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As Opera¸c˜ oes Compostas e a Helicidade dos Nanotubos

1 Fundamentos Te´ oricos

1.3 Nanotubos de Carbono

1.3.4 As Opera¸c˜ oes Compostas e a Helicidade dos Nanotubos

Sabe-se que todas as transla¸c˜oes m´ultiplas de ~T s˜ao opera¸c˜oes de simetria do nanotubo.[25] No entanto, para ser mais geral, ´e necess´ario considerar que qualquer vetor de rede

1.3 Nanotubos de Carbono 31

com p e q inteiros quaisquer, da folha de grafeno ser´a tamb´em uma opera¸c˜ao de simetria do nanotubo quando esta se enrola. De fato, a opera¸c˜ao de simetria que surge desse vetor ~tp,q ser´a traduzida como uma rota¸c˜ao em parafuso do nanotubo. As rota¸c˜oes em

parafuso podem ser descritas como uma rota¸c˜ao simples de um ˆangulo φ (Rφ) e uma

transla¸c˜ao ~τ na dire¸c˜ao axial do nanotubo. ´E comum representar essas opera¸c˜oes pela nota¸c˜ao {R|τ}.[4, 26]

O vetor de transla¸c˜ao ~tp,q pode ser tamb´em escrito em termos das suas componentes

na dire¸c˜ao dos vetores de rede dos nanotubos ~Ch e ~T como

~tp,q= ~tu,v = (u/N ) ~Ch+ (v/N ) ~T , (1.4)

onde u e v s˜ao dados por

u = (2n + m)p + (2m + n)q dR

(1.5) e

v = mp − nq. (1.6)

Os n´umeros de u e v podem assumir quaisquer valores inteiros, positivos ou negativos. As rota¸c˜oes em parafuso do nanotubo associados ao vetor de rede do grafeno ~tu.v pode

ent˜ao ser escrito como

~tu,v = {CNu|vT/N}, (1.7)

onde Cu

N denota uma rota¸c˜ao de u(2π/N ) ao redor do eixo principal do nanotubo e

{E|vT/N} ´e uma transla¸c˜ao de vT/N ao longo do eixo do nanotubo, com E sendo a opera¸c˜ao de identidade. Fica claro que se {Cu

N|vT/N} ´e uma opera¸c˜ao de simetria do

nanotubo, ent˜ao {Cu

N|vT/N}s, para qualquer valor inteiro de s tamb´em ´e uma opera¸c˜ao

de simetria. Assim, j´a que {Cu

N|vT/N}N = {E|vT }, onde vT ´e sempre uma transla¸c˜ao

pura do nanotubo, o n´umero de hex´agonos N assume o papel da ordem do eixo de rota¸c˜ao em parafuso {Cu

N|vT/N}.

Partindo dessa opera¸c˜ao de simetria, a estrutura do nanotubo pode ser constru´ıda usando um n´umero pequeno de ´atomos (entre 2 e 2N ). Para isso, ´e necess´ario escolher dois vetores n˜ao-colineares {Cu1

N|v1T /N } e {C u2

N|v2T /N }. 1 A ´area da superf´ıcie cil´ındrica

do nanotubo que ´e delimitada por esses dois vetores n˜ao co-lineares pode ser compreen- dida como uma c´elula unit´aria reduzida do nanotubo. O n´umero de ´atomos nessa c´elula

1Dois vetores s˜ao colineares se existe um par de inteiros s e l diferentes de 1, para os quais lu

1 =

unit´aria reduzida ´e dado por 2|~tu1,v1 × ~tu2,v2| |~a1× ~a2| = 2|v2u1− u2v1| N . (1.8) ´

E importante frisar que, nesse caso, o nanotubo n˜ao pode mais ser descrito como um sistema 1D, e sim como um sistema com duas dimens˜oes de quasi-transla¸c˜oes, geradas pelos dois vetores de rota¸c˜ao em parafuso escolhidos.

Existem v´arias combina¸c˜oes de vetores de rota¸c˜ao em parafuso que podem ser utili- zadas para a constru¸c˜ao do nanotubo. Essas combina¸c˜oes podem ser divididas em quatro categorias:

• Helical-helical - ´E a constru¸c˜ao na qual dois vetores quaisquer n˜ao co-lineares s˜ao escolhidos;

• linear-helical - ´E a constru¸c˜ao em que um dos vetores escolhidos est´a alinhado com a dire¸c˜ao axial do nanotubo ~T , enquanto ou outro ´e um vetor qualquer;

• helical-angular - ´E a constru¸c˜ao na qual um dos vetores est´a alinhado com a dire¸c˜ao da circunferˆencia do nanotubo ~Ch enquanto o outro ´e um vetor qualquer;

• linear-angular - ´E a constru¸c˜ao na qual um dos vetores est´a alinhado com a dire¸c˜ao axial ~T e o outro alinhado com a dire¸c˜ao circunferencial ~Ch.

