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Um ponto que se observa nesses textos referenciais de perspectiva neoinstitucionalista dos estudos sobre Parlamento é que, embora as normas procedimentais sejam mencionadas como instituições importantes na organização do Legislativo e no seu processo decisório, o conteúdo específico dessas regras e de seus efeitos no comportamento dos indivíduos e nas suas deliberações coletivas não aparece com destaque em muitas análises. Partidos e Comissões, por exemplo, são vistos como mais relevantes para a compreensão do funcionamento do Parlamento, do comportamento de seus membros e de suas decisões.

As regras procedimentais são muitas vezes consideradas como exógenas e tratadas como dados dentro desses modelos teóricos concebidos a partir dos postulados da escolha racional, que tem como pressuposto a existência de preferências conhecidas dos indivíduos, e não como sendo as próprias regras instituições a serem explicadas em sua origem, desenho e efeitos, uma vez que são resultados de decisões tomadas em algum momento por detentores de poder em busca de seus interesses. Também não se leva em conta, de modo geral, sua mutabilidade, tanto

em termos de alterações formais, decididas pela assembleia, quanto informais, por via de interpretações e costumes, nem tampouco são consideradas as consequências de sua violação para o Parlamento e para a democracia.

Nessa chave analítica, é pertinente a pergunta sobre se essas regras procedimentais legislativas teriam de fato efeitos nas decisões do Parlamento, mormente quando se considera que elas, em tese, podem ser alteradas pela própria assembleia de acordo com a conveniência e o interesse da maioria em aprovar determinada legislação. A observação empírica, todavia, como observa Gary Cox, é no sentido oposto, no de que elas têm efeitos importantes e não são alteradas com a frequência que seria esperada. Em seu ensaio, o autor oferece um enquadramento teórico para as regras de procedimento legislativo e seus efeitos útil para os fins do presente trabalho, tanto por seus fundamentos na metodologia e nos pressupostos do novo institucionalismo, quanto por ensejar o estudo comparativo de regras e Parlamentos, a partir de uma mesma abordagem analítica (Cox, 2000). Para esse propósito também se busca contribuições em capítulos do livro digital editado por Herbert Döring, que traz uma ampla pesquisa envolvendo dezesseis Parlamentos europeus e o norte-americano, também ancorada em conceitos e instrumentais metodológicos institucionalistas e de escolha racional (Döring, 1995).

Como observa Döring na introdução desse trabalho de pesquisa por ele coordenado, os detalhes institucionais dos diferentes desenhos de Parlamentos são importantes para dar substância aos modelos teóricos de análise e eventualmente direcionar seus ajustes. Assim, se, como postula o institucionalismo, os procedimentos legislativos afetam os resultados, é interessante tanto do ponto de vista prático quanto do teórico ter o maior número possível de informações sobre as legislaturas que se organizam a partir da regra de maioria, das preferências pessoais de seus membros e da sua inserção no contexto mais amplo institucional do estado, particularmente, das democracias (Döring, 1995).

Em sua análise sobre os efeitos das regras legislativas, Gary Cox considera como elas afetam tanto o processo quanto os resultados da atividade de elaboração das leis. Por regras de procedimento legislativo, ele entende tanto normas regimentais que podem ser alteradas pelos próprios legisladores quanto as provisões estatutárias ou constitucionais que afetam a apreciação de projetos de lei, a exemplo dos mecanismos de urgência existentes em Parlamentos latino-americanos (Cox, 2000).

