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Capítulo 1: A ORIGEM DA DISPERSÃO ACIONÁRIA

2. As Mudanças Propostas pela Lei Dodd-Frank

A Lei Dodd-Frank abordou diversas questões destinadas a fortalecer a posição dos acionistas de companhias abertas norte-americanas. A mais importante talvez tenha sido o voto “say-on-pay” (que poderia ser traduzido como algo do tipo “opine sobre o pagamento”). O artigo 951 da Lei Dodd-Frank requer que as sociedades disponibilizem aos acionistas de companhias abertas a oportunidade de votar pela aprovação da remuneração de seus executivos156. Os

153 New York Times. Major Job Cuts Announced. Lisa Madigan, written testimony for the FCIC, First Public

Hearing of the FCIC, day 1, panel 2: Current Investigations into the Financial Crisis—State and Local Officials, January 14, 2010, p. 4–5; “Home Mortgage Lender settled ‘Predatory Lending’ Charges,” Federal Trade Commission press release, March 21, 2002. In Inquiry Report, p. 198.

154“Bebchuk, Cohen, and Spamann (2010) illustrate the problem through a case study of compensation at Bear

Stearns and Lehman Brothers. ‘We document that, notwithstanding the 2008 meltdown of the firms, the bottom lines for the period 2000-2008 were positive and substantial for the firms’ top five executives. These top executives regularly unloaded shares and options, and thus were able to cash out a lot of their equity before the stock price of their firm plummeted. . . . Bhagat and Bolton (2011) find a similar pattern – pre-crisis cashing out of large amounts of compensation by the CEO that exceeded losses suffered by the CEO from stock price declines during the crisis – for other large financial firms that had to be bailed out during the financial crisis.’ Bebchuk, Lucian. Executive Pay

and the Financial Crisis. The Harvard Law School Forum on Corporate Governance and Financial Regulation.

Wednesday February 1, 2012. Disponível em: http://blogs.law.harvard.edu/corpgov/2012/02/01/executive-pay-and- the-financial-crisis/. Acesso em 05 mar. 2013.

155 “Altogether, while the long-term shareholders in these firms were largely decimated, the executives’

performance-based compensation kept them in decidedly positive territory.” Idem.

156

Securities and Exchange Commission. Final Rule on Shareholder Approval of Executive Compensation and

Golden Parachute Compensation. Disponível em: http://www.sec.gov/rules/final/2011/33-9178.pdf. Acesso em 12

acionistas que discordarem da remuneração dos executivos da companhia, ou inclusive que entenderem que a performance da companhia não justifica a remuneração do conselho de administração em certo patamar, podem votar contrariamente. De acordo com aqueles que adotaram ou apoiaram essa lei, apesar do voto “say-on-pay” não ser mandatório, as companhias tenderiam a fazer mudanças na remuneração de seus executivos caso houvesse um número substancial de votos contrários pelos acionistas157.

Dessa forma, os acionistas passariam a ter um papel importante na gestão da companhia e os administradores entenderiam melhor suas responsabilidades perante eles. Recentemente, diversas companhias sofreram processos em virtude de inadequações na revelação da remuneração de administradores, para fins do voto “say-on-pay”. No entanto, nos casos Noble v.

AAR Corp. e Gordon v. Symantec Corp., julgados pela Corte Distrital do Distrito do Norte de

Illinois e pela corte estadual da Califórnia, respectivamente, as cortes negaram os pedidos dos autores para gozarem de direitos de voto158. Até o momento, apesar de a maioria das companhias estarem recebendo forte apoio acerca da remuneração de seus administradores, os acionistas parecem estar aumentando o nível de vigilância159. Até 25 de junho de 2012, o número de companhias que não havia atendido os votos “say-on-pay” havia aumentado em comparação a 2011160.

Outra matéria que foi amplamente debatida no âmbito da Lei Dodd-Frank foi a regra da maioria de votos para eleição de membros do conselho de administração. Essa regra acabou não sendo incluída na versão final da Lei Dodd-Frank. De qualquer forma, principalmente após a

157 LARCKER, David F., McCall, Allan L. and Ormazabal, Gaizka. The Economic Consequences of Proxy Advisor Say-on-Pay Voting Policies (July 5, 2012). Stanford Graduate School of Business Research Paper No. 2105.

Disponível em: http://ssrn.com/abstract=2101453 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.2101453. Acesso em 12 nov. 2012.

158“The lawsuits that have been brought against companies holding say-on-pay votes are generally brought on the

ground that their compensation disclosure is inadequate for shareholders to make an informed decision about the compensation resolution”. Savitt, William. Say-on-Pay Litigation: Part Deux. Disponível em: http://blogs.law.harvard.edu/corpgov/2012/12/11/say-on-pay-litigation-part-deux/#more-37242. Acesso em 12 nov. 2012.

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GOLDSTEIN, Jeremy L. Say on Pay 2012. Wachtell, Lipton, Rosen & Katz. Saturday July 14, 2012. Disponível em: http://www.wlrk.com/webdocs/wlrknew/AttorneyPubs/WLRK.21899.12.pdf. Acesso em 12 nov. 2012.

vigência da Lei Dodd-Frank, as sociedades passaram a enfrentar pressões para adotar, em seus estatutos, a regra da maioria de votos e democratizar o processo de eleição. Caso a regra da maioria de votos para eleição de conselheiros tivesse sido adotada, um conselheiro somente seria eleito caso tivesse mais de metade dos votos, caso o estatuto social não dispusesse de forma diferente. No entanto, o sistema normalmente adotado e considerado como regra, caso o estatuto não disponha de forma diferente, é o da pluralidade de votos, por meio do qual os conselheiros que receberem mais votos são eleitos.

Conjuntamente considerados, a estrutura dual de classe de ações, abaixo exposta, e os novos “poderes” exigidos pelos acionistas – por meio do voto “say-on-pay” e da maioria de votos para eleição de conselheiros – objetivam remodelar a governança corporativa americana. Contudo, apesar de o primeiro poder ser considerado uma tentativa de resistência, por parte dos donos das companhias, às reformas dos acionistas que estão sendo implementadas em outras companhias, o segundo tem por objetivo dar mais poderes aos acionistas.