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3 IDENTIDADE E O FEMININO

3.3 AS MULHERES EM CLARICE

Não é novidade para nenhum estudioso ou leitor de Clarice a quantidade de personagens mulheres que permeiam as suas obras desde que ela começou o seu ofício de escritora. Clarice sempre foi uma grande questionadora e suas

personagens idem. Esse enigma em criar personagens femininas que carregam em si uma concepção diferente do mundo que as envolve, coloca Clarice sob o signo do mistério constante. Embora, a escritora não tenha demonstrado, ao menos explicitamente, uma preocupação latente com questões da pauta feminista é inegável o quantitativo de mulheres e a maneira como essas mulheres são construídas em relação ao seu papel na sociedade. Podemos arriscar que uma das mais emblemáticas figuras femininas da nossa Literatura nasceu em 1977: a nordestina Macabéa do romance A Hora da Estrela. Sendo assim, Lucia Helena resume o conjunto da obra de Clarice Lispector:

Com mão de mestre, Lispector assina uma obra que é cena fulgor de um encontro de lugares prontos da cultura que ela questiona, reativa e enriquece, ao trazer à tona uma ruína da história, provocada pela pauta da escrita dominantemente declinada no masculino: a de que a voz da mulher foi e tem sido reprimida pelo modelo dominante de conceber o sujeito, a escrita e a história em nossa cultura‖ (HELENA, 1977. p. 110).

Desde o seu primeiro romance de 1968 que os leitores são impactados pela construção de personagens femininas de grande complexidade na obra Clariceana. ―O universo revisitado pela obra de Lispector reelabora um imaginário povoado de tantas santas, virgens e puras, de mães, procriadoras e esposas, e de musas inspiradoras, quase todas idealizadas ou inatingíveis ou mortas‖ (HELENA, 1997. p. 111). São essas personagens que de maneira pujante escrevem Clarice juntamente com sua forma peculiar de narrar os fatos do cotidiano e sua relação com o fluxo de consciência e os momentos de epifania em suas obras na Literatura nacional. A exemplo, a sua personagem Joana do seu primeiro romance Perto do Coração

Selvagem de 1943, em que temos uma mulher que busca incessantemente o

sentido de sua existência no mundo. Livro escrito em forma de discurso indireto livre, vemos a bifurcação de uma menina/mulher que no desenvolvimento da narrativa demonstra ser alguém totalmente livre e sem demonstrar necessidade de estar no convívio com outras pessoas. Uma mulher livre que sempre cheia de questionamentos está à frente do seu tempo se refugiando na solidão sem que isso lhe seja um estorvo.

Por sua vez o livro de contos Laços de Família de 1960 é uma obra recheada de mulheres que merecem destaque na obra de Clarice Lispector. A personagem

Ana do conto ―Amor‖ é uma das mulheres mais conhecidas e estudas da autora. Mulher bem-sucedida e com uma vida familiar estruturada ao voltar para casa de bonde se depara com a visão de um cego mascando chicletes. Tal acontecimento faz com que haja um rompimento emocional em seu ser. Ela vivencia a partir desse acontecimento uma mistura de sentimentos que vão de amor, ódio, repulsa, piedade. No que segue, Ana acaba por derrubar suas compras e desce em uma parada errada que acaba por levar ela ao Jardim Botânico. Lá ela novamente é tomada por sensações distintas e tem seu momento de epifania interrompido ao lembrar que deve voltar para casa para preparar o jantar. O jantar se encaminha da maneira esperada e ao fim do dia todo o seu devaneio se desmancha ao ser colocada para dormir pelo seu marido. Nota-se que essa narrativa constrói uma mulher que vivencia inúmeras experiências, mas não consegue se distanciar da sua real condição de dona de casa e, portanto, tem a necessidade de esquecer suas vivências para poder sentir-se útil.

Outra personagem feminina significante na obra de Clarice Lispector é G.H. do livro A paixão Segundo G.H de 1964. Mulher essa que conhecemos apenas pelas iniciais do seu nome, revelando assim um hermetismo, típico da autora. G.H. é uma mulher de classe média que ao se deparar com uma barata no quarto de sua empregada toma um susto e acaba por imprensá-la na porta de um armário. Notando a massa branca expelida pelo corpo da barata ela se sente impelida a experimentá-la e ao fazer isso entra em um fluxo de consciência gigantesco em que questionamentos sobre a sua existência e o divino leva a personagens a viver momentos de epifanias e consequentemente se reinventando enquanto pessoa. ―Ao ingeri-la, num tipo de comunhão sacrílega, G.H. experimenta a vida neutra, inexpressiva, atonal e insossa da natureza, muito anterior ao ser humano‖ (AMARAL, 2017, p. 83).

Por fim, dentre tantas mulheres narradas pelas mãos de Clarice, Macabéa do livro A hora da estrela (1977) é a sua personagem mais lembrada. É inegável que essa personagem tem ligações fortes com a própria escritora, por se tratar de uma nordestina que migra de nordeste para o sudeste assim como ela e sua família fizeram um dia. Essa mulher é a personificação de muitas ao mesmo tempo que se apresenta como singular na obra da autora. ―A estória de Macabéa se resume a sobrevivência quase inumana, pois, para tudo que sente e deseja, não dispõe de palavras para expressar‖ (FUKELMAN, 2017, p. 205). Ela é o silêncio em Clarice,

em sua obra, em suas mulheres e em sua vida, infelizmente literalmente, por se tratar de sua última obra escrita.

Na compreensão de Elóida Xavier (2002), as personagens de Clarice Lispector funcionam como várias, ao mesmo tempo em que suas visões mudam constantemente. Esse tipo de narrativa era algo que estava fechado tradicionalmente para a mulher e coube a ela ser uma precursora para esse caminho no Brasil. Diante disso, esse trabalho busca analisar e compreenderas identidades femininas dentro dessa obra. Firmando-se na possibilidade de construir perfis de mulheres a partir de um olhar para as identidades do que denominaremos: mulheres da rua VS mulheres do lar, aprofundando a compreensão da relevância do feminino em Clarice Lispector.

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