A primeira questão colocada pelo autor é saber se de fato as regras legislativas podem ter qualquer efeito se elas puderem ser modificadas pela assembleia. Aqui ele distingue dois tipos de normas: as exógenas, que não podem ser modificadas ordinariamente pelo Parlamento,

e as endógenas, que podem ser mudadas a qualquer momento pelos próprios legisladores. Nesse último caso é particularmente pertinente a questão sobre se de fato essas normas têm algum efeito na produção legislativa, já que a maioria pode modificá-las para viabilizar a aprovação de determinada legislação. Além disso, se as normas são resultado das preferências dos legisladores, a escolha delas sofre dos mesmos problemas de instabilidade comuns às demais decisões coletivas, e elas tenderiam a se equilibrar sempre em torno das preferências do legislador mediano. Como explicar, então, a constatação empírica de que as regras procedimentais dos Parlamentos são razoavelmente estáveis e de fato afetam a produção legislativa? Três explicações são oferecidas por Cox: as regras podem ter fundamento constitucional, e será necessária uma maioria qualificada para alterá-las; as regras favorecem o partido majoritário e podem protegê-lo; e (ou) os legisladores podem estar por demais ocupados para mudar as regras (Cox, 2000).

O primeiro argumento remete à discussão sobre constitucionalismo, democracia e processo legislativo, objeto do Capítulo 1 deste trabalho. Como lá destacado, alguns autores entendem que não apenas as regras constitucionalmente estabelecidas teriam estabilidade e estariam isentas de modificação pelo Parlamento, mas também aquelas normas regimentais diretamente delas decorrentes ou de seus princípios. A alteração de uma regra constitucional demanda, na maioria dos Parlamentos, um procedimento legislativo especial e um quórum de aprovação superior ao requerido para as decisões comuns. Os estudos comparativos entre legislaturas também apontam a existência de mecanismos constitucionais ou regimentais capazes de proteger as regras procedimentais de mudanças frequentes. Nesse sentido, Döring relata que, de dezesseis Parlamentos de países da Europa Ocidental avaliados, seis exigem uma maioria especial para alterar as regras regimentais de procedimento. Nos Parlamentos latino-americanos esse tipo de disposição também é encontrado. Esses procedimentos especiais exigidos para alteração das regras também podem conferir ao partido majoritário ou coalização a capacidade de se opor às mudanças procedimentais que lhes desagradem, quando o status quo lhes favoreça de modo geral (Döring, 1995).

Gary Cox classifica os efeitos das regras regimentais em efeitos próximos, intermediários e finais. Os primeiros referem-se à distribuição de recursos e de poder de agenda, o que induz o segundo conjunto de efeitos, que é o relativo ao cardápio de políticas a serem escolhidas e à forma como são elas votadas, e, finalmente, há os efeitos sobre o comportamento de votação e o impacto sobre a política efetivamente escolhida (Cox, 2000).

Em relação ao primeiro conjunto de efeitos, a distribuição de poderes de agenda, Herbert Döring aponta para a existência de uma grande variedade de mecanismos de definição de

agenda entre os sistemas parlamentaristas da Europa Ocidental. Ele demonstra também como as diferentes regras de controle da agenda afetam os resultados políticos e levam a graus mais ou menos intensos de controle dos Governos sobre os Parlamentos (Döring, 2001). Dentro do escopo do presente trabalho, busca-se identificar mais detidamente os poderes de agenda distribuídos por normas internas da Câmara dos Deputados e seus efeitos no comportamento dos parlamentares e na produção legislativa, bem como analisá-los do ponto de vista das teorias institucionalistas distributivista, informacional e partidária e das teorias democráticas.

Ao considerar a maneira como os poderes de agenda podem afetar o cardápio de alternativas submetidas à escolha dos legisladores, Gary Cox classifica esses poderes em duas grandes categorias: o poder de incluir ou excluir projetos da pauta do Plenário e o poder de evitar alterações do projeto por meio de emendas de plenário. A agenda de Plenário pode ser estabelecida segundo dois modelos: no primeiro, é o próprio Plenário, por maioria, que decide quais matérias serão consideradas; no segundo essa definição é feita pela maioria dentro do partido majoritário (ou coalizão), se existir. Ou seja, regras procedimentais podem garantir que a decisão de incluir uma matéria na agenda do Plenário seja sempre tomada pela maioria deste, quer ao início do processo, como ocorre em alguns Parlamentos europeus, quer ao fim.

