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AS MODALIDADES DE CRENÇA RELIGIOSA SEGUNDO

AS MODALIDADES DE CRENÇA RELIGIOSA SEGUNDO J. B. PRATT

"Com respeito às grandes questões da vida, o homem sábio segue seu coração e não confia em sua cabeça. Este deveria ser o método de todo homem,

não importando quão poderoso seja seu intelecto."

C. S. Peirce

Sem menosprezar as proposições voltadas para o saber, a filosofia de James Bisset Pratt

propõe-se a ir além, apontando a subjacente questão do saber-se. Mesmo que com um

instrumental ainda tosco em termos de aparato lingüístico, o filósofo americano também

entende que a consciência implica referência "transcendente" ou "intencional" a objetos que

não são imediatamente por ela apreendidos. Desenvolvendo uma concepção filosófica que ele

mesmo intitulou de "realismo pessoal", aproxima-se de Descartes por admitir a dualidade da

natureza. Mas distancia-se do mesmo por não admitir uma consciência pura, desvinculada do

corpo e do mundo - sua opção é por uma relação interativa entre "matéria" e "espírito". Tal

como Peirce - sem dúvida o maior filósofo americano - o fez em relação à semiótica, Pratt

desenvolve uma concepção triádica em relação à natureza da crença, cujas raízes

fundamentais seriam encontradas no que ele chamou de "fundo de sentimento vital" (Pratt,

1907). Aproxima-se da fenomenologia, de Husserl e Merleau-Ponty, na medida em que sua

proposta filosófica visa superar o hiato entre a consciência e o mundo. Nesse sentido, busca

também reintegrar o conhecimento - ou a crença intelectual - ao conjunto de atividades

especificamente humanas, em cuja base situa-se o vivido - a experiência fundamental em

causa.

Pratt nasceu em Elmira, Nova Iorque, em 1875 e morreu em Williamstown, em l944.

Estudou na Universidade de Harvard e em Amherst, tendo doutorado-se em Filosofia em

l905. Sua carreira docente foi iniciada no William College (Harvard), onde, em 1913, foi

nomeado professor ordinário de Filosofia.

Segundo Martins, autor do verbete Pratt na Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia -

Logos (1992), o filósofo americano

"Interpreta os "dados" da consciência como "existências mentais" e não como "essências". Assim, desenvolve uma metafísica dualista de tipo personalista, que ele próprio definiu como um

"realismo pessoal", desenvolvida nas suas últimas obras: Matter and Spirit, Personal Realism e

Naturalism. A experiência da transcendência caracteriza não só a consciência, mas também a

moralidade; torna irredutível a realidade mental à física e leva-nos logicamente a pôr o problema da relação alma-corpo. P. opta por uma relação de interacção." (op. cit., p. 400).

As principais obras de Pratt foram: Psychology of Religious Belief, Nova Iorque, l907;

ibid., 1920; Personal Realism, ibid., 1927; Naturalism, ibid., 1938; Why religions die?,

Berkeley, l940.

E é exatamente na primeira obra relacionada acima - Psychology of Religous Belief -

que o filósofo apresenta os pressupostos que fundamentaram a elaboração do seu instrumento

"Questionário Pratt sobre Crença Religiosa", com o qual pretendeu investigar "quais são as

verdadeiros fundamentos sobre os quais a crença se apóia" (Pratt, 1907, p. 231). E em sua

outra obra - The religious consciousness (Pratt, 1920), dedicada ao mesmo assunto,

desejando fazer justiça a ambas - à ciência e à religião, propõe-se a deixar de lado a sua

própria teoria acerca da filosofia da religião, esforçando-se por descrever a consciência

religiosa tal como esta se mostra na experiência e respectivas vicissitudes empiricamente

encontradas.

3.1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS/FILOSÓFICOS

Em princípio, Pratt (1907) admite a classificação dual, alinhando-se com a divisão

aristotélica da mente em pensamento e desejo, duas grandes instâncias da consciência:

"Uma delas consiste nos elementos da consciência que são definidos, descritíveis e comunicáveis; o racional, o cognitivo, o representativo; o material, que pode tornar-se público por meio de uma descrição científica e exata. A outra é feita do indefinido, do indescritível, da massa de experiências subjetivas peculiarmente particular que, por sua própria natureza, não é suscetível à comunicação e que, para ser descrita com exatidão deve ser desconstruida, de forma a perder sua qualidade característica e deixar de ser o que a nada se refere a não ser a si mesmo, sem referência exterior, que não finge ser representativo e que sustenta a si mesmo sozinho." (l907, pp. 7-8)

