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CAPÍTULO 2. METODOLOGIA ADOTADA

2.2. As obras selecionadas

Com o objetivo de investigar a ‘escolha de retórica’ e o valor da ‘metalinguagem’ de descrição gramatical para a compreensão de diálogos conservadores e revolucionários em textos produzidos por estes dois autores de destaque no desenvolvimento de gramaticografias castelhana e portuguesa, respectivamente, produzidas na América, levantamos as principais obras de reflexão gramatical destes dois estudiosos. Com ‘principais’, estamos nos referindo aos textos que foram mencionados em crônicas históricas, revisões (bio)bibliográficas e artigos/livros críticos que consultamos.

No quadro 1, apresentamos as principais obras de Andrés Bello em que podemos encontrar reflexões gramaticais:

Quadro 1: Levantamento dos principais livros e textos gramaticais escritos por Andrés Bello, expostos em ordem cronológica

ANO DA 1ª EDIÇÃO TÍTULO CASA EDITORA LUGAR DE PUBLICAÇÃO 1835 Principios de la ortología y métrica

de la lengua castellana

Imprenta de La Opinión

Santiago (Chile)

1838 Gramática de la lengua latina Imprenta de

La Opinión

Santiago (Chile)

1841 Análisis ideológica de los tiempos de la conjugación castellana Imprenta de M. Rivadeneyra Valparaíso (Chile)

1847 Gramática de la lengua castellana destinada al uso de los americanos

Imprenta del Progreso

Santiago (Chile)

Andrés Bello publicou outros textos nos âmbitos filosófico, literário, jurídico e histórico. O venezuelano também publicou traduções e, postumamente, mereceu duas coletâneas de suas obras completas. Contudo, não os elencamos aqui, por não estarem circunscritos a nossa proposta de investigação.

Destas quatro ‘principais’ obras mencionadas, verificamos que todas foram publicadas no Chile, isto é, em uma fase madura – pelo menos intelectualmente – de Andrés Bello. À exceção da obra de 1838, as produções do venezuelano são sobre a língua castelhana.

Para a pesquisa proposta, verificamos que, dentre os três livros sobre o castelhano, a Gramática de la lengua castellana destinada al uso de los americanos (1847) mostrou-se como a obra de Bello que mais repercutiu na gramaticografia castelhana, além de contemplar, de modo mais sucinto e refletido, os temas gramaticais tratados nas obras anteriores – como a ortologia e os tempos verbais.

De acordo com Trujillo (1988: p. 10), esta gramática seria o exemplo do alto conhecimento oitocentista, um manual de estudo e consulta, um repertório de sugestões

e ideias gramaticais que os hispano-falantes possuem. Num levantamento das reproduções da obra, entramos em contato com reedições publicadas por editoras de distintos países. Algumas destas edições são versões pedagógicas e simplificadas do texto original, para uso em escolas americanas (BELLO, 1884, 1886). A sua atualidade e impacto, além disso, também são visíveis ao constatarmos a existência de reedições datadas de 1988 a 2002.

Essa obra foi bem recebida e bastante difundida na América. Ela parece assumir traços de um diálogo de conflito com a tradição ao insistir, por exemplo, no prólogo, na necessidade de uma independência do modelo latino de descrição, que, na visão do autor, ainda vigorava nos estudos hispânicos, já que “No debemos pues aplicar indistintamente a un idioma los principios, los términos, las analogías en que se resumen bien ó mal las prácticas de otros”33 (BELLO, 1853 [1847]: p.II).

Pela impossibilidade de contato confiável34 com a primeira edição, resolvemos adotar como material de pesquisa a terceira edição da obra. A seleção desta edição deu- se por ser a mais antiga encontrada e, também, uma reedição da primeira (Obras Completas, 1995). Nela, podemos encontrar notas críticas de Francisco Merino Ballesteros (?) devidamente sinalizadas, não permitindo que estas sejam confundidas com o texto original de Bello.