Alternativamente, os efeitos dessas regras podem operar no sentido de garantir ao partido majoritário (ou coalizão) o controle da agenda do Plenário, impedindo o acesso de propostas contrárias aos seus interesses ou forçando a agenda para as políticas e os temas prioritários para ele ou para o Governo que eventualmente represente. Essa discussão se dá no contexto dos estudos sobre o Congresso norte-americano entre os que apontam evidências distributivistas favoráveis ao modelo de decisão da maioria do Plenário e os que assumem como referência a explicação partidária para o controle da agenda (Cox, 2000). No caso do Brasil, tem-se considerado nas análises os expressivos poderes de agenda do Presidente da República e, em alguma medida, das coalizões legislativas, sem, no entanto, uma descrição mais precisa desses mecanismos e de seus efeitos dentro do Parlamento.

O segundo tipo de poder a ser considerado, ainda sob o aspecto do controle da agenda, diz respeito à capacidade de regular o debate e a apresentação de emendas do Plenário, uma vez que, mesmo nos casos em que há um controle efetivo sobre a pauta de votações, quer pela maioria, quer pelos partidos, projetos podem vir a ser considerados em função de eventos exógenos, à revelia dos interesses de uns ou outros, ficando sujeitos a alterações propostas em plenário. Em alguns Parlamentos, regras procedimentais, constitucionais ou regimentais, conferem ao Governo, como no caso da França, ou a outros agentes, poderes para evitar alterações em suas proposições legislativas (Cox, 2000). Há procedimentos regimentais na

Câmara dos Deputados, descritos e analisados no Capítulo seguinte, que regulam os poderes de apresentação de emendas tanto nas Comissões quanto no Plenário, com efeitos importantes nas escolhas e nos resultados legislativos.

Com relação ao efeito das regras no comportamento de votação, ele pode se dar por dois grandes caminhos: um, permitindo que os formadores da agenda controlem quem pode monitorar os votos; e outro, providenciando maneiras de fazer pagamentos laterais. No primeiro caso, pode haver conflitos de preferências entre os constituintes, o legislador e seu partido.

Assim, podem existir regras que permitam ao legislador individual se ocultar de seus eleitores nas decisões sobre questões impopulares ou mantê-los sob a vigilância de seus Líderes. Uma maneira de dar cobertura aos legisladores é a votação em uma só proposição de matérias de interesse geral juntamente com temas menos populares por procedimentos que não permitam emendas. No segundo caso, podem ser feitas compensações laterais para viabilizar acordos ou vencer obstruções, como a indicação para Comissões, para o desempenho de missões específicas de interesse do parlamentar ou, ainda, posições que reúnam mais recursos humanos e materiais disponíveis (Cox, 2000). Há procedimentos regimentais na Câmara dos Deputados que podem ser ter esse tipo de efeito, como a votação em globo de projetos e de emendas em grupos e processo simbólico de deliberação, sem identificação nominal dos votos.

Na segunda parte do ensaio, Gary Cox examina como as regras podem afetar as escolhas políticas finais. Dois aspectos são considerados: o primeiro, o de como as regras capacitam o partido majoritário ou coligação a conseguir o que quer; e o segundo, como elas podem simplificar as negociações legislativas. Quanto ao primeiro aspecto, as regras podem dar poderes ao partido majoritário ou coalizão em três estágios do processo legislativo: o da definição da agenda, o do oferecimento de emendas e o de votação. Importa identificar se em cada estágio, as regras procedimentais podem ter o efeito de conferir poderes para fazer com que a política final escolhida seja a que favorece a maioria. Diferentes modelos são sugeridos.

