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O escritor e filósofo francês Didier Eribon (2008) defendeu a hipótese de que todo homossexual, em algum momento de sua vida, foi ferido pela injúria, direta ou indiretamente, associando-se este momento à categoria de um evento traumático. Não o fato de se reconhecer dessa forma, mas a rejeição do meio a esta possibilidade de vivência amorosa, que poderia acarretar a criação e manutenção de defesas psíquicas perante a homofobia. Já ter que viver sob disfarce, por sua vez, poderia ocasionar angústias duradouras, estruturas rígidas de defesa, inclusive o preconceito internalizado, fato já revelado por pesquisas (DEUS, 2014).

Há que dimensionar o efeito curativo do gueto, de um ou vários grupos de amigos afins perante a orientação sexual, espaço de relaxamento, de socialização de afetos, de agregação e sentimentos de pertencimento, da possibilidade de vivenciar a expressão que não precisa ser escondida, negada ou disfarçada (NUNAN; JABLONSKI, 2002). Conhecer e entender o desenvolvimento de sua história e, assim, desmistificar estereótipos, como o de que homossexuais,

principalmente os masculinos, são mais afeitos à promiscuidade, evidenciando completo desconhecimento da existência de muitos casais longevos (PAIVA, A. C. S., 2006). Ou, até mesmo, compreender por que alguns gays se subjetivam justamente com a apropriação de características estereotipadas, tornando-se enfrentadores do status quo vigente e, muitas vezes, suas maiores vítimas (MOTT, 2006).

Se a sociedade é o espelho que, ao nos refletir, nos permite nos inteirar em nós mesmos e ante o pertencimento humano, o fato de uma pessoa ser identificada como alguém diferente, que rompe os padrões instituídos, que deflagra sentimentos hostis primitivos, pode vir a causar fraturas em sua autoestima a ponto de a única saída ser o seu desaparecimento (TOLEDO; PINAFI, 2012). Porém, pela via oposta, pode também favorecer o protagonismo de uma existência única, regida por suas próprias escolhas – a experiência clínica mostra que ainda é evidente a pressão para que os filhos se casem convencionalmente e gerem netos, sendo geralmente rejeitada a opção homossexual de seus rebentos, mesmo com uma parentalidade medianamente jovem e bem preparada intelectualmente.

Já no caso de homossexuais masculinos e lésbicas sem discordância aparente entre sexo e gênero, o nível de estresse sofrido por esta população, como um todo, está presente a cada momento no que tange ao dilema sobre se vale ou não se revelar. À família, aos amigos, à escola; no trabalho, ao médico, psicoterapeuta, ao objeto de desejo, como fazê-lo? De que maneira enfrentar a possibilidade de não aceitação do que, para si, é o que há, talvez, de mais verdadeiro? (SEDGWICK, 2007).

A ocultação das vivências gays, em contrapartida, faz com que essas pessoas tenham a possibilidade de conhecer e, portanto, de se confrontar com discursos e posturas preconceituosos daqueles que com elas têm convívio afetivo, trazendo angústia pela possibilidade de rejeição e de perda dos laços sociais. A homofobia está ali, presente em frases que denotam ofensas claras e unívocas.

Isso se dá em diversos âmbitos, para os que tiveram relações heterossexuais anteriores, com filhos e família extensiva, para os adolescentes e jovens ainda tateantes quanto à descoberta de sua sexualidade, para os gays idosos e economicamente desfavorecidos, que não encontram abrigo nas instituições públicas, hostilizados tanto por homens quanto por mulheres, bem como nos caminhos profissionais – qual mãe deixaria seu jovem filho se consultar com um

psicoterapeuta assumidamente gay? Ou sua filha adolescente com uma ginecologista lésbica? E professores, da pré-escola à universidade? Enfermeiros? Treinadores esportivos? No Brasil do século XXI, criou-se polêmica generalizada quando uma novela de televisão permitiu que dois personagens de mesmo sexo se beijassem - mesmo somente colando seus lábios, sem maior intimidade. Expressar espontaneamente o seu afeto, então, é impensável. Pulularam agentes repressores, na forma de religiosos e políticos a combater o que chamaram de divulgação da indecência. Daí fazer todo o sentido o ponto de vista trazido por A. C. S. Paiva (2007, p. 25), segundo o qual a não enunciação de si, justamente, é uma das formas “... de resistir ao assujeitamento, ao discurso e ao olhar do outro”, de resguardar uma esfera que é privada, não a revelando publicamente. Esta é uma especificidade do viver gay que precisa ser conhecida e dimensionada, porque pode vir a ser interpretada como o não dito que não é assumido, não considerando que, ao contrário, esta é uma estratégia de sobrevivência que vem a indicar qualidade de adaptação.

Talvez o clima acirrado a favor ou contra esta possibilidade afetiva esteja baseado na ignorância da sociedade sobre o assunto, já que foram muitos os anos de repressão e pouco o tempo a ter este assunto como objeto de discussões sociais, médicas, jurídicas, psicanalíticas, psicológicas, antropológicas, culturais, entre outras abordagens possíveis. Mas podemos também dizer que há uma resistência imensa ao querer inclui-los, e isso, como já visto, desde Kinsey, lá no final da década de 1940 do século passado.

Isso torna o tema complexo, inserido na interface entre a psicologia clínica e a psicologia social, já que a homossexualidade tem, em si, o duplo aspecto de ser vivenciada na particularidade, tendo, contudo, representação social. Representação esta que tem que ser transformada, pois mulheres e homens homossexuais se relacionam em interações de afeto e de comprometimento, criam famílias reconstituídas ou planejadas, vivenciam paixões, amores, separações, perdas... Experiências de vida que necessitam ser conhecidas, e não estranhadas, para que a sociedade alcance maior qualidade de inclusão de seus integrantes, e os profissionais de saúde e educação adquiram conhecimentos que lhes propiciem pertinência no atendimento desta população. Mais do que isso, ir além dos modelos conjugais heterossexuais pode vir a trazer muitas contribuições para a família, de modo geral, como mais flexibilidade, menos projeção parental e respeito ao outro e à sua singularidade.