2.2 O LIBERALISMO
2.2.2 As Novas Classes Sociais dos Tempos Modernos
Nesta seção discorre-se sobre as transformações nas classes sociais medievais.
Devido ao desenvolvimento econômico das cidades, identifica-se uma nova
IJ' MARCONDES, Danilo. Ob. Citada, p.200.
138 BOBBIO, Norberto. Ob. Citada, p.42.
classe social, os burgueses139, que formavam as cidades burgos.140
Os servos e camponeses viam na cidade a esperança de liberdade do julgo do sistema feudal. As cidades passaram a produzir diversos tipos de produtos, passando de uma cultura de subsistência para a produção em escala, com o fim de satisfazer as populações que começavam a morar nas cidades. Nasce a mão-de- obra especializada, os chamados mestres e seus aprendizes, criando-se as organizações corporativas (corporações de Ofício) a fim de se organizarem na administração do empreendimento comercial e para cada tipo de atividade especializada que surgia, como a dos padeiros, sapateiros, tecelões, alfaiates etc.141
Marco MONDAINI explica que as divisões se cristalizavam tanto nas classes dos nobres originados pelo feudalismo, bem como na classe burguesa, que era a representante do restante da sociedade. Dentro da burguesia, por sua vez nascia uma divisão de classes: aqueles que enriqueciam e aqueles que trabalhavam, levando as classes a perceberem as desigualdades. Até então o homem da Europa Ocidental entendia que cada um estava no lugar que deveria estar, ou seja, em classes estamentais, porém com o advento das novas relações econômicas abria- se a possibilidade do acúmulo de bens materiais e a possibilidade da mobilidade social, mas os nobres não permitiam pessoas de outras classes em seus lugares.142
Com o passar do tempo, o enfraquecimento do sistema feudal contribuiu para o fortalecimento da burguesia, levando os “servos” do feudalismo, que ansiavam por uma vida de liberdade a se mudarem para as cidades, acreditando encontrar a liberdade neste novo sistema de trabalho que surgia. Na Europa Ocidental estas cidades ganharam denominações. Na França - Comunas ou municipalidades; na Itália - repúblicas; na Alemanha - Cidades livres (ou cidades livres imperiais); Espanha - conselhos.143
Inicia-se a formação e criam-se regimentos políticos para a normatização das cidades, assim como a formação econômica, com a criação das corporações.144
A classe burguesa trazia uma visão diferente em relação aos valores
1 “A palavra burguesia advem daqueles que habitavam as cidades ou burgos e dirigiam o com ércio” . (COTRIM, Gilberto; PARISI, Mario. Ob. Citada, p.155).
140 CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social, p.63.
141 COTRIM, Gilberto; PARISI, Mario. Idem.
149 MONDAINI, Marco. Historia da Cidadania. O respeito aos Direitos dos indivíduos, p.118.
143 BECKER, Idel. Ob. Citada, p.274.
144 MARQUES, Guedes. O Plano Beveridge, p.22.
firmados pelo feudalismo. Para estes, os atos individuais dos homens como
“conquistador, tirano, reformador ou D. Juan” , eram os mais importantes; para os burgueses o importante era o bem estar e o dinheiro.145
Emmanuel MUNIER evidencia estes valores dizendo que: “O conforto é para o mundo Burguês o que o heroísmo era para o renascimento e a santidade para a cristandade medieval, o valor último, móbil da ação”.146
Max WEBER realiza comparação entre os Católicos e os protestantes e esclarece que com a formação das “Corporações de Ofícios”147 os católicos inclinavam-se mais para as atividades artesanais, ou seja, as classes dos mestres artesãos e aprendizes, enquanto os protestantes ficavam com os cargos superiores, eram os grandes cabeças do poder econômico. Esta divisão deveu-se ao fato da forma de pensar dos católicos que foram educados a dar mais valor ao mundo divino, espiritual, contrapondo-se aos bens materiais mundanos, e acrescenta:
O Católico é mais tranqüilo, tem menos impulso aquisitivo; prefere uma vida, a mais segura possível, mesmo que isto implique em uma renda menor, à uma vida arriscada e cheia de excitação mesmo que essa torne passível a obtenção de honrarias e riquezas. Isso é comprovado de maneira irônica pelo provérbio “coma ou durma bem” no presente caso, o protestante prefere saciar-se e o catolico dorm ir sem ser perturbado.148
Hannah ARENDT por este comparativo traz a seguinte reflexão: que a satisfação de viver não estava somente ligada aos prazeres mundanos, que era possível o homem estar no mundo e ligado ao seu “eu-interno”, imaginando e sentindo um mundo melhor, sem o acúmulo de bens materiais, resultando no bem estar.149
Partindo-se desta premissa de assistencialismo revigorante para o bem estar, Robert CASTEL recorda que a igreja cristã do Ocidente, na Idade Média, nos Séculos XII e XIII, deixava patente a importância da realização de obras assistenciais como forma de prover o homem de suas necessidades, sem nenhuma
145 MOUNIER, Emmanuel. Manifesto ao serviço do personalismo, p.28.
146 MOUNIER, Emmanuel. Idem.
147 Idel Becker explica a formaçao das corporaçoes: “Estas corporaçoes foram as instituições econômicas fundamentais da época. Elas abrangiam todos os profissionais: os artífices (pedreiros, marceneiros, ferreiros, tecelões, ourives, alfaiates, sapateiros), os profissionais de ofícios não- manuais, ou melhor, não dedicados à manufatura (barbeiros, médicos, farmacêuticos, tabeliões) e os comerciantes. As corporações de artesãos eram mais numerosas, pois cada ofício tinha a sua associação. As de comerciantes costumavam agrupar-se numa única instituição. Por isso, as corporações dos mercadores constituíam associações muito ricas e poderosas” (Ob. Citada, p.278).
148 WEBER, Max. A Ética protestante e o Espírito Capitalista, p.30-32.
149 ARENDT, Hannah. Ob. Citada, p.66.
contrapartida de trabalho, porém prestava ajuda por meio de um sistema de classificação: para os que eram portadores de algum tipo de deficiência e para aqueles que apesar de estarem em plena condição física não conseguiam realizar uma atividade.150
A pobreza tinha duas divisões, continua Robert CASTEL: uma que era praticada pelos homens religiosos, como o caso de São Francisco de Assis, que era rico e despojou-se de toda a ostentação para trilhar o caminho da simplicidade e de ajuda, e era este tipo de conduta que o cristianismo primitivo pregava, seguindo-se o modelo de Jesus; e o outro, que era a dos que nasciam pobres para os quais a Igreja Católica, por meio das doações, criou inúmeras casas assistenciais, hospitais e creches, para que pudessem dar amparo e assistência para este grupo que não tinha como prover o seu próprio sustento.151
No período renascentista, por volta do século XIV, os burgueses permanecem imbuídos do espírito da existência do “inferno”, que tanto foi pregado pela igreja católica. Acreditavam na necessidade da salvação pós-vida e para isto era necessária a realização de atos de caridade e de ajuda, realizando doações para a igreja, para que ela pudesse continuar cumprindo com a sua missão de acolhimento aos necessitados.152
Porém esta mentalidade solidária passa a ser abalada pelas reflexões realizadas e com o advento das corporações. Os menos afortunados são rotulados como um grupo que incomoda e que pode trazer conseqüências a esta nova ordem social. Necessitando de normativas de amparo, mostrando que a conduta benevolente pela qual a igreja cristã tratou estes grupos não trouxe soluções, pelo contrário, somente aumentou os necessitados.153
Estes necessitados, para a nova ordem econômica, é a população com a qual não se pode contar para a realização dos novos métodos de produção, portanto um grupo desnecessário.
Antes mesmo do período moderno já se percebe estes movimentos de diferenciações e de classificações como pode ser observado na metade do Século XIV, na Inglaterra, onde em 1349 surgiu o primeiro Tratado dos Trabalhadores.
Escrito pelo rei Eduardo III, estabelecia algumas regras como: punições para
150 CASTEL, Robert. Ob. Citada, p.95.
151 CASTEL, Robert. Idem. p.63.
152 CASTEL, Robert. Idem Ibidem, p.60-61.
153 CASTEL, Robert. Idem.Ibidem.
aqueles que apesar de poderem trabalhar se recusavam, preferindo viver na miséria; fixava como limite de idade útil os 60 (sessenta) anos. Todo aquele que não tivesse nenhuma forma de prover a sua sobrevivência, se fosse convocado para trabalhar deveria realizar os trabalhos de acordo com sua situação física, não podendo recusá-lo, bem como receberia em troca dos trabalhos alimentos e salários, conforme estabelecido no tratado.154
Assim, Robert CASTEL conclui que os novos tempos reformulavam os antigos valores assistenciais em relação aos pobres impondo:
• imperativo categórico de trabalho para todos os que não têm outro recurso para viver senão a força de seus braços;
• a obrigação de que o serviço se adapte o mais estreitamente possível às formas de divisão das tarefas fixadas pela tradição e pelo costume. Quem já trabalha, que permaneça em seu emprego (salvo se convier ao seu empregador dispensá-lo) e quem está em busca de emprego, que aceite a primeira injunção que lhe for feita nos limites territoriais, marcando o sistema de dependências de uma sociedade ainda dominada pelas estruturas feudais;
• bloqueio de retribuição pelo trabalho, que não pode ser objeto de negociações ou de ajustes, nem mesmo de flutuações espontâneas, mas que se acha impreterivelmente fixada de uma vez por todas;
• a interdição de elidir esse imperativo do trabalho, recorrendo-se a ajudas de tipo assistencial (interdição aos carentes de mendigar e, correlativamente, aos possuidores, de alimentar, por esmola, a assistência a indivíduos aptos para o trabalho).155
Estas relações de trabalho que começavam a surgir traziam uma nova divisão de classes. No ápice encontrava-se ainda o poder soberano dos nobres.
Mas, as classes burguesas surgidas nos séculos XVII e XVIII economicamente eram mais ricas e queriam estar na mesma posição de poder dos nobres, que representavam o poder político do Estado.
Hannah ARENDT argumenta que a igreja ficou adstrita às questões religiosas e a volta primitiva ao pensamento cristão “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” , firmando a “separação entre Igreja e Estado, entre
154 CASTEL, Robert. Ob. Citada, p.97-98.
155 CASTEL, Robert. Idem, p.99.
religião e política.”156
Carlos ZERON destaca que nas classes inferiores ficavam aqueles que pertenciam à classe dos trabalhadores que não faziam parte das grandes corporações e levavam as classes comerciantes a enriquecer. Os que incomodavam eram ás massas de pobres e necessitavam da ajuda de todos os outros. Estes que nada tinham a perder, aderiam tanto aos interesses burgueses como da classe dos nobres, bem como podiam deflagrar movimentos revolucionários.157
Emmanuel MOUNIER observa que esta nova classe formada pelos burgueses passa a desprover o homem das suas ligações espirituais, trocando-as pelas necessidades mundanas, trazendo como conseqüência o fim das relações comunitárias instituídas pelo cristianismo por suas premissas de “igualdade” e
“fraternidade”, jogando-o de encontro ao individualismo.158