MODALIDADES DO CONTRATO DE TRABALHO E RELAÇÕES
2. As modalidades do contrato de trabalho no Código do Trabalho
O CT de 2009 — Lei 7/2009, de 12 de Fevereiro — reconheceu pela primeira vez na história do ordenamento jurídico-laboral modalida- des do contrato de trabalho, concedendo-lhe centralidade e, como vimos, um logos sistémico190. Circunstância que em muito contribuiu para que o 188 silVestre sousa, Estatuto Profissional dos Trabalhadores Portuários – Evolução e
Especialidades do Respectivo Regime, Coimbra Editora, Coimbra, 1997, p. 17, ss.
189 Para a discrepância com a noção do art 1152.º do CC, cfr., nosso, “Código
novo ou código revisto?”, cit., p. 150, s.
190 Formas de “precarização ope legis”, no entender do “Relatório Supiot”, alain
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CT de 2009 pudesse ser havido como um código de lineamento distinto do seu predecessor, o CT de 2003.
Percorrendo as modalidades trazidas para a Secção IX do capítulo reportado às disposições gerais do contrato de trabalho, logo divisamos a sua linhagem de relações atípicas de emprego. Contrato a termo, traba- lho a tempo parcial, trabalho intermitente, comissão de serviço, teletraba- lho e trabalho temporário nasceram pela criação da autonomia privada, da autonomia colectiva ou até pelo efeito mimético da legislação comparada (trabalho intermitente) e cresceram percebidas como formas alternativas, diferenciadas ou divergentes do modelo ideal de prestação da actividade subordinada, mantendo até hoje essa conotação, não obstante o estatuto normativo que alcançaram.
Que significado formal e substantivo pode, então, ter o seu assento na lei geral do trabalho?
Como resulta da análise das repercussões das relações atípicas de emprego no direito positivo, a consequência mais imediata da inclusão destas modalidades no CT foi a alteração cartográfica que introduziram no sistema jurídico-laboral, desmantelando o tonus monista que o enformava e desdobrando o seu núcleo polarizador.
Todavia, outros efeitos estruturais derivados são conseguidos por esta incorporação, a começar pela função “legitimadora” que o reconhecimento pela instância legislativa representa. A atipicidade empírica da relação sai mitigada, quando não mesmo regenerada, pelo facto de poder guindar-se a modelo alternativo à relação de trabalho prototípica.
Por último, não pode deixar de se referir a revisão de sentido que ao princípio da estabilidade dos vínculos laborais é conferido pelo art. 53º da CRP. Na quase-paridade normativa alcançada na lei ordinária, esbate-se a excepcionalidade e a segurança no emprego torna-se também ela mais branda e acomodatícia a uma “rigidez flexível”191.
Estas considerações não fazem esquecer, no entanto, que nem todas as modalidades do contrato de trabalho se concentram na Secção respec- tiva. Com efeito, à semelhança do que sempre sucedeu, há modalidades nominadas do contrato de trabalho dispersas pela legislação extravagante relativa aos contratos com regime especial e, inclusive, em outras paragens sistemáticas do Código.
O elenco da secção privativa reúne, por conseguinte tão só as mo- dalidades principais, os tipos correntes de maior projecção dogmática e aplicação comum, mas não esgota os especímenes possíveis. Apesar da in-
191 Expressão emprestada de aris aCCornero, ob.cit., p. 208, com acepção dis-
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serção, não perdem a natureza de modalidades a cedência ocasional de trabalhadores, correctamente havida e tratada como vicissitude da relação laboral, ou a pluralidade de empregadores, vínculo sujeito a regime quase- -especial previsto no CT — art. 101º —, na Secção respeitante ao em- pregador e à empresa. Do mesmo modo, é inquestionável que o art 9º do regime jurídico dos profissionais de espectáculos — Lei 4/2008, de 7 de Fevereiro — consagra uma modalidade de contrato de trabalho: a plurali- dade de trabalhadores192. Numa fórmula concisa, podemos pois concluir que a inserção sistemática é em termos classificatórios neutra e descartável.
Ainda no plano da fixidez identitária, cumpre estabelecer o carácter típico e nominado dos contratos que compõem as modalidades lavradas no CT, seja ou não na divisão sistemática correspondente. Da mesma for- ma, a maior parte das modalidades esparsas também procede de vínculos contratuais típicos e nominados, como acabamos de conferir a propósito da pluralidade de trabalhadores, no regime jurídico do trabalho dos profis- sionais de espectáculos. Esta realidade conduz-nos assim a nível semântico a uma proposição sincrética: as relações atípicas de emprego afeiçoadas em modalidades de contrato de trabalho resultam de vínculos negociais típicos
stricto sensu.
192 Não se trata, contudo, de um trabalho de grupo. Enquanto no trabalho de
grupo há um único contrato, com uma pluralidade de prestações complementares ou sucedâneas, na pluralidade de trabalhadores há um feixe de contratos com o mesmo objecto, conteúdo e duração, mas com prestações independentes. No primeiro caso, teremos uma soma ou um “negócio unitário subjectivamente complexo”, na classifica- ção de eMílio Betti, Teoria Geral do Negócio Jurídico, II, 2ª ed., trad. port., Coimbra Edi-
tora, Coimbra, 1970, p. 188-189, enquanto na pluralidade, temos uma justaposição, na qual cada um dos contratos de trabalho integrantes produz os efeitos jurídicos que lhe são inerentes. A Lei Geral do Trabalho de Angola, Lei 2/00, de 11 de Fevereiro, no seu art. 23º contempla o “contrato de grupo”, segundo o qual “se um empregador celebrar um contrato com um grupo de trabalhadores, considerando na sua totalidade, não assume a qualidade de empregador a cada um dos seus membros, mas apenas em relação ao chefe de grupo”, acrescentando
o n. 2, que “o chefe de grupo assume a representação dos membros deste nas relações com a empresa, respondendo pelas obrigações inerentes à mencionada representação e à qualidade de empregador em relação aos membros do grupo”. Não obstante, a designação contratual, a função do chefe