ENTRE A MORADA E A CIDADE.
1.3. As Moradias na Cidade, seus tipos e usos.
Que tipos de habitações existiam em Belém em meados do século XIX? Como estava disposto o tecido urbano da cidade a partir das duas habitações? Esta tarefa de analisar a cidade a partir da disposição de suas construções se apresenta como uma das etapas não menos simples, pois as notícias que possuímos nos permitem apenas indicar à descrição de uma casa, às vezes fazendo referências a vizinha imediata, a rua onde se localizava o imóvel. Estas informações nos possibilitam imaginar apenas parcialmente a imagem da cidade e de suas casas. Neste item procurando aprofundar a reflexão da interação entre a estrutura urbana da cidade e suas moradias, nos votaremos para análise dos aspectos externos das casas e os possíveis fins a que se prestavam na cidade. Para executar tal caminho, nos apoiaremos nos relatos de viajantes, narrativas dos cronistas, notícias de jornais e fontes cartoriais, assim como relacionar com as determinações institucionais que vigoraram na província do Pará entre 1800 e 1850.
Podemos indicar que em Belém existiam na primeira metade do século XIX várias edificações que se destacavam no cenário urbano da cidade, entre estes estavam os prédios das Igrejas, as edificações onde funcionavam os órgãos públicos pertencentes ao governo, as casas comerciais que na maioria das vezes possuíam funções mistas, pois, no mesmo local onde funcionava atividades comerciais ou de serviços se utilizava para a residência, as casas de aluguel, classificadas como quarto de casas, as casas de moradas com funções de residência familiar e as rocinhas. Embora estes não sejam os únicos tipos de habitações que tenham existido neste período em Belém, elegemos estes, pois foram os mais recorrentes na documentação que consultamos.
Nas ruas centrais da cidade predominavam um significativo número de prédios que se destacavam, muitas vezes pela imponência da sua arquitetura, neste conjunto estavam as edificações pertencentes à Igreja católica e os mais importantes prédios públicos do governo. Os relatos dos viajantes captaram esta disposição dos prédios na cidade, os naturalistas germânicos Spix e Martius avistaram do mar perto da margem e que se no meio de filas de
casas, a Praça do Comércio e a Alfândega, atrás da qual as duas torres da Igreja das Mercês. Mais dentro, eleva-se a cúpula da Igreja de Santa Ana, e na parte norte, termina a vista do Convento dos Capuchinhos, e de Santo Antonio, na parte do extremo sul, o olhar repousa no Castelo e no Hospital militar, a que se juntam o Seminário Episcopal e a Catedral, esta com duas torres. Mais para o interior das terras, destaca-se o palácio do
Governo208. Esta descrição feita em 1820 quando estiveram estes naturalistas em Belém, demonstra que os prédios de maior destaque arquitetônico, se encontravam nas áreas mais próximas da faixa litorânea, que facilmente era avistada do rio, eram os prédios eclesiásticos e aqueles que possuíam funções públicas. Embora não seja o nosso objeto de análise, merecem ser destacados na medida em que a paisagem urbana da cidade não se completa sem estes edifícios.
O que nos interessa destacar, aproximando melhor o foco de percepção, são as narrativas sobre as moradias pertencentes às famílias e que possuíam finalidades domésticas, para isso nos deteremos em analisar os quatro últimos tipos de habitações urbanas de Belém que destacamos, qual seja as moradas mistas, aquelas destinadas a locação, as casas de morada e as rocinhas.
Casas de aluguel: mercado “rentista” de imóveis urbanos em Belém.
A Rua da Praia209, a Rua dos Mercadores210, a Rua do Açougue211 e da Indústria, a Travessa das Gaivotas212, a Travessa das Mercês213 e a Travessa dos Passinhos214, estas, entre outras vias centrais da cidade eram margeadas por várias casas de comércio. Alfred Wallace ao percorrer as ruas de Belém em 1848 registrou que a artéria principal (da cidade) é a Rua
dos Mercadores onde se encontram quase todas as boas lojas da cidade. Segue, ainda a sua consideração a respeitos das edificações desta via, as casas, na sua maioria, só tem um
pavimento, e as lojas, como todas as suas portas abertas na frente, são conservadas limpas e esmeradamente arrumadas, tendo de preferência um variado sortimento de mercadorias215.