Considerando que edições posteriores renomadas desta Gramática, como as que contam com textos de Rufino José Cuervo (Colômbia, 1844 − 1911) e Amado Alonso (Espanha, 1896 – 1952), apresentam quinze notas que Andrés Bello foi agregando à primeira edição (até a quinta), decidimos também por incluir estas notas posteriores escritas pelo venezuelano em nosso corpus.

No entanto, a preferência que damos ao uso da primeira ou mais antiga edição encontrada da Gramática decorre de nosso alinhamento metodológico com o Projeto Documenta, Gramaticae et Historiae: Projeto de Documentação Linguística e Historiográfica (ALTMAN & COELHO 2006−), um estudo coletivo que vem sendo

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Mantivemos em espanhol os fragmentos retirados das obras de Bello, pois fazem parte dos nossos objetos de análise e, por isso, podem conter informações relevantes sobre a língua em foco. Os demais textos críticos em espanhol, de outras autorias, foram traduzidos. Nestes casos, reproduzimos os trechos originais em notas de rodapé.

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Encontramos uma digitalização virtual da edição que seria a primeira. Contudo, como este arquivo não estava vinculado a nenhuma biblioteca digital ou instituto de pesquisa, preferimos continuar trabalhando com esta terceira edição.

realizado pelos pesquisadores do CEDOCH (Centro de Documentação em Historiografia Linguística) desde 2006, centrado, de modo bastante sintético, no estudo de gramáticas de línguas distintas, todas do contexto ibero-americano. Esta metodologia, que será mais bem detalhada no subitem 2.3. CRITÉRIOS DE ANÁLISE, recomenda, para padronização dos dados, o uso das primeiras edições de textos gramaticais estudados.

Abaixo, apresentamos o Quadro 2 que elenca os principais textos e obras de Manuel Said Ali que contêm reflexões gramaticais:

Quadro 2: Levantamento dos principais livros e textos gramaticais escritos por Manuel Said Ali, expostos em ordem cronológica

ANO DA EDIÇÃO TÍTULO CASA EDITORA LUGAR DE PUBLICAÇÃO

1894 Nova grammatica alleman Laemmert Rio de Janeiro

1895 “Estudos de Linguística – verbos sem sujeito segundo publicações recentes” (artigo publicado na

Revista Brazileira) Sociedade – Revista Brazileira Rio de Janeiro 1895 “Estudos de Linguística – a collocação dos pronomes pessoaes

na linguagem corrente” (artigo publicado na Revista Brazileira)

Sociedade – Revista Brazileira

Rio de Janeiro

1895 “Estudos de Linguistica – a accentuação segundo publicações

recentes” (artigo publicado na Revista Brazileira)

Sociedade – Revista Brazileira

Rio de Janeiro

1898 “Questões ortographicas” (artigo publicado na Revista Brazileira)

Sociedade – Revista Brazileira

1905 Vocabulário ortographico precedido das regras concernentes

as principaes difficuldades ortographicas da nossa língua

Laemmert Rio de Janeiro

1908 Difficuldades da língua

portugueza: estudos e observações

Laemmert Rio de Janeiro

1914 “Correções injustas” [todo e todo o] (artigo do Anuario do Colegio

Pedro II)

Colégio Pedro II

Rio de Janeiro

1919 Dificuldades da língua

portuguesa: estudos e observações [2ª edição revista e augmentada]

Bernard Freres Rio de Janeiro

1921 Lexeologia do portuguez historico Melhoramentos São Paulo

1923 Formação de palavras e sintaxe do português histórico

Melhoramentos São Paulo

1923 Gramática elementar da língua portuguesa

Melhoramentos São Paulo

(1923?) Gramática secundária da língua portuguesa

Melhoramentos São Paulo

1930 Meios de expressão e alterações semânticas

1931 Gramática histórica da língua portuguesa

Melhoramentos São Paulo

1956 Acentuação e versificação latinas: observações e estudos (obra

póstuma)

Simões Rio de Janeiro

póstuma)

Deste grupo de obras, decidimos selecionar como material de análise a segunda edição do compêndio Difficuldades da Língua Portugueza, por (i) ser a primeira grande publicação de Said Ali com notável repercussão e revisitação posterior, e (ii) por reunir alguns artigos publicados no século XIX, embora revisados e, como o próprio autor diz, “melhorados”, em relação à primeira edição: “Poucas emendas soffreram os capitulos antigos, exceptuando o da collocação dos pronomes, o qual, desdobrado agora em duas partes, foi quasi todo escripto de novo” (Prefácio da segunda edição (1919[1908]: p. V).

