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associadas, bem como a posição diferenciada que homens e mulheres ocupam e as implícitas relações de poder. Ao contrariar a predominante visão androcêntrica sobre o setor, esta reflexão permitirá discutir o próprio conceito de pesca. Num primeiro momento, analisarei os diferentes papéis historicamente desempenhados pelas mulheres nos contextos piscatórios e como se cristalizaram representações sociais tradicionais do feminino associadas à casa e à família. De seguida, explorarei as perceções em torno da divisão do trabalho baseada no género e a sua dimensão espacializada associada a dicotomias mulher-terra-rio/homem-mar-oceano. Após essa análise, procurarei compreender como se constroem e reproduzem as formas hegemónicas de masculinidade na pesca, frequentemente associadas à fisicalidade e ao risco da atividade, bem como a um sentido de autonomia e liberdade. Por último, e partindo da análise da etnografia, irei refletir sobre como se constrói o envolvimento efetivo das mulheres na pesca e de que forma é invisibilizado por estar associado à unidade doméstica, mas como é crucial na relação de interdependência que caracteriza a atividade.
79 presença pública nos contextos piscatórios. Em Os Pescadores (1923), Raul Brandão coloca, pela primeira vez em Portugal, o papel das mulheres nas comunidades piscatórias em destaque.
Ainda que limitado ao seu propósito literário, o livro fornece-nos descrições densas que contribuem para o conhecimento dos contextos haliêuticos no início do século XX, tendo um capítulo inteiramente dedicado às mulheres, focando-se nas múltiplas dimensões do seu trabalho: pesca, venda, cuidado e gestão doméstica. Nesta obra, Brandão distingue as diferenças entre o papel das mulheres do Norte e do Sul do país e descreve-as em movimento, elemento que esteve bastante presente na literatura sobre estas comunidades (Amorim 2005).
Posteriormente, Maria Lamas, em As mulheres do meu país, publicada em fascículos entre 1948 e 1950, confere especial atenção às mulheres trabalhadoras da beira-mar, chegando a afirmar que as mulheres de Ílhavo, embora trabalhando em terra, são “mulheres de mar” (Lamas 1950).
No que toca à produção fotográfica, há uma simultânea visibilidade e invisibilidade do feminino (Martins, Furtado, Leitão 2016). A título de exemplo, um breve olhar para a produção de diferentes fotógrafos do século XX64 traz à tona discursos imagéticos que vão ao encontro das representações mais comuns das mulheres da beira-mar, pois representam a mulher na praia, na linha de contacto entre a terra e o mar, bastante visível nos registos sobre a Nazaré (Santos 2013, p. 74). Os registos perpetuaram também a ideia de que as mulheres esperavam o regresso dos seus maridos, filhos, irmãos, pais do mar ou de viagens mais longas (na pesca do bacalhau, por exemplo) — uma forma de representação das mulheres que lhes atribuiu um papel de alguma passividade em terra, por comparação aos homens com uma vida agitada e perigosa no mar. Paralelamente, as imagens remetem-nos para a mulher cuidadora, as responsáveis pelo cuidado dos filhos, dos maridos e das gerações mais velhas. É na praia que se retratam as mulheres que ajudam65, que esperam e que cuidam, mas também é nesse espaço que se torna visível a complementaridade dos trabalhos mar/terra (2013, p. 75).
Não sendo reconhecidas como pescadoras ou trabalhadoras da pesca, as mulheres foram sendo descritas como “ajudantes” dos pescadores: no fabrico e conserto de redes; na venda do peixe; marisqueio; produção de rendas de bilros; apanha de sargaço; etc. (Magalhães, Baptista 2007; Lima, Baptista, Lima 2016), atividades associadas às suas obrigações domésticas, sempre em movimento (Amorim 2005). Raul Brandão (1923) escreveu: “a mulher da beira-mar […]
logo que casa carrega com quase todo o peso do lar. […] Ela, remenda, poupa e vai arrancá-lo dialogam com o argumento deste capítulo. Para uma leitura mais aprofundada acerca da produção imagética e audiovisual sobre contextos piscatórios e representações do mar, vide o trabalho de Cunha (2001), Garrido (2008), Costa (2013), Santos (2020), Serra (2020).
64 Como, por exemplo, Artur Pastor, Horácio Novais, Manuel Roque Arriaga, Álvaro Laborinho, etc.
65 Ideia que mais à frente será problematizada.
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à taberna.” Estas palavras, historicamente situadas, ainda têm eco atualmente em muitas comunidades piscatórias, nas quais a intervenção da mulher é associada à unidade doméstica.
A partir de uma análise das descrições de Raul Brandão (1923), Inês Amorim desenha o perfil da mulher da praia no início do século XX “como o principal agente de organização de trabalho.