Segundo o filósofo, a primeira grande classe, a racional ou cognitiva, se reparte,

naturalmente, em duas subdivisões, quais sejam: a ideação e a experiência sensorial. Quanto à

segunda grande classe - a massa de experiências subjetivas, embora menos facilmente

divisível analiticamente, pode-se nela distinguir, ao menos idealmente, dois tipos de material

psíquico: "o sentimento e o que é conhecido como o fenômeno do "background" (pano de

fundo, cenário)" (Pratt, 1907, p. 9). As coisas que estão nesse pano de fundo são privadas,

mas caso se fixe a atenção nelas, podem tornar-se comunicáveis. Mas, estas mesmas coisas,

"ainda enquanto na região marginal e ainda enquanto não percebidas e não conhecidas, elas

têm um efeito sobre o tom geral de nossa consciência, elas colorem nossa vida - e isto não

num sentido intelectual, mas afetivo" (op. cit. p. 10). A este pano de fundo, pertencem

também

"as margens de nossas idéias mais claras; "sentimentos de tendência"; os sentidos vagos que não chegam ainda a ser sentidos (sentidos = significados, o que se quer dizer) e que não são nem idéias nem sentimentos; os fatos da atividade mental subconsciente que não podem ser negados - em suma, toda a rica massa heterogênea de material psíquico, subjetivo que rodeia o ponto focal claramente iluminado da consciência e que devido à sua natureza indefinida não é suscetível de descrição científica." (p. 10).

Assim, tomando uma idéia de Hölfding, que define o sentimento como "aquilo em

nossos estados interiores que não pode, de maneira nenhuma, tornar-se elemento de uma

percepção ou de uma imagem" (p. 13) por ser "uma iluminação interior que cai na corrente de

sensações e idéias" (p.13), Pratt (1907) relaciona o sentimento ao fenômeno não racional e

indescritível do background (pano de fundo), diferenciando-o, portanto, das sensações e das

idéias, que são objetiváveis e descritas.

Pratt (1907) ocupa-se em descrever as características da segunda divisão de sua

classificação, na medida em que a primeira já estava, desde antes, bastante descrita em todos

os livros e textos de Psicologia. Uma característica fundamental deste fundo sentimental seria

exatamente a sua íntima e direta relação com a vida do organismo:

"A sensação e a ideação remetem-nos ao mundo exterior retirado de nós pelo espaço e o tempo; a massa sentimental de que eu falo está indissoluvelmente conectada com nossas funções vitais. Tanto o quanto nós somos conscientes destas funções todas, aquela consciência pertence

principalmente à vida afetiva. "Coencesthesia" - como o termo alemão Gemeingefühl implica - é

um caso de sentimento, num sentido amplo. Os ritmos conscientes dos processos corpóreos - especialmente os que indicam condições de saúde ou doença - são somados neste sentimento

marginal comum. Em suma, podemos dizer que a ideação é a consciência de um homem

enquanto ser racional; seu fundo sentimental/afetivo é sua consciência de organismo vivo. É

isto que está em conexão com nossas necessidades vitais.29 Os desejos instintivos e os impulsos

têm suas raízes lá, e de lá se nutrem; as reações inatas ao meio, enquanto conscientes, as antipatias e as tendências congênitas, nosso amor e ódio mais profundos - tudo são partes deste "fundo" e crescem a partir dele. De fato, tão inextricavelmente ligado está ele à vida e tudo o que

ela significa que bem poderia ser chamado de fundo vital. " (pp. 14-15).

Partindo da idéia de que o "fundo de sentimento vital" seria a forma primária de

consciência, Pratt (1907) acredita que todas as formas inferiores de vida teriam pouco além

disso, já que "a ideação parece exclusiva dos vertebrados superiores e a sensação decresce em

variedade e definição quanto mais baixo descemos na escala da consciência" (p. 15). Afirma,

portanto, que:

"A consciência não é construída das sensações já prontas oriundas do mundo exterior; pelo contrário, da massa comparativamente homogênea do fundo sentimental, certas pulsões/impulsos da vida psíquica, mais proeminentes que o resto, tornam-se mais definidas, mais distintas, e, por um processo natural, evoluem em sensações. O mesmo é verdade para as diferenciações de idéias. O processo parece análogo àquele da evolução biológica, e pode ser muito bem descrito pela definição de Spencer : "um progresso desde a homogeneidade incoerente e indefinida até uma heterogeneidade coerente e definida, através de sucessivas diferenciações e integrações."" (p. 17).

