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1 O PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DO PAPEL SOCIAL DA

1.3 As mulheres e o trabalho

Como afirma Lypovetsky (2000, p. 224), “O trabalho, em nossas sociedades, tornou-se um suporte muito importante da identidade social das mulheres”. Pelo trabalho, as mulheres conseguiram construir e expor de forma mais eficaz as suas possibilidades, antes só associadas com as suas funções de mãe e esposa, que seriam, como vimos, os seus únicos papéis legítimos diante da sociedade.

As mulheres sempre trabalharam, mas uma boa parte dos trabalhos que exerciam não era valorizada como tal. Estes trabalhos nem sequer eram assalariados, talvez um dos motivos de não ser valorizados perante a sociedade. Até as pesquisas que se dedicam à questão do trabalho feminino valorizam mais a atuação feminina após a Revolução Industrial, momento em que a mulher se aproximou do trabalho assalariado, muitas vezes desconsiderando o trabalho da empregada doméstica, da comerciante, da campesina e, principalmente, o trabalho da dona de casa (BATISTA et al., 2004).

Quando se fala de mão de obra feminina, necessariamente tem que ser abordada a Revolução Industrial (NOGUEIRA, 2004), que se caracterizou como um conjunto de transformações tecnológicas que teve grande impacto na forma de trabalho da época, provocando o êxodo rural e, consequentemente, o aumento da urbanização. Iniciou-se na Inglaterra, em meados do século XVIII, estendendo-se pelo mundo a partir do século XIX.

Uma das principais novidades da Revolução industrial foi o surgimento do proletariado feminino. Como a maquinaria utilizada não exigia força de quem as operava, isso

facilitou a entrada nas fábricas não só das mulheres, como também a das crianças, às vezes a partir de três anos de idade (DEJOURS, 1991; NOGUEIRA, 2004).

Mesmo o valor do trabalho feminino sendo mais baixo que o do trabalho exercido por homens, ainda havia uma grande rejeição a que as mulheres tentassem trabalhar nesse segmento, visto que esse trabalho era considerado antinatural, ou seja, algo que estaria em desacordo com a natureza feminina (BATISTA et al., 2004; NOGUEIRA, 2004). Por isso, para que a mulher trabalhasse nas fábricas ela precisava se esforçar para manifestar características consideradas masculinas, o que era demonstrado até em suas vestimentas (BATISTA, 2007; NOGUEIRA, 2004).

Apesar de o final do século XIX, na França, ser uma época marcada pelo aumento do acesso das mulheres a novos empregos e cursos, somente a partir do século XX percebemos de forma mais clara as transformações na vida das mulheres. Como exemplo, só em 1907 as mulheres casadas tiveram o direito a ter acesso diretamente ao seu dinheiro e, em 1918, as mulheres adquirem o direito de votar na Grã-Bretanha e na Polônia. No Brasil, as mulheres só começam a votar a partir de 1932 e em 1938 foram emancipadas da tutela do marido (BATISTA et al., 2004; LYPOVETSKY, 2000; PERROT, 1998).

Ao longo de diversos momentos históricos, como a Revolução Industrial (NOGUEIRA, 2004) e o movimento feminista (ROCHA-COUTINHO, 2003), houve um grande aumento da presença da mulher no campo de visibilidade da sociedade (PERROT, 1998), principalmente por meio do trabalho (LYPOVETSKY, 2000), de modo que foram deixando de ser percebidas, e de se perceberem, como incapazes para o trabalho fora dos domínios de seu lar. Isso ocorreu principalmente durante os períodos das grandes guerras.

Durante a primeira e a segunda guerras mundiais, as mulheres se mostraram muito ativas (BATISTA, 2007). Nas guerras, tanto o exército quanto a marinha demandavam o trabalho feminino, principalmente na função de enfermeira, atuação absolutamente necessária para assistência aos soldados feridos. Mas o grande marco feminino nessa época das grandes guerras era o fato de elas substituírem os homens, que se encontravam na frente de guerra, em suas atividades na cidade, como dirigir táxis e bondes, e no trabalho como operárias nas indústrias bélicas e na organização social como um todo (PERROT, 1998).

Ao final da Primeira Guerra Mundial, as mulheres tiveram que voltar a “ocupar seus lugares”, já que os homens que exerciam aquelas tarefas estavam de volta (PERROT, 1998).

Mas como era de se imaginar, as mulheres já não eram mais as mesmas. Poder atuar no espaço público, diferente das formas impostas e permitidas pela sociedade, fez que elas percebessem não somente outra possibilidade de existir no mundo, como também que

percebessem que, ao contrário do que era pregado na sociedade, eram capazes de exercer os ofícios que eram considerados masculinos.

Um exemplo de mudança que o momento das grandes guerras proporcionou às mulheres, por meio de sua inserção no mercado de trabalho, em sua forma de pensar, agir e até em seu papel social, é o fato de nas greves de maio de 1938 já ter se expressado uma voz ativa feminina, Rose Zehmer, que na posição de líder sindicalista na Citroën de Javel de forma magistral se fez ouvir pelo seu público que era essencialmente constituído por mulheres (PERROT, 1998).

