4.4 CONTEXTO – PARTE II
4.4.3 As outras influências
Quando se fala nas influências que impulsionaram o trabalho de Newton ou, até mesmo, possibilitaram seus feitos, é impossível deixar de mencionar a relevância dos estudos de Galileu Galilei (1564-1642). Para se discorrer, todavia, sobre os feitos de Galileu na chamada revolução científica, a questão do movimento precisa ser explanada.
Galileu e Descartes desempenharam um papel importantíssimo no desenvolvimento de uma nova concepção do movimento, rompendo com as tradições anteriores e aristotélicas. Descartes parecia decidido em substituir uma idéia física do movimento por uma puramente matemática. A oposição à concepção de que o movimento seria um tipo de devir era clara.
Como assinala Koyré (1965, p. 8, tradução nossa), a mudança aconteceu no campo ontológico: "[...] exatamente porque, assim como Aristóteles já sabia muitíssimo bem, não há qualidade no mundo dos números ou no das figuras geométricas. Não existe lugar para eles no domínio da ontologia matemática". Aos poucos, no campo da filosofia natural, o mundo das qualidades era substituído pelo mundo da quantidade. "Galileu inseriu essa concepção no ideal de que uma ciência adequada do movimento deveria ser matemática." (COHEN; WESTFALL, 2002, p. 271).
A compreensão de que o movimento era um processo de mudança (isto é, um devir, um vir a ser gerado pelos corpos submetidos a ele) agora enfrentava o ponto de vista dos novos filósofos naturais, os quais entendiam o movimento na classe de uma espécie de ser. O movimento não deveria mais ser visto como um processo, mas como um status (KOYRÉ, 1965). A famosa frase do atordoado Príncipe da Dinamarca parece resumir o problema do movimento no início da Era Moderna: "To be, or not to be – that is the question [...]." (SHAKESPEARE, 2005). Eis a questão, Hamlet: ou o movimento era compreendido na condição de um apêndice do devir ou como um ser no âmbito da ontologia matemática.
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Outro ponto interessante em Newton são os seus estudos alquímicos, os quais comumente geram muitíssimas controvérsias entre historiados das ciências. Por essa e outras razões, não se entra aqui em detalhes específicos desses trabalhos. No entanto, "a alquimia precisa ser vista como uma dimensão importante da vida intelectual de Newton." (COHEN; WESTFALL, 2002, p. 365). Ela foi uma parte de dedicação integral, assim como os estudos da filosofia natural e de teologia, para o professor lucasiano.
[...] como Descartes nos fala claramente, isso substitui uma noção propriamente física por uma puramente matemática, opondo-se à concepção pré-galileano e pré-cartesiana, as quais compreendiam o movimento na qualidade de uma espécie de vir a ser, bem como um tipo de processo de troca (chegar a ser) que afeta os corpos a ele submetidos; isso era contrário ao repouso, pois a nova concepção – ou clássica –interpretava o movimento como uma espécie de ser, isto é, não como um processo, mas como um status [...]. (KOYRÉ, 1965, p. 9, tradução nossa).
O "move-se, pois não é perfeito" precisaria desafiar o status de movimento implantado e indestrutível na mesma condição do repouso. O repouso passou a ter o mesmo estado ontológico que o movimento; os dois podiam influenciar diretamente os corpos em movimento, tornando-se praticamente indistinguíveis. No entanto, os dois conceitos continuaram vivos (e talvez mais vivos do que nunca), mas a distinção conceitual entre ambos se transformou em uma correspondência, uma questão de referencial. "A antiga concepção do movimento sustentava que um corpo só se move se algum agente o mover. Galileu, porém, insistiu que o movimento persevera e não precisa de agente." (COHEN; WESTFALL, 2002, p. 271).
A expressão máxima desse processo é o primeiro axioma do movimento, tão claramente desenhado por Newton: "Todo corpo persevera em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em linha reta, a não ser que seja compelido a modificar esse estado por forças imprimidas sobre ele mesmo" (NEWTON, 1934, p. 13, tradução nossa). É de todo importante perceber nessa afirmação um poder inteiramente ontológico; junto com as outras duas leis ou axiomas, Newton deu a cartada final na contribuição da criação da ciência qualitativa da dinâmica (aos moldes dos modernos).
De acordo com Whitehead (2002, p. 304):
A primeira lei do movimento pergunta o que se deve dizer de um sistema dinamicamente isolado no que concerne a seu movimento como um todo, abstraindo-se sua orientação e o arranjo interno de suas partes. Aristóteles dizia que se devia conceber que tal sistema estaria em repouso. Galileu acrescentou que o estado de repouso era apenas um caso particular.
Segundo o exemplo dado por Koyré (1965), entende-se que o primeiro axioma do movimento não diz respeito à experiência possível, ou melhor, não encontra seus traços na vida cotidiana. Newton se referia aos corpos geométricos no espaço abstrato. "Essa é a razão por que não há nada a ver com a mudança. O movimento dos corpos geométricos no espaço geométrico não se modifica em nada; os lugares em tal espaço são equivalentes ou, até mesmo, idênticos." (KOYRÉ, 1965, p. 10, tradução nossa).
Era uma mudança sem mudança, e ela não foi uma questão simples de ser assimilada. Sua estranheza gerou muita controvérsia, principalmente por parte de platônicos e aristotélicos. Na verdade, ela é um ponto de compreensão muitíssimo pesada na física clássica; é possível encontrar, ainda hoje, um grande obstáculo no que se refere ao seu ensino, uma vez que não são poucos os alunos que apresentam dificuldade em assimilá-la.
Segundo Koyré (1965, p. 4-5, tradução nossa):
É possível que o sentido e o propósito mais profundos do newtonianismo (ou melhor, de toda a Revolução Científica do século dezessete, da qual Newton é o herdeiro, bem como a mais alta expressão) sejam o de exatamente abolir o mundo do "mais ou menos", o mundo das qualidades e das percepções dos sentidos, o mundo da apreciação da vida cotidiana, substituindo-o pelo universo (Arquimediano) da precisão, das medidas exatas, da determinação rígida.
Como se sabe muito bem, a primeira lei do movimento é o xeque à concepção aristotélica. Talvez não se possa usar o termo xeque-mate, porque a concepção aristotélica do movimento não foi derrubada no seu todo, mas sim aos poucos deixada de lado.
Assim é fácil perceber a importância da ciência galileana no contexto de desenvolvimento da física de Newton. Na verdade, ela pode ser apontada como um dos princípios da nova ciência da mecânica, que propunha a mudança de estado ontológico do movimento. Sem dúvida o jovem Newton, durante seus estudos em Cambridge, deu toda a atenção para a perspectiva de Galileu a respeito do movimento.
Como todos sabem, não havia na ciência de Galileu uma dinâmica sólida que pudesse descrever corretamente as forças causais. Eis outro grande problema enfrentado pelos filósofos naturais da Era Moderna: a justificação causal dos movimentos. Esse era um caminho duro a ser trilhado, e Newton tinha total consciência desse problema, tanto que a ciência da dinâmica dele possui não apenas um, mas vários reflexos decorrentes disso.