O filósofo americano entende que uma parte que do que pertencia originalmene, na

criança e no molusco, à massa de sentimento ("feeling mass") se desenvolveu, no ser humano

adulto, em percepção sensorial nítida e em pensamento. Mas, uma grande parte da

consciência humana mais desenvolvida reteria ainda o seu caráter primitivo, rico e

indiferenciado.

"A mente lógica e ordeira do lógico "mais seco", que pensa em conceitos abstratos e raciocina sobre silogismos fixos na figura de 'Bárbara', ainda conta com uma grande massa de "franja", e "margem", e "pano de fundo". A máquina lógica humana é uma invenção da imaginação e mesmo o mais abstrato dos pensadores tem sempre mais da "confusão estrepitosa" no fundo de sua mente do que ele gostaria de admitir. Feliz dele que seja assim, pois que sem ela ele estaria privado de uma das mais fecundas fontes de idéias com que o homem é abençoado. O pensamento emergindo do fundo de sentimento é uma experiência comum a todos. Quem nunca escutou um argumento e 'sentiu' sua falácia bem antes de poder apontar seu ponto fraco? Quem nunca procurou por um nome e ficou com ele na "ponta da língua", capturando um sentido vago

antes de poder realizar sua forma ideal? E não apenas é nossa Weltanschauung determinada tanto

pela vida afetiva quanto por argumentos biológicos, mas muitos de nossos pensamentos mais inclusivos e importantes, e mesmo sistemas de pensamento, desde sua própria acepção, vêm a nós num redemoinho, vago e indeterminado primeiro, que depois é trabalhado e formulado claramente. A forma lógica é geralmente o último produto - a idéia germina no fundo de sentimento e cresce para fora deste. Provavelmente, a maioria dos filósofos - certamente muito deles - sentiram seus pensamentos muito antes de poderem expressá-los." (pp. 18 e 19).

Pratt (1907) recorre à Lei de Leibnitz , para compreender e explicar a vida psíquica

inteira como sendo caracterizada por variáveis graus de diferenciação e faz referências aos

estudos experimentais de sua época (Jastrow, Dunlop, Stratton e outros), que evidenciaram a

influência do subliminal sobre o julgamento, demonstrando que o fundo de sentimento não

cessa na linha zero, mas continua numa região não mais acessível pela consciência.

"Assim, as regiões objetivas, descritíveis e comunicáveis da consciência, da ideação e da sensação, podem ser consideradas duas pequenas ilhas banhadas num mar de sentimento vital. Este mar, em toda sua extensão, parece estar em constante turbulência e sempre arremessando toda espécie de coisa nas praias da consciência. Emoções estão constantemente indo e vindo, sugerindo um número infinito de idéias e ações; sensações normalmente subliminais, ou quase, repentinamente se tornam claramente discriminadas; idéias estouram em nossas mentes sem nenhuma conexão com a esteira do pensamento em curso; a solução de um problema surge sem que venha junto o argumento que a apontou; o curso de uma ação que já encontramos determinado, correto, mas aparentemente não baseado na razão; intuições de todos os tipos são arremessados do pano de fundo escuro; o jovem subitamente descobre que está apaixonado e que tem estado assim já há algum tempo sem sabê-lo; o poeta encontra o poema já semi-escrito antes de pensar em escrevê-lo. Este caráter espontâneo do fundo vital não raro dá às suas contribuições um senso de estranheza, um sentimento de que eles devem ter vindo de outra fonte que não nós mesmos." (pp. 21-22).

O autor desenvolve, então, a idéia de que, por meio dessa massa de sentimento vital

não-racional, o ser humano estaria ligado com seu próprio passado, com seus ancestrais e à

própria raça e, até, num certo sentido, a todas as outras coisas vivas. E embora deixe claro que

não está propondo ou afirmando que esta massa de sentimento seja qualquer espécie de

sabedoria miraculosa do tipo telepática, reclama para ela "a posse do que poderia se chamar

de sabedoria racial ou instintiva, que parece pô-la em contato, de uma maneria perfeitamente

natural, com forças escondidas da personalidade claramente consciente, as quais a fazem, de

muitos modos, mais sábia que a sabedoria individual." (op. cit., p. 23). Esta massa de

sentimentos estaria em contato com um meio mais amplo do que, simplesmente, a capacidade

de raciocínio, e manteria o ser humano em contato não apenas com o que está ausente no

espaço, mas também com o passado distante e, mesmo, com o futuro, num certo sentido.