Outra demonstração da mudança no papel social das mulheres foi a abertura da possibilidade de se desenvolverem como profissionais. Na Tabela 1, mostra-se a comparação entre os anos 1920, 1940 e 1950, da quantidade de mulheres trabalhando nas indústrias brasileiras. O período entre as guerras se caracterizou por uma maior aceitação cultural da

“carreira feminina” (BATISTA et al., 2004).

Tabela 1 - Distribuição dos dados de confronto entre os censos industriais de 1920, 1940 e 1950 chefes, diretores, interessados e gerente. (2) Chefes de serviço e empregados de categoria superior, e outros empregados.

Fonte: Serviço Nacional de Recenseamento. Tabela extraída de: Anuário Estatístico do Brasil, 1957. Rio de Janeiro: IBGE, v.

18, 1957 (apud BATISTA et al., 2004).

Analisando a Tabela 1, é possível perceber que a partir de 1920 há um grande acréscimo quantitativo na inserção das mulheres nas indústrias brasileiras. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, mais uma vez, tentaram reverter à situação, mas com efeito ainda menor. Em 1950, constatamos no total de homens e mulheres o triplo do número de mulheres que se

encontravam no mercado de trabalho em 1920. Além disso, logo depois do término da Segunda Guerra Mundial (1945), emerge o movimento feminista.

Restam duas questões importantes a esclarecer: primeiro, diferenciar o trabalho exercido pelas mulheres até o século XIX e o trabalho após esse período, ou seja, durante a Revolução Industrial e as grandes guerras. O grande diferencial é que antes as mulheres só podiam trabalhar em lugares tipicamente femininos, ou seja, trabalhos compatíveis com as que eram consideradas as principais características da mulher, algo que pelos critérios daquela sociedade não necessitasse de força ou inteligência, como o trabalho nas lavanderias (PERROT, 1998).

Tanto a revolução industrial quanto as épocas de guerras levavam as mulheres a exercerem o que seria visto pela sociedade como trabalhos tipicamente masculinos. Dessa forma, principalmente durante as épocas de guerra, as mulheres conseguem alcançar uma maior visibilidade, já que uma das maiores consequências dessas épocas é o claro assalariamento das mulheres ativas em profissões não agrícolas (BATISTA et al., 2004, NOGUEIRA, 2004).

Então, a outra questão que merece esclarecimento é que tanto na Revolução Industrial quanto durante as grandes guerras as mulheres conseguiram exercer atividades que eram reconhecidas como masculinas e, portanto, consideradas contra a natureza feminina. Portanto, o período de guerras destaca-se como o principal momento de expansão da expressão da liberdade feminina.

Segundo Clot (2006), o trabalho é um espaço essencial para a construção da identidade, da saúde e do desenvolvimento do ser humano. Durante a Revolução Industrial, a classe trabalhadora era escravizada, a duração do trabalho chegava a 16 horas por dia, em um ambiente sem qualquer tipo de higiene. Entre outras características, o trabalho se reduzia a forças de trabalho vivo, as pessoas eram consideradas como simples mercadorias (NOGUEIRA, 2004). A mulher, assim como o homem, era considerada no trabalho como apenas um corpo que servia de instrumento, como uma das manivelas constituintes da maquinaria da fábrica. Um corpo que, no momento de trabalho, deve desconsiderar seu aparelho mental, já que na fábrica só havia espaço para movimentos mecânicos e repetitivos, estando bloqueadas todas as possibilidades de expressão e desejo dos sujeitos (DEJOURS, 1991).

A mulher trabalhadora até pode ter sido produto da Revolução Industrial (NOGUEIRA, 2004), mas esse “trabalho”, caracterizado como escravo, não foi um possível propulsor da construção da sua identidade, como sujeito de si mesma, que o trabalho é capaz

de ser (DEJOURS, 1991) e foi na vida das mulheres (LYPOVETSKY, 2000). Por isso, quando destacamos a importância da inserção da mulher no mercado de trabalho na época das grandes guerras, é por percebermos que a identidade social das mulheres foi redefinida pelo trabalho. Assim, não só a sociedade, mas as próprias mulheres puderam perceber que sua identidade, suas vontades e seus desejos não estariam atrelados somente à posição de mãe e esposa (LYPOVETSKY, 2000).

Não é possível afirmar que, atualmente, as mulheres tenham conseguido se desvincular totalmente dessa posição de mãe e esposa adotada no início do século XIX.

Apesar de hoje a igualdade dos sexos ser exaltada, o antigo discurso sobre os papéis sociais ainda prevalece, principalmente quando o foco da discussão é a família (ROCHA-COUTINHO, 2003). Mas é possível afirmar que a natureza das outras possíveis atividades e funções sociais exercidas pelas mulheres é algo da ordem do imprevisível (LYPOVETSKY, 2000), diferentemente do século XIX.