No “modelo chicote” (whip model), os Líderes da maioria exercem disciplina sobre seus membros quando eles votam. No modelo de regra restritiva, antes de votar o projeto, decide-se em que condições ele poderá ser emendado no Plenário. No modelo de agenda partidária, o controle é feito antes de o projeto chegar ao Plenário, ainda no âmbito das Comissões. Quanto ao segundo aspecto, as regras de procedimento podem proporcionar meios de simplificar as negociações legislativas com menores custos de negociação (Cox, 2000).

No caso da Câmara dos Deputados, estudos apontam para a possibilidade do surgimento de cartel de agenda controlado pela coalizão de Governo, justificado em parte pela existência de regras procedimentais capazes de conferir poderes de agenda aos partidos e seus Líderes, em

especial quando esses atuam como base de apoio parlamentar ao Presidente da República (Amorim Neto, Cox e McCubbins, 2003). Em outro momento, buscamos demonstrar como as regras procedimentais vigentes conferem expressivos poderes de influência, nas várias fases do processo de formação das leis e nos resultados das deliberações em geral, ao Presidente da Casa, que nem sempre atua como quadro partidário (Vieira, 2009).

Estudos legislativos relativos ao Congresso Nacional brasileiro têm se defrontado com as peculiaridades do desenho institucional adotado na Constituição vigente, tanto quanto à configuração de uma democracia representativa organizada com a finalidade de atender a necessidades e expectativas de igualdade, liberdade e desenvolvimento, quanto à particular feição conferida ao nosso regime republicano federativo, com separação de Poderes (artigo 1º a 3º da Constituição Federal), produto da sociedade e da história do País. Em tal contexto, pesquisadores pátrios têm buscado identificar os elementos de aproximação e distanciamento dos modelos teóricos sugeridos pelo neoinstitucionalismo de escolha racional para o estudo do comportamento e dos resultados parlamentares, em suas vertentes distributivista, partidária e informacional. A percepção inicial é a de que a compreensão do modo de organização do Parlamento brasileiro, de seu processo decisório e do comportamento dos seus legisladores deve levar em conta tais características particulares, que por vezes se aproximam do paradigma presidencialista do Congresso norte-americano e por vezes apresentam traços relevantes em comum com os regimes parlamentaristas europeus.

É nesse sentido que Sérgio Abranches (1988) aponta para o que considera um dilema enfrentado pelos constituintes de 88, o qual, para ele, não dizia propriamente respeito ao sistema de representação nem ao sistema partidário até então existentes no País, pois esses não diferiam dos encontrados nas democracias modernas, mas, sim, ao desafio de responder à demanda por um ordenamento político institucional capaz de reunir e dar coerência a pressões advindas de uma sociedade marcada por heterogeneidades e discrepâncias, sem o que não haveria condições de os Governos futuros intervirem com legitimidade no sentido de reduzir as desigualdades e responder aos interesses dos diversos setores. Para esse autor, a especificidade do modelo brasileiro resultante desse dilema não reside em nenhum dos seus elementos isoladamente considerados, mas numa inusitada combinação deles, sendo o Brasil a única democracia moderna a combinar representação proporcional, multipartidarismo e presidencialismo e, ainda, a organizar os Governos com base em grandes coalizões partidárias. Daí a consagrada alcunha de “presidencialismo de coalizão” para identificar nosso peculiar arranjo político institucional.

A formação das coalizões, nessa configuração presidencialista, envolve, segundo essa análise, três etapas: a aliança eleitoral em torno de diretrizes programáticas mínimas, a constituição do

Governo, com a repartição dos cargos políticos, e o funcionamento efetivo da coalizão traduzido na implementação da agenda de Governo. É na passagem crítica da segunda para a terceira etapas que se inserem os mecanismos de controle dos processos decisórios internos do Congresso e a atuação dos Líderes partidários comprometidos com o Governo, mas que também atuam como coordenadores dos interesses de suas respectivas agremiações, interesses que podem se colocar em conflito com os do Executivo, especialmente quando políticas públicas impopulares devem ser implementadas e nas conjunturas de crises econômicas e sociais (Abranches, 1988).