"Em suma, a massa de sentimento é mais larga e mais profunda que os outros

departamentos da vida psíquica, e mais estreitamente relacionada com o self. Uma mudança nela

significa uma mudança de personalidade. Sensações e idéias têm uma natureza comunicável e universal; este resíduo não racional é peculiarmente privado e individual. É o determinante do caráter - num sentido é a própria personalidade e o próprio caráter. De lá a atividade prática retira a maior parte de sua energia e direcionamento. Por outro lado, embora de uma maneira peculiarmente individual em comparação com as idéias e as sensações, aquele resíduo parece, noutro sentido, mais universal que aquelas idéias e sensações, pois ele é ilimitado e parece se estender além de quaisquer fronteiras que possamos demarcar, e de ser sensível a influências para as quais nossa parte mais claramente consciente está inteiramente indiferente." (pp. 25-26).

* * *

Registra-se, nas proposições filosóficas de Pratt (1907), resumidas acima, um exercício

de superação das tradicionais dicotomias corpo-mente, matéria-espírito, afeto-cognição,

sensibilidade-lógica. As noções propostas remetem à uma solução de continuidade,

considerando-se que ambas têm um fundamento comum e processualmente complementar.

Tal como Peirce (1931-35/1974), afirma uma razão pré-existente à qualquer lógica, a

qualquer conhecimento. Esta não se manifestaria de forma imediata, mas, na maioria das

vezes, passaria por sucessivos processos de diferenciações e integrações, até emergir à

consciência sob forma de proposições racionais, as mais diversas. Há, portanto, nas

concepções de Pratt (1907), um sério esforço epistemológico de considerar a vida mental

como sendo bem maior do que a razão discursiva, mas sem render-se, por isso, ao

irracionalismo. Pode-se tomar emprestado de Oliveira (1991), referindo-se ao confronto

razão-afetividade em Léwy-Bruhl, a expressão "salto mortal da razão", para referir-se também

ao modo bastante particular com que o filósofo americano J. B. Pratt, já no início do século

XX, buscava superar o "velho racionalismo", tal como procurou fazer também a

fenomenologia de Husserl e Merleau-Ponty: confrontada ao seu pólo anterior e subjacente,

qual seja o sentir, a razão sai mais fortalecida.

Os esforços epistemológicos empreendidos pelo fisósofo americano e respectivos

direcionamentos apontados, em alguns aspectos, aproximam-se daqueles realizados por Freud

e Jung. De um lado, o seu conceito de "fundo de sentimento vital" remete à noção de

inconsciente, o qual busca a restituição de sua continuidade a todo momento, transitando entre

as brechas da consciência. Conforme apontam as reflexões de Ghesti (2000), ao buscar

articular o campo da primeiridade, descrito por Peirce (1931-35/1995), com a questão do

inconsciente na linguagem, a lógica deste último "se forma em continuidade ao mundo

orgânico, considerando-se o aparato biológico que lhe serve de substrato" (p. 110). Ou seja,

na sua definição de pulsão (Triebe), Freud (1915/1974) também tentou mostrar alguma

continuidade entre o homem e os demais seres vivos, num esforço de compreender a interação

entre o biológico e o simbólico. De outro lado, a mesma noção de "fundo de sentimento

vital", tal como definida por Pratt (1907), especialmente ao referir-se à sua relação com a

ancestralidade e à própria raça, remete à concepção junguiana de "inconsciente coletivo" e

respectivos conteúdos arquetípicos. Algum tempo depois de Pratt (1907), ao elaborar seu

conceito de evolução humana, Jung(1928/1956), com o seu conceito de ancestralidade,

toma-na como um processo que se estende desde um nível filogenético, mas que se ditoma-namiza

fundamentalmente nos processos mentais, sendo tal evolução, portanto, simultaneamente, de

natureza histórica e individual. Interpretando o referido texto de Jung, Mourão (1997)

refere-se ao percurso encontrado na relação instinto/espírito, entendendo este último como uma

"tendência progressiva de acumulação de processos mentais transmitidos cultural e

fisiologicamente, luz que se impõe na escuridão instintiva." (p.39). Tal polaridade, também

traduzida como ancestralidade X individuação, e sua respectivas articulações psidodinâmicas

seriam específicas para cada indivíduo, caracterizando o desenvolvimento de sua própria

personalidade. Há, portanto, aí também uma "postura epistemológica de tentar compreender

uma dimensão mais obscura, porém mais totalizante, enquanto explicação lógica dos

fenômenos psíquicos" (Mourão, 1997, p. 41), cujo esforço de compreensão levou Jung a

empregar o arquétipo da energia.

