3 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
3.6 AS METAS E O PNC 2010
O primeiro vínculo que procuramos foi aquele que seria possível estabelecer entre as 53 metas e as 36 estratégias apresentadas no PNC 2010, entre as quais se agrupavam as 275 ações concretas já examinadas em momento anterior. Com isso, buscávamos encontrar vínculos temáticos entre ambos os grupos: afinal, as metas constantes de uma política pública devem quantificar os objetivos em nome dos quais serão realizados
esforços convergentes, ainda que diversificados, e esses esforços – as ações do plano – deveriam estar traduzidos e sintetizados justamente pelas enunciações das estratégias. De acordo com nossa apuração, entre as 36 estratégias há um total de 8 cujos objetivos não são representados por qualquer uma das metas do PNC, como por exemplo, a estratégia 4.5, composta de 4 ações, que afirma ser necessário “promover a apropriação social das tecnologias da informação e da comunicação para ampliar o acesso à cultura digital e suas possibilidades de produção, difusão e fruição” ou a estratégia 5.5, que pretende “promover espaços permanentes de diálogo e fóruns de debate sobre a cultura, abertos à população e aos segmentos culturais, nas Casas Legislativas do Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas Estaduais, na Câmara Legislativa do Distrito Federal e nas Câmaras Municipais.”
Essas são estratégias que terminaram por não ser priorizadas a ponto de suas ações se constituírem em metas18, e é provável que essa situação reflita, de alguma forma, o jogo de forças do campo. Mas como dissemos anteriormente, nosso interesse não está nas propostas que ficaram pelo caminho e sim nas contribuições significativas que se tornaram definitivas. Além disso, as estratégias não contempladas no Caderno de Metas perfazem apenas 22,2% do total de estratégias, configurando-se aí uma minoria que, se não pode ser considerada inexpressiva, também não será determinante para uma aferição sobre o grau de coparticipação na elaboração desse PNC, na medida em que restam ainda 28 estratégias distribuídas pelos cinco Eixos Gerais, a respeito das quais poderemos prosseguir com nossas apurações.
Ao comparar essas 28 estratégias com as metas que lhes correspondem, apuramos que algumas destas podem ser consideradas a quantificação de ações específicas que constam no Plano –inclusive, têm redação idêntica, –, enquanto que outras metas não têm correspondência direta com ação alguma, mas correspondem, de modo geral, ao espírito das estratégias às quais as vinculamos. Alguns exemplos, para facilitar o entendimento:
a meta 7, que propõe “100% dos segmentos culturais com cadeias produtivas da economia criativa mapeadas”, pode ser interpretada, sem risco de erro, como derivada diretamente da ação 4.3.1, que pretende “mapear, fortalecer e articular as cadeias produtivas que formam a economia da cultura”;
a meta 50, “10% do Fundo Social do Pré-Sal para a cultura”, é simplesmente a cópia de uma proposta que, apesar de não ter feito parte do caderno de propostas prioritárias à época, aparece como proposta de número 131 da 2ª. CNC;
a meta nº 5, que busca implantar o Sistema Nacional de Patrimônio Cultural não aparece como ação proposta em nenhuma das versões do PNC, mas é uma meta para cuja implantação estão voltadas a maioria das estratégias e ações do PNC 2010.
Falaremos primeiramente sobre o grupo das metas que estão diretamente relacionadas com ações especificas constantes no Plano de 2010.
3.6.1 A metas derivadas de ações
São ao todo 34 metas, perfazendo 62,2% de todo o universo. Entre as ações que dão origem a essa metas, 19 foram diretamente propostas ou passaram por alterações nas quais houve a participação da sociedade civil. Não nos ocuparemos mais delas, portanto, já que nosso objetivo de verificar as contribuições significativas para sua existência foi alcançado de forma positiva.
Restam-nos 15 metas19 que representam ações sobre as quais não detectamos contribuições significativas, por parte da sociedade civil, na formulação constante no Plano de 2010. Entre essas metas, 10 são derivadas de ações propostas no Cultura para
Todos ou na 1ª. CNC ( metas 7, 9, 18, 32, 34, 43, 46, 48, 49 e 51) o que, de acordo com
o critérios que estabelecemos, as torna coparticipativas.
As outras cinco foram todas propostas pelos técnicos do MinC quando da elaboração do PNC 2007. Duas delas, as metas 9 e 20, de acordo com nossos critérios, foram referendadas pela sociedade civil ao constarem na lista de propostas aprovadas na 2ª. CNC. Faremos um breve comentário sobre as três que restaram.
A meta 26 é a do Vale-Cultura, um programa criado e proposto pelo MinC em 2007 e 2010, e que passou sem alteração pela Oficina Especial. No grupo de trabalho que cuidava do tema, houve a sugestão de sua extinção. Não fica claro, pela leitura do texto, se a sugestão foi ou não aprovada pelo grupo. Se não foi, nada a comentar. Se foi, deve-se assinalar que a sugestão não foi levada em conta, talvez pelo fato de que esse programa já havia sido lançado desde 200920. Estamos diante, portanto, de uma meta que pode ser considerada como do MinC.
A meta 27 é a que determina um aumento de 27% de participação dos filmes brasileiros na quantidade de bilhetes vendidos nas salas de cinema. Como proposta de ação que busca aumentar a participação do cinema nacional no mercado interno,
aparece no Plano de 2007 e somente ressurge, já como meta, na primeira versão do Caderno. No Plano de 2010 há uma estratégia (4.3) que fala de ampliar o alcance das indústrias culturais brasileiras, através da expansão e diversificação de sua capacidade produtiva, mas não aparece nada específico sobre cinema.