Pelo fragmento anterior, podemos dizer que a segunda edição da obra, revista pelo autor, reestrutura a primeira e a complementa: seria – portanto – uma versão mais acabada de seu pensamento. No entanto, o cotejo que realizamos entre a primeira e a segunda edições das Difficuldades ressaltam que Said Ali acrescenta cinco capítulos à obra de 1919, tornando-a bastante diferente da publicada em 1908. Apresentamos, a seguir, o Quadro 3, que resume este cotejo e informa: (a) na coluna 1, os capítulos presentes nas Difficuldades (1919[1908]), expostos na ordem em que aparecem no compêndio; e, (b) na coluna 2, a ausência ou presença deste capítulo na primeira edição.

Quadro 3: Cotejo entre os capítulos que compõem as duas primeiras edições da obra Difficuldades da Língua Portugueza (1919; 1908)

CAPÍTULO DAS DIFFICULDADES (1919[1908])

PRESENÇA NAS DIFFICULDADES (1908)

1.Phenomenos de intonação SIM

2.Collocação des pronomes pessoaes regidos de infinitivo ou gerúndio.

SIM [junto ao cap. 2]

3.Collocação dos pronomes pessoaes regidos de formas verbaes finitas.

SIM [junto ao cap. 2]

4.O infinitivo pessoal SIM

5.Verbos sem sujeito SIM

7.Todo o Brasil e todo Portugal NÃO

8.Haver e Ter NÃO

9.Participios duplos NÃO

10.O Futuro NÃO

11.Nomes proprios geographicos SIM

Além de ser mais completa e bastante modificada, as Difficuldades de 1919 são a mais antiga edição da obra revisitada por estudiosos, inclusive da contemporaneidade. Como já referimos anteriormente, é nesta edição que encontramos a precoce e frequentemente mencionada referência que Said Ali faz a Ferdinand de Saussure, um indício de que esta obra foi modificada em um momento de recepção das novas propostas europeias para o estudo das línguas.

Por fim, vale dizer que, nesse compêndio, encontram-se soluções gramaticais classificadas como ‘inovadoras’, sendo algumas delas respeitadas até a atualidade. Este é o caso da análise que Said Ali faz da partícula se do português, frequentemente associada ao sujeito das orações passivas sintéticas. Esta discussão é relembrada por linguistas do século XXI, como Marcos Bagno:

“Quase cem anos nos separam da primeira edição das Dificuldades da língua portuguesa, de Said Ali, publicada em 1908. Nesta obra, enriquecida em 1919 com seis novos capítulos, o grande filólogo empreende uma análise ‘límpida, lapidar e legítima’, como avalia Monteiro (1991: 148), do problema de classificação da partícula se nas orações chamadas “passivas sintéticas” ou “passivas pronominais” [...].” (BAGNO, 2001: p. 125)

“Atribuir ao se a função de sujeito é possível, segundo Said Ali, ‘se fizermos abstração da gramática e, procedendo unicamente à análise psicológica, considerarmos que os termos psicológicos só têm que ver com as ideias que as palavras atualmente simbolizam (1919:147).’” (BAGNO, 2001: p. 125)

Dessa forma, os materiais principais de análise selecionados para a presente pesquisa foram:

 BELLO, Andrés (1781 – 1865). Gramática de la lengua castellana destinada al uso de los americanos. Madrid: Imprenta de la biblioteca económica de educación y enseñanza, 1853 [1847].

 SAID ALI, Manuel (1861 – 1953). Dificuldades da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1919[2ª edição - revista pelo autor].

A seleção que fizemos procura colocar em foco os diálogos com a tradição presentes nas obras gramaticais de Bello e Said Ali, levando em conta o forte impacto de seus textos na consolidação de estudos gramaticais no contexto americano de falas portuguesa e castelhana.