio do gênero reportagem didática (e não um artigo acadêmico, por exemplo) produz determinados efeitos de sentido, como oferecer ao leitor dicas de como planejar seu fazer pedagógico, em vez de apresentar ao leitor o relato da empreitada investigativa de um pesquisador do campo da LA sobre a questão, por exemplo.

A segunda metafunção referida por Halliday e Matthiessen (2004) é a metafunção interpessoal. Relacionada à variável contextual Relações, essa metafunção representa as interações entre os participantes de um evento comunicativo, as identidades e os papéis que assumem por meio do sistema de Modo e Modalidade. A oração, nesse sistema, é concebida como troca de informações ou troca de bens-e-serviços (GOUVEIA, 2009, p. 35).

A troca de informações também é denominada de proposição (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 147) ou, ainda, de modalidade epistêmica (FAIRCLOUGH, 2003, p. 167), em que o valor trocado é a informação, o conhecimento. Tipicamente, a proposição realiza-se por meio de declaração e pergunta. Já a troca de bens-e- serviços é denominada de proposta (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 147), ou modalidade deôntica (FAIRCLOUGH, 2003, p. 168), na qual o valor trocado é uma atividade. Realiza-se por meio de oferta e comando. No exemplo “Os alunos não são passivos diante do conhecimento.”, previamente apresentado, tem-se, em nível interpessoal, uma proposição, uma vez que o enunciado realiza a troca de informação, e não de uma oferta ou comando.

A metafunção interpessoal é realizada, léxico-gramaticalmente, por diferentes recursos gramaticais, tais como vocativos, perguntas, marcadores de polaridade, modalidades, marcadores avaliativos, elementos metadiscursivos, dentre outros (FUZER; CABRAL, 2010, p. 106). Esses recursos constituem, discursivamente, a interação entre interlocutores. Fairclough (2003, p. 164), com base em Halliday (1994), destaca duas das categorias gramaticais para análise do significado de

Identificação19: a modalidade e a avaliação. Para o autor (ibid., p. 166), por meio da

categoria de modalidade, o escritor/falante constrói comprometimentos, atitudes, julgamentos, pontos de vista sobre o que enuncia. Já por meio da avaliação, o escritor/falante avalia o que enuncia a partir das perspectivas do que é desejável ou indesejável. Ambas as categorias são exploradas pelo autor para analisar a construção de identidades em eventos discursivos situados.

Ao considerarmos essas questões na análise do enunciado “Os alunos não são passivos diante do conhecimento.”, podemos fazer algumas considerações em termos de significados interpessoais: 1) o enunciado, conforme já mencionado, é uma proposição, ou seja, realiza uma troca de informação; 2) o modo da proposição é declarativo, o que produz um efeito de sentido diferente do interrogativo, por exemplo; 3) o enunciador constrói um alto comprometimento com sua proposição, uma vez que não emprega recursos explícitos de modalidade (poder, dever, ter de, precisar) ou advérbios (provavelmente, possivelmente, usualmente, às vezes), que poderiam relativizar seu comprometimento com aquilo que é dito; 4) a polaridade negativa, construída pelo advérbio de negação, também contribui para a construção de um enunciador cuja posição assumida parece ser a de autoridade em relação ao seu interlocutor. Considerando-se que a polaridade positiva é muito mais frequente do que a negativa (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 143), a escolha do enunciador pela polaridade negativa pode sugerir duas coisas: primeiro, uma contraposição a uma representação de alunos sobre a qual ele discorda; segundo, a construção de uma relação de autoridade em relação ao seu interlocutor, já que o enunciador é alguém capaz de contrapor-se a uma ideia pressuposta de modo categórico, apresentando-a como um fato.

Neste estudo, a metafunção interpessoal é explorada, principalmente, por meio do emprego de estratégias retóricas de reformulação, apresentadas na Subseção 1.2.3. Considerando o gênero reportagem didática na NEO, ao empregar estratégias de reformulação para didatizar informações sobre ensino e aprendizagem de inglês, o jornalista autor das reportagens necessariamente faz escolhas: 1) Que tipo de informação sobre ensino e aprendizagem de inglês merece ser reformulado tendo em vista a audiência pretendida (o professor-leitor)?; 2) Que informações são

19 Embora o significado de Identificação (FAIRCLOUGH, 2003, p. 27) não seja estritamente correlato à

metafunção interpessoal hallidayana, Fairclough (ibid.) relaciona-o com esta metafunção, juntamente com outro tipo de significado proposto pelo teórico (ibid.), o acional.

selecionadas para tornar a informação mais clara ou mais enfática?; 3) Que comentários merecem/devem ser feitos sobre essa informação? Ao realizar essas escolhas, o autor do texto tem em mente seu interlocutor, o professor-leitor das reportagens, com o qual deseja construir uma determinada relação. Nessa relação entre escritor e leitor, identidades e papéis sociais são construídos, os quais podem ser investigados com o auxílio de recursos léxico-gramaticais que realizam a metafunção interpessoal.

Por fim, relacionada à variável contextual Modo, a metafunção textual é responsável pela organização da textualização especialmente por meio do sistema temático (VIAN JR.; LOPES-LIMA, 2005, p. 30). Esse sistema é constituído, no nível da oração, pela estrutura Tema e Rema, segundo a qual um Tema figura em primeiro lugar na oração, consistindo no ponto de partida para a mensagem, sempre seguido de um Rema (GOUVEIA, 2009, p. 38). No nível do conteúdo, há um sistema paralelo e inter-relacionado ao primeiro, chamado de Estrutura da Informação, o qual envolve os componentes informação nova e informação dada (FUZER; CABRAL, 2010, p. 129). A oração, nesse sistema, é concebida como mensagem.

Retomamos o exemplo “Os alunos não são passivos diante do conhecimento” para tentar ilustrar, brevemente, a metafunção textual. Na proposição, o sintagma nominal “os alunos” figura, em nível de estrutura temática, como Tema da oração, isto é, ocupa a primeira posição na oração, indicando que é a partir dessa informação que a proposição vai se constituir. Já o restante da oração (“não são passivos diante do conhecimento”) figura como Rema. A metafunção textual é responsável pela organização dos demais significados, ideacional e interpessoal, em um todo coerente. Na próxima Seção, apresento a popularização da ciência enquanto um processo social.