´

E interessante ressaltar que a representa¸c˜ao linear-helical do nanotubo mant´em a simetria translacional do nanotubo. Sendo assim ´util no estudo das propriedades de simetria dos nanotubos de carbono com o formalismo dos grupos dos vetores de onda. Por isso, desenvolveremos essa representa¸c˜ao em detalhes na pr´oxima sess˜ao. As demais constru¸c˜oes est˜ao discutidas em detalhes no artigo de revis˜ao da Referˆencia [27].

1.3.4.1 Constru¸c˜ao linear-helical

A constru¸c˜ao linear-helical ´e obtida escolhendo o vetor de transla¸c˜ao ~T para ser um dos vetores utilizados para construir o nanotubo e um outro vetor de rota¸c˜ao em parafuso qualquer, escrito da forma {Cu

N|vT/N}. Nesse sistema, o vetor de transla¸c˜ao ~T faz o papel

do gerador de transla¸c˜oes enquanto o vetor {Cu

N|vT/n} faz o papel de uma opera¸c˜ao quasi-

rotacional. O n´umero de ´atomos na c´elula unit´aria reduzida pode se obtido substituindo ~

T = ~t0,N na Equa¸c˜ao (1.8), resultando que o n´umero de ´atomos na c´elula unit´aria reduzida

1.3 Nanotubos de Carbono 33 NR MT T R Ch O

Figura 6: O vetor de simetria ~R = {Cu

N|vT/N}, com u = 1 e v = M, ´e mostrado sobre a

superf´ıcie cil´ındrica com origem em O. O efeito de N sucessivas aplica¸c˜oes do vetor ~R (N ~R = {Cu

N|vT/N}N) ´e ilustrado pela curva helicoidal. Ap´os caminhar de 2π ao redor

do nanotubo o vetor N ~R chega ´a um ponto da rede do nanotubo que ´e equivalente ao ponto O, mas separado do mesmo de M ~T . Nessa figura n´os mostramos o caso do

nanotubo (4,2) para o qual v = M = 6.

do vetor de transla¸c˜ao, um vetor de rota¸c˜ao em parafuso com u = 1. Substituindo u = 1 nas Eqs. (1.5) e (1.6) obt´em-se uma equa¸c˜ao para v:

v = mdR

(2n + m)− N

(2n + m)q, (1.9)

onde q ´e um n´umero inteiro que deve ser escolhido convenientemente de modo que v seja tamb´em um n´umero inteiro e que esteja dentro da c´elula unit´aria do nanotubo. Devido a simetria do nanotubo sob a rota¸c˜ao ao redor de um eixo perpendicular ao eixo do nanotubo, para qualquer nanotubo (n, m) existem dois vetores equivalentes que ir˜ao obedecer a Eq. (1.9) e que estejam dentro da c´elula unit´aria do nanotubo. Um vetor ´e obtido para q > 0 e o outro para q < 0. Esses vetores est˜ao relacionados por |v+| = N − |v|. Para evitar ambig¨uidade, se convenciona utilizar sempre o menor valor

de v. Fazendo essa escolha, n´os reproduzimos o vetor ~R definido por Saito et al.[4], onde o valor de v foi chamado de M . ´E interessante notar que M pode ser compreendido como o n´umero de c´elulas unit´arias que ´e coberto pelo vetor ~R quando este ´e aplicado N vezes, como mostrado na Fig. 6. Outra caracter´ıstica do vetor ~R ´e o fato de que o nanotubo ´e rotacionado de exatamente 2π quando o vetor ~R ´e aplicado N vezes, de modo que N ~R → M ~T . Para melhor ilustrar a a¸c˜ao do vetor ~R, mostra-se na Figura 7(a) um diagrama da c´elula unit´aria do nanotubo (4, 2). Os ´atomos vermelhos na parte debaixo representam um “motivo” de dois ´atomos que pode ser utilizado para construir o nanotubo. Tamb´em ´e mostrado um outro conjunto de dois ´atomos vermelhos na parte de tr´as do nanotubo, esses dois “motivos” s˜ao equivalentes devido `a simetria de rota¸c˜ao de 2π/d, com d = 2

Ch T R R (b) (a)

