como os “dominantes dominam”
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Marx já apontava em vários de seus escritos que o sistema capitalista era contraditório em sua essência, fato que não mudou. A necessidade de passar por crises para continuar existindo demonstra essa particularidade do capitalismo, que continua a reger a sociedade.
Modificam-se as relações de exploração do homem, reestrutura- -se produtivamente o sistema vigente no decorrer dessas crises. Foi assim no final dos anos 1970, em meados de 2008 e em tantos outros momentos que ainda vemos e veremos, onde as intervenções são cada vez mais sistemáticas, abrangentes e articuladas nos Estados Nacionais por parte do grande – e decadente – império estaduni- dense. A nossa reflexão teórica, inspirada no filósofo alemão, não pretende prever qual o futuro do capitalismo, apesar de enxergamos possibilidades da sua superação.
Fazendo uma breve periodização histórica geral capitalista, entendemos que nem sempre este foi o sistema que dominava a sociedade. Seu surgimento deu-se a partir do momento em que se superou a acumulação primitiva, característica do escravismo, feu- dalismo e das atividades que apenas buscavam subsistência. Isso se deu com o impulso da revolução industrial, quando se fez a primeira condição necessária para o capitalismo: a existência de trabalhadores livres, prontos para serem explorados, na subsunção real do trabalho ao capital explanada por Marx.
Passado esse estágio inicial, no final do século XIX, depois de surgida uma nova necessidade – a revolução constante do processo de produção –, há o desenvolvimento de monopólios e a passagem do capitalismo concorrencial para o capitalismo imperialista, forma que predomina até os dias atuais. Fontes (2010) aponta acertada- mente que o capitalismo tem a capacidade de adquirir característi- cas específicas de cada período histórico, porém, só pode existir se expandindo, fato que podemos constatar analisando como se chegou à configuração “imperialismo” e como este também pode ser visu- alizado em etapas, que somam três. Na etapa clássica, fase primeira e superior do capitalismo, de acordo com Lênin, a exportação dos capitais torna-se um fenômeno predominante assim como a neces- sidade das guerras, como conflitos interimperialistas deixando claro
que além de uma partilha territorial, os grandes monopólios reali- zam ainda uma partilha econômica do mundo, ganhando força com a “destruição criativa” e reconstrução que se tornam o carro chefe na exportação de mercadorias3 pelas corporações (FONTES, 2010).
Há durante esse período uma modificação do papel dos bancos e o desenvolvimento do capital financeiro.
Já sob o segundo período imperialista, pós-segunda guerra, continua-se com a corrida armamentista, impulsionada pela guerra fria. O medo da ameaça soviética faz com que se ampliem as alian- ças entre os impérios e os partidos burgueses, caracterizando a eterna união entre capital e Estado4. Esta é a fase cosmopolita, dos
anos dourados e sem maiores sobressaltos cíclicos, onde o Estado torna-se interventor e difunde-se a ideia de Estado do Bem-Estar Social. Vive-se, também, o embate entre sistema capitalista e sistema socialista. No terceiro período, de imperialismo neoliberal (ou capi- talismo contemporâneo), financeirização e reestruturação produtiva ganham destaque na busca por estabilidade monetária. Desemprego e desmantelamento do Estado também aparecem fortemente para domesticar e conformar o capitalismo como hegemonia, em um sentido gramsciano5 do termo. Estão aliados às privatizações, expro-
priações contínuas do planeta e contrarreformas conservadoras que pretendem a redução de direitos e a apropriação de conquistas sociais frutos da luta de classe (FONTES, 2010; NETTO; BRAZ, 2007).
3 O armamentismo torna-se um importante negócio dessa época.
4 Não há capital sem Estado. O capital como relação social só existe como forma
de concentração de valor e força de trabalho. E o trabalhador, por conseguinte, precisa ser convencido que manda na política.
5 Conforme aponta Gruppi (1978, p. 3), hegemonia para Gramsci engloba “algo
que opera não apenas sobre a estrutura econômica e a organização política da so- ciedade, mas também sobre o modo de pensar, sobre as orientações ideológicas e inclusive sobre o modo de conhecer”.