Esta imagem do comércio da cidade se deve ao fato de que ao chegar a Belém junto com Bates, os naturalistas foram ao comércio da cidade, onde foram apresentados aos ingleses e
americanos que ali residiam, os quais são em pequeno número, mas dedicando-se todos ao comércio216.
208 SPIX , e MARTIUS. op. cit.
209 A Rua da Praia é atualmente a Rua 15 de novembro.
210 A Rua dos Mercadores é hoje a Rua Conselheiro João Alfredo. 211 A Rua do Açougue e da Indústria é atualmente a Gaspar Viana. 212 A Travessa das Gaivotas é a Travessa 1º de Março.
213 A Travessa das Mercês é hoje a Travessa Frutuoso Guimarães. 214 A Travessa dos Passinhos corresponde à Travessa Campos Salles. 215 WALLACE, Alfred. op.cit., p.41.
Talvez muito mais preocupados em não fornecer uma imagem negativa sobre os seus patrícios Wallace e Bates tenham se esmerado em valorizar os aspectos das casas comercias pertencentes aos ingleses que ali estavam estabelecidos, do que apresentar um cenário mais dinâmico que era o comércio daquele período. Porém a contribuição que nos indica Wallace é sobre o aspecto físico das lojas que estavam no centro da cidade. Ele diz; quando de um pavimento possuíam portas que se mantinham abertas paras as ruas.
As casas que se situavam na área central da cidade, na sua maioria são identificadas como sendo dedicadas às funções comerciais, entretanto não podemos crer que de forma exclusiva estavam voltadas para tal fim, pois durante a Colônia e mesmo durante a primeira metade do século XIX, a separação entre a vida da família e os negócios públicos não eram nitidamente distintos217. Isto é possível perceber através dos inventários deixados pelo menos por três famílias que possuíam comércio em Belém, onde os bens que faziam parte da loja são descritos juntos aqueles que possivelmente pertenciam a moradia. Embora o crescimento das exigências do governo para constituição de firmas comerciais registradas não seja uma coisa estranha para a primeira metade do século XIX218.
De um modo geral o comércio ou serviços que se destinavam ao atendimento público era praticado na frente da casa, quando de um pavimento, se fosse de dois pavimentos a parte térrea funcionava como loja e os altos a família residia. A respeito das especificações dos interiores das casas nos deteremos no capítulo seguinte.
As lojas que funcionavam no comércio faziam parte também de um mercado muito importante para a cidade que era a locação de imóveis, já era possível perceber na primeira metade do século XIX, que uma parcela da população se dedicava à exploração de aluguéis de prédios urbanos na cidade. Esta era um prática bastante comum para as casas assistenciais, como a Santa Casa de Misericórdia, os asilos destinados aos lazarentos, e os recolhimentos dos desvalidos, como a casa das educandas. Estas instituições, estavam geralmente isentas de tributação da Décima dos prédios Urbanos, por exemplo, tinham como uma fonte de renda a locação de imóveis na cidade.
217 Há uma vasta produção de obras que dão conta desta função mista das habitações. Cf. FARIA, Sheila de
Castro. Colônia em Movimento, fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. VIEIRA Jr. op. cit.2004; RIBCZYNSKI, op. cit., 2002, entre outros.
218 No Jornal Treze de Maio de 1843, há uma nota as firmas que passariam a se estabelecer na Praça de Belém,
onde constavam 28 firmas que desejavam estabelecer e regular nesta praça conforme estilo de auto regular. Câmara Legislativa Provincial.
O hospital de Caridade que abrigava os Lázaros, possuía como fonte de renda 28 pequenos prédios na cidade que lhe rendiam, segundo declarava o presidente da Província Francisco José de Souza Soares d’Andrea em 1838, 1:200$00 réis, que eram insuficientes para o sustento da instituição, sendo complementado os seus recursos com 400$000 doados pela Câmara Municipal. Não muito diferentes eram os prédios que pertenciam a Santa Casa de Misericórdia, que lhes servia de renda, conforme podemos notar: