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As novas formas de obtenção da mais-valia

No documento Trabalho invisível (páginas 39-43)

Percebendo a exploração infantil no trabalho como degradação social no interior das atuais transformações no mundo do trabalho, Navarro (2003) pesquisa as mudanças na indústria de calçados de Franca/SP, na década de 1990, e o trabalho infantil em relação ao aumento do trabalho em domicílio e ao rebaixamento do poder de organização dos trabalhadores. Conforme a autora, a reestruturação produtiva da indústria francana tem tido conseqüências drásticas com o aumento da incorporação das crianças na produção domiciliar para o alcance de metas determinadas pelos contratantes. O trabalho assalariado do setor combina trabalho empregado com trabalho em domicílio, sendo que este possui traços de trabalho familiar e se encontra em expansão.

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Segundo a autora, entre 1986 e 1996, essa indústria calçadista extinguiu 16.500 postos de trabalho, em função da adoção de estratégias de gerenciamento da produção. Reduziram- se os postos de trabalho e proliferaram modalidades de trabalho em domicílio, em regime de contratação por cotas.

O corte, a costura e a colocação de enfeites são atividades realizadas predominantemente em regime domiciliar, sendo a montagem final a única etapa realizada no interior da fábrica. A organização espacial e os instrumentos necessários para a execução do trabalho em casa são de responsabilidade do trabalhador que deve arrumar recursos para tal. Nesse caso, o trabalho infantil se desenvolve coadunado ao trabalho feminino, visto que as mulheres, ao mesmo tempo em que trabalham, cuidam das casas e de seus filhos. As crianças passam a trabalhar em caráter de “ajuda”, no período em que não estão na escola, sendo fundamentais ao alcance das cotas.

Portanto, pode-se considerar que se a exploração infantil no trabalho integrou a história fabril em sua origem, com as crianças e as mulheres sendo empregadas nas fábricas com jornadas longas e insalubres, hoje, são introduzidas por meio do trabalho em domicílio, que assume características familiares nas quais fiscalização, contagem e visualização são dificultadas. O processo fabril mudou. Está fragmentado, pois o que era desempenhado por vários trabalhadores no chão da mesma fábrica, é realizado em caráter familiar, em diferentes residências, com jornadas ilimitadas.

Navarro (2003) conclui que a chamada reestruturação produtiva avança junto com o crescimento da subcontratação e da “informalidade”, agravando a exploração da força de trabalho com a inclusão de toda a família. Muitas vezes, o trabalho é realizado em espaços inadequados e improvisados, no interior das residências , expondo a saúde dos trabalhadores às condições insalubres e às jornadas ilimitadas, de difícil fiscalização.

Em relação ao fenômeno exposto, autores como Francisco de Oliveira (2003) e Aued (2005) entendem a contribuição da criança como imprescindível à economia capitalista, uma vez que o formal nutre-se do informal e a dualidade é inexistente. No processo real, há uma simbiose, com a unidade dos contrários. Segundo Oliveira (2003), a tendência à formalização da relação salarial estancou nos anos 80 e, hoje, há uma “desconstrução” desta relação em todos níveis e setores. A Terceira Revolução Industrial e a globalização do capital, coadunadas à alta produtividade, deram um salto à plenitude do trabalho abstrato com uma enorme produtividade que tem como fundamento a extinção da jornada de trabalho e a ampliação da necessidade de setores que auxiliem o escoamento da produção - as crianças participam ajudando a economia formal, num trabalho essencial ao capital. A

economia capitalista não suporta a formalidade total, precisa das crianças vendendo nas ruas, sem pagamento de impostos, para viabilizar o consumo do que é produzido. Portanto, a “informalidade” é a forma cruel da modernidade.

A idéia do trabalho formal sugere, como forma ideal, a referência ao trabalho com contrato, aos direitos sociais e à assinatura em carteira. A inexistência de tais características qualificaria o trabalho de informal. Mas, para além da aparência, é possível dizer que não há ausência de forma no trabalho e sim, outras formas que se diferem do aparente ideal moderno e capitalista de assalariamento. Nesse sentido, Aued (2005) afirma que um dos problemas relacionados à aparência do termo “informalidade” refere-se à idéia de que amanhã o emprego surgirá.

Segundo a autora, a tese, difundida a partir da década de 1930, no Brasil, do assalariamento de toda a população trabalhadora, não se corroborou. Na atualidade, a região mais industrializada do país tem 42,4% de informalidade, sendo mais o produto das novas formas de obtenção de mais-valia do que das políticas públicas insuficientes.

Portanto, a “informalidade” não é a ausência da forma de trabalho ou da ação de políticas públicas eficientes, mas, sim, a típica forma de reprodução do modo capitalista de produção. A caracterização da exploração infantil no trabalho é coadunada às formas contemporâneas de exploração do trabalho abstrato, sendo um dos modos do sistema se renovar. “É regurgitando adultos que o vampiro sedento se impanturra das crianças”.

CAPÍTULO II

TRABALHO INVISÍVEL

(A EXPLORAÇÃO INFANTIL NO TRABALHO, NA ATUALIDADE)

A produção de idéias, de representações, da consciência está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. [...] homens são os produtores de suas idéias [...] Essa maneira de considerar as coisas não é desprovida de pressupostos. Parte de pressupostos reais e não os abandona um só instante. Estes pressupostos são os homens, não em qualquer fixação ou isolamento fantásticos, mas em seu processo de desenvolvimento real, em condições determinadas e empiricamente visíveis. [...] Ali onde termina a especulação, na vida real, começa também a ciência real, a exposição da atividade prática, do processo prático de desenvolvimento dos homens. As frases ocas sobre a consciência cessam, e um saber real deve tomar o seu lugar22 (p. 37-38)

A idéia de realizarmos uma pesquisa de campo no Hospital Infantil Joana de Gusmão (HIJG) e na Delegacia Regional do Trabalho (DRT), ambos localizados no município de Florianópolis, SC, surgiu diante da dificuldade encontrada, enquanto pedagoga e estudante do mestrado em Sociologia Política da UFSC, em qualificar a exploração infantil no trabalho, na atualidade. Assim, iniciamos um estudo exploratório, junto com pediatras da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do HIJG e com auditores fiscais da DRT, responsáveis pela averiguação do trabalho infantil em Santa Catarina, cujo objetivo era conseguir dados acerca da caracterização da problemática estudada.

As conversas realizadas com os pediatras que ocupam cargos de chefia dentro do HIJG afirmavam a inexistência de atendimentos às crianças vítimas de acidente de trabalho. Entretanto, plantonistas da emergência e membros da Comissão de Ética em Pesquisa do hospital, contestavam a afirmativa dizendo que: “cresce o número de crianças vítimas de balas perdidas, atingidas durante a madrugada e atendidas no hospital”.

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Explorando a divergência de informações concedidas pelos funcionários do HIJG e buscando caracterizar a exploração do trabalho infantil com vistas à elaboração de um plano piloto de pesquisa, tivemos como ponto de partida a análise dos registros da averiguação da DRT de Santa Catarina, bem como as entrevistas realizadas com familiares de crianças que trabalham e procuraram atendimento na emergência do HIJG, entre os dias 15 e 30 de setembro de 2006. Assim, partimos de dados gerais da fiscalização do trabalho para delinear o instrumento de coleta de dados, que formula questões auxiliando o desvelamento da exploração da criança, na atualidade.

Porém, aquilo que à primeira vista parecia fácil, revelou-se difícil, pois a caracterização do trabalho infantil mostrou-se de impossível apreensão nas primeiras entrevistas realizadas no HIJG. A problemática foi ampliada à medida que questionamos sobre: O que é trabalho? O que é trabalho infantil? Quais acidentes e atendimentos hospitalares resultam de crianças trabalhando? Como apreender a especificidade da atual forma de exploração infantil no trabalho?

No documento Trabalho invisível (páginas 39-43)