Embora Pratt (1907) cite um mecanicista como Spencer, em relação à sua perspectiva

da personalidade humana, pode-se afirmar, tal como o faz Santaella (1983/2001) em relação à

Peirce, que ele também era um evolucionista de tipo bastante especial, não se enquadrando

no mecanicismo e nem no materialismo. Assim, pode-se dizer que tanto para Pratt, ao

intitular-se como um filósofo realista de tipo personalista (Martins, 1989/1999), como para

Peirce, ao se autodenominar um "idealista objetivo" (Santaella, p. 25), "materialismo sem

idealismo é cego: idealismo sem materialismo é vazio." Isto está também plenamente de

acordo com o que afirma Husserl (1950/2000b) acerca do idealismo fenomenológico, que não

nega a verdadeira existência do mundo real (real), mas, justamente por uma razão de método,

fixa-se na realidade enquanto concebida (reell), principiando pelo mais primordial - o mundo

da vida.

Tal como Peirce (1931-35/1974a), Pratt (1907) qualifica a intuição em seu sentido

fenomenológico, e não em seu sentido cartesiano, reconhecendo que, mesmo a mente mais

ordeira do lógico conta também com grande massa de "franja", e "margem", e "pano de

fundo". Textualmente, o filósofo afirma:

"A forma lógica é geralmente o último produto - a idéia germina no fundo de sentimento e cresce para fora deste. Provavelmente, a maioria dos filósofos - certamente muitos deles - sentiram seus pensamentos muito antes de poderem expressá-los." (Pratt, 1907, p. 19)

Ao citar e concordar com Starbuck

30

: "A condição por trás da descoberta é uma

sensação, um feeling de harmonia entre os fenômenos, o ajuste ou desajuste entre a

consciência e seus objetos" (p. 19), Pratt (1907) está de acordo com a concepção expressa

em Peirce de que "o pensamento não prescinde do mundo real, das qualidades de sensação

que o veiculam" (Ghesti, 2000, p. 32), qualificando o sentimento no âmbito da primeiridade,

que é distinto da percepção objetiva, da vontade e do pensamento.

"São os instintos, os sentimentos, que fazem a substância da alma. Cognição é apenas sua

superfície, seu locus de contato com o que é externo a ela." (Peirce, 1931-35/1974a, p. 345) (...)

"... a lógica formal (...) demonstra de forma claríssima que a própria razão testifica sua

subordinação ao sentimento." (Peirce, 1931-35/1974a

,

361)

Esta idéia de uma razão pré-reflexiva subjacente a qualquer lógica formal está também

presente em Merleau-Ponty (1945/1999). Em sua obra "Fenomenologia da Percepção", o

filósofo procura justamente mostrar como que, na percepção, a infraestrutura instintiva e as

superestruturas dadas pelo exercício da inteligência, simultaneamente, se estabelecem sobre

ela, afirmando que

"O sentir é esta comunicação vital com o mundo que o torna presente para nós como lugar familiar de nossa vida. É a ele que o objeto percebido e o sujeito que percebe devem sua espessura. Ele é o tecido intencional que o esforço de conhecimento procurará decompor. " (p. 84).

Enfim, o fenomenólogo da experiência perceptiva desenvolve a idéia de que a

compreensão da percepção e das atividades intelectivas - como o conhecimento, por exemplo,

dar-se-ia a partir da exploração de um domínio pré-objetivo, onde as sensações e as imagens

só aparecem num horizonte de sentido. O sentir, que sempre comporta uma referência ao

corpo próprio, deve ser qualificado em seu estado nascente, como fonte inesgotável e garantia

de todo e qualquer sentido lógico e objetivado.

3.2. AS MODALIDADES DE CRENÇA RELIGIOSA

No segundo capítulo de sua obra Psychology of Religious Belief, Pratt (1907) aborda a

questão da crença religiosa, mas faz questão de chamar a atenção, desde o início, para o fato

de que a vida e o mundo real da experiência imediata é muito diferente de qualquer narrativa

sobre ela, na medida em que a realidade “resiste à dissecação e se recusa a enquadrar-se sob

qualquer esquema de gavetinhas arrumadinhas” (p. 30). Entende que

"... uma descrição que fosse perfeitamente verdadeira - no sentido de não exagerar e distorcer nada, nem nada deixar de fora, simplesmente nos remeteria de volta à própria vida, sem