Figura 7: C´elula unit´aria do nanotubo (4, 2) com seus 56 ´atomos coloridos para uma melhor visualiza¸c˜ao da constru¸c˜ao linear-helical do nanotubo de carbono. (b) Diagrama

para a c´elula unit´aria do nanotubo desenrolado. Para facilitar a visualiza¸c˜ao, cada “motivo” com dois ´atomos foi representado por uma elipse, e colorido de acordo. ´

Atomos e elipses coloridos em vermelho representam os ´atomos no “motivo” que pode ser utilizado para a constru¸c˜ao do nanotubo. Os ´atomos cinzas representam os ´atomos que s˜ao obtidos pela aplica¸c˜ao sucessiva de ~R e os ´atomos e elipses verdes s˜ao aqueles

que s˜ao obtidos por aplica¸c˜oes sucessivas de ~R e ~T

para o nanotubo (4, 2), ao redor do eixo do nanotubo. A linha helicoidal de ´atomos cinzas representam os ´atomos que s˜ao obtidos diretamente do “motivo” de dois ´atomos aplicando o vetor ~R sucessivas vezes, enquanto os ´atomos em verde s˜ao obtidos aplicando o vetor ~R sucessivas vezes e depois translacionando o “motivo” de volta `a c´elula unit´aria do nanotubo com a aplica¸c˜ao de um m´ultiplo do vetor de transla¸c˜ao ~T . Para uma melhor visualiza¸c˜ao mostramos na Fig. 7(b) um diagrama para a c´elula unit´aria do nanotubo (4, 2) desenrolado. Nesse diagrama, o “motivo” de dois ´atomos ´e representado por uma elipse, e cada linha helicoidal de ´atomos ´e representada por uma linha tracejada. Note que o vetor ~T conecta um “motivo” nessa c´elula unit´aria (elipse vermelha) a um “motivo” equivalente na c´elula unit´aria adjacente (elipse branca).

Utilizando os vetores ~T e ~tu,v = ~R = ~t1,M como os vetores da rede real pode-se obter

express˜oes para os vetores da rede rec´ıproca do nanotubo ~κ1 e ~κ2 na constru¸c˜ao linear-

helicalem termos dos vetores ~K1 e ~K2 j´a obtidos. Para isso, observa-se que esses vetores

devem obedecer `as rela¸c˜oes ~T · ~κ1 = ~t1,M· ~κ2 = 2π e T · ~κ2 = ~t1,M · ~κ2 = 2π, o que resulta

em:

~κ1 = N ~K1 (1.10)

e

1.3 Nanotubos de Carbono 35 κ2 κ1 K1

(a)

K2

Figura 8: Espa¸co rec´ıproco do nanotubo (4, 2) projetado sobre o do grafeno. Linhas paralelas e eq¨uidistantes representam as linhas de corte para esse nanotubo. A primeira

zona de Brillouin na representa¸c˜ao linear-helical ´e mostrada em cinza-escuro. As ´areas em cinza-claro representam as zonas de Brillouin que podem ser obtidas da primeira

atrav´es da aplica¸c˜ao do vetor ~κ2 da rede rec´ıproca do nanotubo.[28]

A zona de Brillouin desse espa¸co rec´ıproco pode ent˜ao ser definida como sendo o losango delimitado pelos vetores ~κ1 e ~κ2. No entanto, como ~κ1 ´e sempre perpendicular

`as linhas de corte, ´e conveniente definir a zona de Brillouin como um retˆangulo composto de N linhas de corte com tamanho 2π/T que pode ser transladado pelos vetores ~κ1 e ~κ2

para gerar todo o espa¸co rec´ıproco do nanotubo. Como a c´elula unit´aria reduzida nesse caso possui somente dois ´atomos, o espa¸co rec´ıproco do nanotubo desenrolado pode ser sobreposto ao espa¸co rec´ıproco do grafeno e todas as propriedades do nanotubo podem ser obtidas, em primeira aproxima¸c˜ao, das propriedades do grafeno. Assim, o processo de dobramento de zona (zone folding) pode ser compreendido em termos da aplica¸c˜ao das opera¸c˜oes compostas do nanotubo de carbono. A Fig. 8 mostra a estrutura rec´ıproca do nanotubo (4, 2) projetado sobre a estrutura no espa¸co rec´ıproco do grafeno. A primeira zona de Brillouin, mostrada em cinza escuro, pode ser translacionada para as zonas de Brillouin adjacentes, mostradas em cinza-claro, usando o vetores do espa¸co rec´ıproco do nanotubo (4, 2), ~κ1 = 28 ~K1 e ~κ2 = ~K2− 6 ~K1.

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