APRENDIZAGEM EM CIÊNCIAS: POSSIBILIDADES PARA A
ALFABETIZAÇÃO EM NUTRIÇÃO
Há escolas que são gaiolas e há escolas que
são asas. Escolas que são gaiolas existem
para que os pássaros desaprendam a arte do
voo. [...] Escolas que são asas não amam
pássaros engaiolados. O que elas amam são
pássaros em voo. Existem para dar aos
pássaros coragem para voar. Ensinar o voo,
isso elas não podem fazer, porque o voo já
nasce dentro dos pássaros. O voo não pode
ser ensinado. Só pode ser encorajado.
(RUBEM ALVES)
Ensinar, indiscutivelmente, não é uma tarefa fácil o que torna o ofício do
docente uma atividade altamente complexa, pois além do conhecimento específico da
Ciência ensinada, o professor precisa estar ciente dos processos psicológicos e
cognitivos que conduzem a aprendizagem de forma a desenvolver estratégias de ensino
que possam fomentá-la, além de preparar o aluno para, partindo das ideias e conceitos
científicos, exercer seu direito e dever cidadão.
Entretanto, de acordo com Krasilchik (2004), o professor, muitas vezes, por
insegurança gerada no processo de formação – inicial ou continuada - ou comodismo,
restringe sua atuação a apresentar aos alunos, com o mínimo de modificações, um
material previamente confeccionado por autores de renome, aceitos como autoridades,
apoiando-se em materiais planejados e produzidos em escala industrial – como os livros
didáticos- abrindo mão de sua autonomia, tornando-se um mero técnico.
A determinação de uma estratégia de ensino deve estar vinculada aos objetivos
educacionais. Se o que se espera é a formação de um cidadão autônomo, crítico e
reflexivo, capaz de transformar e compreender as inter-relações entre a Ciência, a
Tecnologia, a Sociedade e o Ambiente, de forma a analisar a realidade em que está
inserido, tais como sua saúde e qualidade de vida, não podemos restringir o processo de
ensino e aprendizagem à transmissão de conteúdos prontos, pautados em uma Ciência
imutável, baseada no modelo de ensino tradicional.
Partindo dessa premissa, as oficinas pedagógicas caracterizam-se como uma
estratégia de ensino e aprendizagem que podem promover a Alfabetização Científica,
pois é pautada na realização de tarefas coletivas, por meio da promoção de investigação,
ação e reflexão, integrando o conhecimento teórico com sua aplicação concreta
(REGINA, 2014). Na oficina, há a aproximação do aluno com o objeto de estudo a
partir da problematização pautada no pensar, sentir e agir. Assim, ao se idealizar uma
oficina, as atividades propostas objetivam promover a reflexão.
Nessa perspectiva, Paviani e Fontana (2009) afirmam que as oficinas
pedagógicas propõem a vivência e experiência de situações significativas para o aluno,
relacionadas com a realidade do mesmo e da comunidade escolar, sendo, portanto, uma
estratégia que muda o foco de uma aula tipicamente tradicional, uma vez que incorpora
a ação e a reflexão com base em situações reais.
As oficinas promovem um tempo e espaço no qual se busca a solução para um
dado problema tendo como base conhecimentos práticos e teóricos afins, o que requer
trabalho em equipe, ação e reflexão (MARCONDES, 2008). Nesta estratégia de ensino,
pautada nos referenciais teóricos e epistemológicos construtivistas, o aluno é ativo na
própria aprendizagem, cabendo ao professor acompanhá-lo no processo de construção
do conhecimento, pois o docente não vai ensinar o que sabe, mas vai oportunizar o que
os alunos precisam saber sem que haja uma dicotomia hierarquizada entre discente e
docente (CASTELLANO, COCO, 2006; PERKINS, 1995; PAVINAI, FONTANA,
2009).
Ainda, nas oficinas pedagógicas a aprendizagem se dá por intermédio da
problematização, contextualização e interdisciplinaridade, permitindo que o aluno reflita
sobre as próprias ideias, conceitos e conhecimentos, correlacionando diferentes pontos
de vista em um processo de ação-reflexão-ação, o que vem ao encontro da proposta de
Alfabetização Científica apontada por Sasseron e Carvalho (2008).
Para Vieira e Volquind (2002), as oficinas pedagógicas devem ser pautadas em
três pressupostos: (a) o processo pedagógico de intervenção didática em que o professor
é o mediador no processo de construção do conhecimento; (b) a reflexão teórico-prática,
que possibilita a concretização da teoria na prática; (c) a relação interdisciplinar, que
almeja a unidade do saber. Dessa forma, a caracterização das oficinas pedagógicas,
segundo Ander-Egg (1991), está pautada em cinco princípios pedagógicos:
(I) O “aprender fazendo”, que objetiva aproximar o aluno da realidade, por
meio da contextualização e problematização, superando a segregação da
relação teórico-prática do conhecimento o que pode fomentar a reflexão
e a compreensão holística da realidade, o que fomenta a percepção das
relações CTS/A.
(II) A cooperação, pois a estratégia didática propõe o trabalho colaborativo
como necessário para a análise e previsão de solução para a problemática
proposta, promovendo o intercâmbio e respeito as múltiplas ideias. Além
disso, o caráter coletivo imposto auxilia os alunos no desenvolvimento
dos indicadores de Alfabetização científica, uma vez que promove o
diálogo e a formulação de hipóteses, questionamentos e argumentos.
(III) A pedagogia da pergunta e resposta, pois entende que o conhecimento
não é transmitido e acumulado, mas sim, consequência das investigações
científicas, pautadas na capacidade de interrogar e levantar hipóteses,
além de conduzir observações, experimentos e experiências analíticas, o
que também promove a alfabetização científica.
(IV) A interdisciplinaridade, dada a complexidade da realidade e de suas
dimensões, o que conduz a uma perspectiva CTS/A.
(V) É coparticipativa, pois compreende que tanto os alunos quanto os
professores integram o contexto da problemática estudada, sendo o
professor o mediador do processo de ensino e aprendizagem,
responsável pela visão integradora, e não um mero provedor de respostas
corretas.
Partindo destes pressupostos, Vieira e Volquind (2002), indicam que as oficinas
pedagógicas podem ser preparadas em três passos: a contextualização, a planificação e a
reflexão. A contextualização objetiva discutir a temática, sendo o momento no qual o
professor propõe o tema, estimula a discussão, observa e avalia os conhecimentos
prévios dos alunos quanto à temática, delimita quais precisam ser trabalhados durante as
oficinas para que estes sejam capazes de desenvolvê-la (REGINA, 2014).
Na planificação, os alunos realizam a investigação da situação-problema
mediados pelo professor, determinando, inclusive, qual é a melhor forma de investigar a
situação. Os alunos devem socializar os resultados obtidos, propor quais seriam as
possíveis soluções para a situação-problema, e decidir quais medidas serão aplicadas
para que possam ser construídos os recursos necessários (ANDER-EGG, 1991).
A etapa da reflexão propõe a sistematização dos conhecimentos produzidos,
levando os alunos à auto avaliação da oficina, o que exige um aprofundamento das
inter-relações entre a teoria e a prática (situação-problema). Este momento oportuniza
que os alunos reflitam de forma holística sobre os problemas e as soluções, bem como
sobre os resultados alcançados, os limites e a possibilidade de novas investigações
(REGINA, 2014).
Dessa forma, o trabalho docente por meio de oficinas pedagógicas requer, além
do conhecimento específico da disciplina de atuação, os conhecimentos
epistemológicos, os didáticos e os pedagógicos, imprescindíveis a formação inicial de
professores.