Há duas metas relacionadas com cinema no Caderno, o que parece refletir a força dessa indústria no campo da cultura no Brasil. Falaremos sobre a outra meta mais à frente, mas desde já adiantamos que as consideramos inexequíveis porque o Estado não tem condições de garantir que pode criar mecanismos que as tornem viáveis. A ementa da meta em questão, não diz uma palavra sequer sobre o assunto. O que o Governo pode garantir é a criação de programas de incentivo ao espectador, por meio da redução de preços de ingressos, ou o apoio à produção e circulação do produto nacional. Mas eventuais sucessos de medidas dessa natureza poderiam responder pelo crescimento da bilheteria do cinema nacional como um todo? Não acreditamos nisso.
A Meta 42 é a que pretende formular uma política para acesso a equipamentos tecnológicos sem similares nacionais. Também aparece como proposta de ação nas versões de 2007 e 2010 do PNC, mas é esquecida na primeira versão do Caderno de Metas e somente se torna meta a partir de sugestão da Oficina Especial. Dessa maneira, de acordo com os critérios estabelecidos, mesmo levando em consideração a ideia que desenvolvemos anteriormente, a de que as alterações na Oficina não seriam consideradas determinantes para nossa pesquisa, não podemos deixar de considerar que seus grupos de trabalho eram compostos por representantes de vários setores da sociedade e também que, ainda que a meta tenha sido elaborada por técnicos do MinC nas versões do PNC, não seria correto afirmar que essa é uma meta exclusiva do Ministério.
O que parece claro é que o ressurgimento dessa proposta no grupo de trabalho da Oficina Especial deveu-se a agentes da cultura que, sendo ou não funcionários do MinC, representavam um grupo bastante específico, cuja atividade depende da constante aquisição de tecnologia de ponta, e que esse grupo teve força para fazer com que sua demanda fosse atendida.
Analisaremos agora as metas que se vinculam às estratégias do Plano de 2010, mas que não têm qualquer ação que lhes seja referente.
3.6.2 As metas derivadas das estratégias
Este grupo é composto de um total de 18 metas, treze das quais têm sua origem no
Cultura para Todos ou na 1ª. CNC21 o que, de acordo com nossa lógica, as excluem do nosso campo de interesse. Portanto, restam-nos cinco metas sobre as quais teceremos nossos comentários.
Sobre a meta 6, já fizemos os principais comentários em seção anterior. De acordo com sua própria ementa, “esta meta está diretamente atrelada à cartografia da diversidade das expressões culturais, cuja alimentação deve ser contínua, e à implantação do Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais ﴾SNIIC﴿, que permitirá a obtenção e a sistematização desses dados.” Ou seja, é uma meta que só pode se realizar na medida em que outras duas se realizem. Pelo que pudemos apurar de todo o processo de elaboração do PNC, essa meta corresponde plenamente a demandas expressas durante o processo, mas precisamos reconhecer que ela foi elaborada exclusivamente pelo MinC na primeira versão do Caderno, e que chegou à versão definitiva sem qualquer interferência.
A meta 8 é a que propugna o reconhecimento, por parte do MinC, de 110 territórios criativos por meio de um selo de certificação. Não conseguimos encontrar. em qualquer dos documentos pesquisados, nenhuma proposta semelhante até que essa meta surgisse na primeira versão do Caderno. Uma vez que ela não sofreu qualquer interferência significativa durante a Oficina, a não ser uma pequena mudança na redação do texto, podemos afirmar que essa meta chegou à versão final do Caderno sem o carimbo da participação social, embora a ideia de cidade, bairro, território criativo, despontasse como assunto da moda no campo da cultura à época da elaboração do Plano.
A meta 10 propõe um aumento de 15% no impacto da cultura no turismo nacional e seu conteúdo também já foi suficientemente comentado. Basta apenas que ressaltemos, mais uma vez, que seu cumprimento vai muito além das possibilidades de intervenção do Estado e que, por ser essa uma meta surgida durante os trabalhos da Oficina Especial, não podemos atribuir-lhe o rótulo de meta do MinC.
A meta 11 prevê um aumento de 95% do emprego formal no setor cultural. Esta é, claramente, uma meta pensada pelos técnicos do Ministério, que somente apareceu na primeira versão do Caderno. Obviamente, a formalização do mercado de trabalho do setor cultural é uma demanda das mais importantes dos agentes do campo, sendo,
inclusive condição básica para sua expansão. É certo também que o PNC está recheado de estratégias e ações que preveem a formação e a qualificação dos trabalhadores da cultura, mas a verdade é que não encontramos, em qualquer dos eventos pesquisados, ações concretas que buscassem a formalização desse mercado de trabalho.
O MinC poderia cumprir essa meta apenas na medida em que viesse a contribuir com ações para a formalização de trabalhadores em atividade, mas não tem como impulsionar o surgimento de novos empregos formais a não ser nos limites de sua administração.
Finalmente, a meta 21, que prevê o lançamento de 150 filmes brasileiros de longa- metragem, por ano, a serem exibidos em salas de cinema, à qual nos referimos há pouco quando comentamos a meta que prevê 27% de aumento na bilheteria para filmes brasileiros. Como já afirmamos em relação a esta última, a meta dos 150 filmes nos parece também muito pouco passível de aferição, a não ser que o MinC produza ou patrocine diretamente esses filmes.