Estudos desenvolvidos a partir da consideração desse peculiar modelo institucional buscaram aplicar a teoria das coalizões formuladas em ambientes parlamentaristas ao caso brasileiro. Em especial, trata-se de investigar se esses gabinetes formados em regime presidencialista podem funcionar como as coalizões parlamentaristas, nas quais se verificam um alto grau de disciplina partidária nas decisões de Plenário e uma grande sintonia com as propostas legislativas advindas do Governo. Octavio Amorim Neto, por exemplo, buscou testar e identificar o grau de disciplina partidária em face de fatores como a formação de gabinetes (distribuição de ministérios), o decurso do tempo e a abrangência ideológica (Amorim, 2000).

Essa discussão serve de pano de fundo para se tentar entender o comportamento dos membros do Parlamento no Brasil, inseridos nesse sistema complexo, em que vários fatores institucionais e culturais interferem nas escolhas dos eleitores e na tomada de decisões legislativas e de Governo.

Especialmente no que diz respeito à compreensão dos processos decisórios internos do Parlamento e à participação dos diversos agentes que nele interferem, importa indagar sobre o efetivo controle, pelos partidos, por meio de Líderes e dos Presidentes das Casas, dos postos e dos mecanismos determinantes na tramitação e aprovação de propostas de seu interesse e no impedimento do sucesso de iniciativas que estejam em desacordo com seus programas. Duas vertentes teóricas vão aqui se contrapor, no esteio das principais linhas de análise neoinstitucionalistas hodiernas discutidas no Capítulo precedente. De um lado, há os que veem o comportamento dos legisladores brasileiros como essencialmente vinculado a interesses particulares e paroquiais, relacionados com a procura de incrementar a própria carreira e o sucesso eleitoral, o que faz com que o grau de fidelidade partidária seja pequeno, com que as lideranças dos partidos sejam fracas e obriga o Governo a recorrer com frequência a mecanismos de cooptação individual. De outra parte, estudos intentam demonstrar, contrariamente, que o grau de fidelidade dos membros do Parlamento em relação às orientações de seus líderes partidários é elevado, identificando-se nas normas internas das Casas legislativas

mecanismos de concentração de poderes que permitem aos Líderes e ocupantes de postos- chaves o controle dos trabalhos legislativos.

Na primeira linha, caracterizada como distributivista, Barry Ames discutiu os efeitos das estruturas políticas formais sobre o comportamento dos políticos e sobre os resultados dos processos políticos. Em sua visão, o Brasil tem uma crise permanente de governabilidade em razão do sistema político e eleitoral, que, de uma parte, produz partidos fracos e indisciplinados e, de outra, obriga o Presidente da República a formar coalizões de governo num Congresso que apresenta um grande número de atores com poder de veto. Esses atores, tendo o controle sobre as decisões do Parlamento, assumem um comportamento marcadamente fisiológico e paroquial, obrigando o chefe do Executivo a distribuir benefícios em forma de cargos e programas de obras para arregimentar apoio para suas políticas (Ames, 2001).

Pereira e Mueller, analisando o comportamento parlamentar em Governos de coalizão, associado pelos teóricos a altos custos de formação, chegam a conclusão algo diversa da sugerida por Ames quanto à governabilidade. Eles consideram que o controle que o Executivo mantém da execução das emendas parlamentares ao Orçamento lhe permite obter apoio no Legislativo a baixo custo, beneficiando-se da atitude distributivista dos legisladores. Além disso, identificam a existência de normas e procedimentos legislativos capazes de garantir ao Executivo a preservação da substância de sua proposta, controlando as alterações promovidas pelos parlamentares (Pereira e Mueller, 2002).