O processo de crise recente, desde as décadas de 1970-1980 junto à abertura neoliberal agravada em 1990, fez com que a socie- dade (enfaticamente no subcontinente latino-americano) passasse por um processo dialético de demonização do Estado e marginali- zação dos movimentos sociais, que trouxeram à tona a busca pelo poder não só político e econômico, mas também ideológico. No mundo globalizado, as relações sociais de exploração precisam con- tinuar a ser mascaradas. Este é o desafio político trazido pelo texto de Neves (2010), um debate sobre a desorganização da visão crítica ao capitalismo, que nos põe frente a uma inédita discussão sobre a reconfiguração do neoliberalismo no plano político e teórico, em um momento de crise. A autora nos coloca diante das novas correla- ções de força entre blocos no poder e alianças lideradas pelo capita- lismo, que vão além da classe dominante, invadindo e conquistando uma “esquerda possibilista”, agindo a favor do capital e trazendo ao mesmo tempo uma “visão domesticada do capitalismo”, direitista, porém com preocupações sociais, deixando de lado uma real estra- tégia política de enfrentamento. Trata-se de um projeto intelectual e moral que leva por trás um projeto hegemônico, agindo através do empresariamento da política, da fragmentação da luta dos movi- mentos sociais e a captura de suas forças para projetos ongeizado- res6, uma conversão mercantil filantrópica a favor do conformismo,
que é a mola propulsora da nova pedagogia da hegemonia. O que a chamada “Terceira Via” propõe nada mais é do que um capitalismo reformado, o fim da luta de classes e, assim, a impossibilidade de mudarmos o sistema de organização da sociedade, através da revo- lução. Para que assim se perpetue, um árduo e muitas vezes sutil tra- balho de educação é feito para que se efetive o enlace entre direita e esquerda através das instituições educativas do Estado.
Gramsci afirmava que toda hegemonia consistia em um ato pedagógico, então, se o capitalismo continua a ser o sistema de orga- nização hegemônico, por que chamamos de “nova hegemonia”? É preciso entender que o que existe de original nesta nova pedagogia são as estratégias de ação política, onde o novo projeto neoliberal propõe a ilusória união entre mercado e justiça social, através da educação para o consenso. A efetivação capitalista depende da explo- ração da força de trabalho e do disciplinamento da população à sua subalternização. Como os “dominantes dominam” hoje? De todas as formas que sequer pode-se imaginar. Desde a expansão que os EUA promovem no mundo com suas bases militares em inesgotáveis “missões civilizatórias”, na disseminação do processo de “ongeiza- ção” bem como através da “despolitização” da política, tratada cada vez como uma prática exclusivamente pró-burguesa, entre outros inúmeros artifícios imperceptíveis, mas que tomam conta de nosso cotidiano.
A dominação de classe assume uma busca do convencimento do explorado, como parte do projeto da nova pedagogia da hege- monia. Educação política e educação escolar são coisas que não se separam para que se possa produzir conhecimento para uma ação renovadora. Os sujeitos políticos coletivos mais eficazes hoje estão manipulados pelas grandes corporações, pela mídia e pelo Estado, seja através de fundações sem fins lucrativos ou não, um projeto político que visa, sobretudo, a disciplina social. Esse impedimento da criação de órgãos autônomos pelos trabalhadores e da disseminação do intelectual orgânico7 formado em sua classe faz com que a esfera
democrática se afaste cada vez mais de seu ideal e continue agindo a favor da elite dirigente, tendo como porta-voz os subalternos da
7 Conforme Neves (2010, p. 24-25), o intelectual orgânico é fruto de uma “nova
dimensão educativa do Estado Capitalista”, responsável pela “difusão pedagógica dos novos consensos”.
classe dominante. A marginalização dos movimentos sociais e a apa- tia política mascarada pelo viés da “repolitização da política” faz com que se efetive o plano de frações de classe8 na sociedade civil e, assim,
haverá a “parceria entre classes por supostos ‘interesses comuns’; no lugar da superação da ordem como horizonte”, conforme aponta acertadamente Montaño (2007, p. 18).