Em todos os espaços descritos, a mulher representa não apenas uma força de trabalho no setor, claramente observada, mas, acima de tudo, uma agente determinante na sobrevivência familiar”
(Amorim 2005, p. 671). Embora a afirmação de Amorim se refira a um período histórico particular, marcado por fortes mudanças nos modos e meios de produção, encontramos continuidade nas representações sociais do feminino ao longo do século: as mulheres enquanto elementos centrais na reprodução dos grupos, trabalhando diretamente na pesca ou não.
Durante o Estado Novo, verificou-se uma intensa produção66 artística sobre a atividade, quer ao nível literário, cinematográfico, quer nas artes plásticas, com sentido propagandístico, com o objetivo da divulgação e exaltação da Obra Social das Pescas (Garrido 2018a), dando destaque à figura do pescador, e sendo as mulheres representadas sempre em segundo plano e associadas às atividades domésticas ou à indústria conserveira. Essa imagem era reproduzida também nos diplomas legais como verificamos, por exemplo, no facto de as mulheres dos bacalhoeiros terem um estatuto social diferente das mulheres dos pescadores locais (Costa 2009, p. 11). Uma vez que a pesca do bacalhau implicava a ausência dos homens durante metade do ano e perante as potenciais consequências para a sobrevivência destas mulheres, atribuiu-se soldadas fixas aos pescadores, de modo que o seu rendimento fosse suficiente “para evitar que a mulher e os filhos menores fossem obrigados a, diariamente, abandonarem o lar, para angariar o complemento que era indispensável para prover à modesta manutenção” (Amorim 2005, p.
661). Quanto às mulheres dos pescadores locais, o Estado Novo promoveu a sua participação na indústria conserveira devido à “situação precária e incerta do homem do mar”, como consta num discurso de Oliveira Salazar (Salazar 1932, p. 51). Ou seja, as mulheres das classes mais baixas eram incitadas a trabalhar, ao contrário das mulheres dos capitães das embarcações do bacalhau, criando ainda mais assimetrias.
A comunidade piscatória da Nazaré é, talvez, o exemplo mais emblemático e que concentrou as atenções de artistas e da propaganda do Estado Novo, criando-se um arquétipo associado ao mar (Serra 2020). Nas narrativas de construção identitária nazarena, que remontam ao século XIX, mas que ganharam maior expressão durante a ditadura, as representações das
66 Poderíamos enumerar várias obras, mas seria sempre uma lista deficiente, pelo que apenas destacamos a produção audiovisual impulsionada pela Junta Central da Casa e realizada por António Veríssimo e, na pintura, os quadros de Domingos Rebelo, pela sua componente propagandística (Garrido 2008).
81 mulheres tiveram centralidade pela sua forte presença nos espaços públicos (Santos 2020, p.
69). Na base da construção dos estereótipos que se construíram sobre a figura da Nazarena, está o reconhecimento da grande importância social das mulheres na economia da pesca e na economia doméstica, descritas como os pilares na administração dos rendimentos das famílias (Escallier 1999).
Ainda que muitas vezes imbuídos por algum grau de romantização, estes registos artísticos instigaram representações sociais do feminino na pesca que ainda hoje permanecem no imaginário coletivo, como podemos constatar por comparação às representações que encontrei nos contextos sociais onde trabalhei, persistindo a ideia reificada que ao homem cabe o espaço do mar — tido como perigoso — e a atividade da pesca, enquanto à mulher é atribuído o espaço da terra, praia, rios e estuários, ambientes mais seguros (Magalhães, Baptista 2007). Este espaço da terra/praia era tido como contíguo ao de casa, e, por isso, as ocupações femininas eram pensadas por relação ao marido e às suas responsabilidades domésticas. Desde que se olhe para a atividade da pesca de uma forma mais abrangente e integrada, vemos como as mulheres surgem em diferentes etapas do trabalho produtivo e reprodutivo. Embora as mulheres da beira-mar tenham sido representadas por relação ao homem e à sua atividade produtiva (de extração de peixe, molúsculos ou bivalves do mar e/ou dos rios), também os registos historiográficos, etnográficos e artísticos põem em evidência a constante presença das mulheres nos espaços da pesca e envolvidas em diferentes trabalhos.
No pós-25 de abril, estes registos artísticos sobre as mulheres da beira-mar diminuíram, devido a diversos fatores, entre os quais a mudança política que impulsionou uma transformação da estética e das práticas artísticas, já não controladas pelo Estado. Também a partir dessa época, e sobretudo a partir dos anos 1980, a reestruturação do modelo produtivo para uma forma mais empresarial, resultante de uma combinação de fatores exógenos e endógenos (Martins 2007, p. 211), teve impactos na organização da unidade doméstica (2007, p. 189), que até então era a base da pequena pesca, levando a que as mulheres fossem progressivamente “desaparecendo” das praias. As mudanças no mercado de trabalho no país permitiram que as populações encontrassem trabalhos assalariados fora do setor (Cole 1994, p.
146), pelo que os agregados familiares passaram, assim, a acumular diferentes fontes de rendimento, o que gerou impacto significativo na divisão do trabalho e nos papéis de género, começando o trabalho das mulheres na pesca a diminuir significativamente.
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