Numa e noutra perspectiva, os ocupantes de cargos de direção e coordenação dos trabalhos legislativos, como os Líderes de partidos, Presidentes de Comissões e os membros da Mesa Diretora, não desempenhariam papéis relevantes no processo decisório interno, superados pela postura indisciplinada e individualista dos parlamentares.

Ainda sob a ótica comportamental distributivista, David Samuels estuda as carreiras políticas no Brasil a partir da teoria da ambição. Para ele, os deputados federais brasileiros, em função do sistema de lista aberta, dependem de sua inserção política em nível estadual. Assim, eles valorizam postos fora do Parlamento que lhes possibilitem distribuir mais benefícios locais.

Mesmo a participação na distribuição de recursos do Orçamento se daria em função de obter postos nos Estados, e não necessariamente com vistas à reeleição. Esse tipo de atuação não fortaleceria o Congresso, produzindo carreiras legislativas curtas, sem especialização. No entanto, Samuel destaca que o estudo dos 10 anos de democracia no Brasil após 1988 conduz também à percepção de que há uma importância crescente das instituições legislativas na configuração do recém-inaugurado regime e que as peculiares motivações de carreira política

identificadas no País têm trazido significativas consequências para a estrutura e divisão de tarefas dentro no Parlamento (Samuels, 2003).

Quanto a esse aspecto, é interessante notar que dos 12 Deputados que exerceram a Presidência da Câmara dos Deputados desde 1987, apenas dois se candidataram, logo após o mandato parlamentar, a cargo eletivo no Poder Executivo. Os demais ou postularam o retorno ao Congresso ou não se candidataram no período seguinte, o que está em discrepância com os resultados gerais propostos por Samuels.

Uma possível explicação para esse fenômeno pode estar na divisão de tarefas dentro do Congresso que veio a produzir uma concentração específica de poderes conferidos ao Presidente da Câmara dos Deputados, fazendo com que os ocupantes desse cargo tenham interesse em desenvolver uma atuação mais especializada e focada no Parlamento. Esse fato foi constatado e analisado por Figueiredo e Limongi em seu trabalho sobre lideranças políticas na Câmara dos Deputados do Brasil. Nesse estudo, os autores começam por observar que a igualdade de prerrogativas constitucionalmente conferidas de modo igualitário a todos os membros do Poder Legislativo é contrastada pela maneira desigual como as normas internas que regem seus trabalhos distribuem os direitos parlamentares. Assim, a descentralização e a fragmentação do Parlamento, que se poderiam esperar a partir das normas constitucionais, acabam por não se verificarem na prática, uma vez que a organização do processo decisório distribui de maneira desigual e concentradora recursos e atribuições parlamentares, criando um segmento privilegiado de líderes em contraste com uma maioria que não tem acesso a tais benefícios. Disso resulta uma centralização dos trabalhos e das decisões nas mãos de uns poucos. Para eles, a concentração de prerrogativas ajuda a entender a conexão entre carreira parlamentar e ocupação de postos privilegiados dentro da Câmara dos Deputados, para os quais se requer maior experiência legislativa (Figueiredo e Limongi, 2002).

Isso aponta para carreiras políticas mais focadas no Legislativo, em contraste com as características gerais observadas, que são as de carreiras com pouca especialização e baixas taxas de reeleição, marcadas por uma alta rotatividade entre postos legislativos e executivos.

Desse modo, ao considerarem as carreiras políticas e as carreiras parlamentares no Brasil, Figueiredo e Limongi concluem sua análise as descrevendo como caracterizadas por uma baixa especialização da atividade parlamentar, configurada esta pela pequena experiência dos legisladores eleitos e por uma alta rotatividade com outros cargos, eletivos ou não, fora do Legislativo e fora da esfera federal. No entanto, constatam que, não obstante isso, os cargos de liderança no Congresso Nacional mostram estabilidade e seus ocupantes apresentam carreiras mais especializadas na atividade legislativa e parlamentar do que seus pares. A explicação para