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3. Sensibilidades adornadas: Tikal Babado e Pai Amor

3.2 Vozes das Margens

3.2.2 As performances do Corpo e da Sexualidade

no me vestir. Só o fato de eu me vestir no feminino, com roupa de mulher já é barril. Eu sou assim porque gosto. (Entrevista realizada com Pai Amor. 23/10/2018).

A essa noção de gêneros, Judith Butler afirma ainda que:

Se o gênero são os significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, não se pode dizer que ele decorra, de um sexo desta ou daquela maneira. Levada a seu limite lógico, a distinção sexo/gênero sugere uma descontinuidade radical entre corpos sexuados e gêneros culturalmente construídos. Supondo por um momento a estabilidade do sexo binário, não decorre daí que a construção de “homens”

aplique-se exclusivamente a corpos masculinos, ou que o termo

“mulheres” interprete somente corpos femininos. (BUTLER, 2003, p.

24).

Portanto, o fato de ser visto como alguém efeminando não deve ser necessariamente dado a um corpo que antes é masculino, do mesmo modo que as feminilizações não são inatas nem ao corpo feminino, nem ao masculino de forma estanque. Dentro da nossa cultura, esses sistemas assimilacionistas são, sim, projetos que visam concretizar as facticidades do corpo adornado com base nas atribuições estabelecidas, anteriormente, de seus ditos sexos e gêneros harmoniosos.

nem ligo. As pessoas associam logo a homossexualidade. Mas pode ser travesti, não é mesmo? (Entrevista realizada com Tikal Babado.

23/10/2018).

Eu usava muito ... olha, eu usava de tudo, usava argola, anel, brinco.

Anéis? Eu adoro anel, cada dedo tem que ter um anel e com pedras diferentes. Assim como o médico tem a pedra branca, garimpeiro tem a pedra verde, advogado a pedra azul, eu tenho esses anéis todos numa mão só, com várias pedras diferentes. O que eu mais gosto é de anéis.

Um anel que combine bem bonito com uma roupa. Odeio gargantilha no pescoço. Acho que por usar essas coisas sempre me chamaram de viadinho, já fui xingado de tudo quanto é nome. Eu revidava. Eu gostava porque com as roupas que eu usava eles me chamavam no feminino, mesmo que fosse pra me atingir. (Entrevista realizada com Pai Amor. 23/10/2018).

Nesse debate sobre o sexo, segundo Michel Foucault (1999b, p. 145), acaba por torná-lo o elemento mais especulativo, mais ideal e igualmente mais interior, num dispositivo de sexualidade que o poder organiza em suas captações dos corpos, de sua materialidade, de suas forças, suas energias, suas sensações, seus prazeres. O que o recorre participante das relações de poder engendradas nas formulações de sexualidade biologicistas, naturais, inatas, e que acaba por abordá-las na perspectiva despótica que

funciona de acordo com técnicas móveis, polimorfas e conjunturais de poder (FOUCAULT, 1999b, p. 101).

Sem dúvida alguma, podemos incrustar as contribuições de Michel Foucault ao dizer que:

A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico:

não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, encadeiam-segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. (FOUCAULT, 1999b, p. 100).

Na relação com o poder e o dispositivo abordado por Michel Foucault, nossxs personagens apresentam essa dimensão que perpassa sobre seus corpos, apontando sobre os discursos que lhes fazem sobre ser (ou querer ser) isso ou aquilo. Na medida em que vão alertando sobre os controles que os circundam e como essas práticas de dominação e poder vão operando na regulação de suas práticas e experiências, vão tornando o discurso sobre suas existências enquanto fatores necessários para provocar a reflexão no entorno dos preconceitos.

E se considerarmos que a vestimenta sagrada ou profana, religiosa ou civil faz com que o indivíduo entre no espaço fechado do religioso ou na rede invisível da sociedade, veremos então que tudo o que concerne ao corpo - desenho, cor, coroa, tiara, vestimenta, uniforme tudo isso faz desabrochar, de forma sensível e matizada, as utopias seladas no corpo. (FOUCAULT, 2013, p. 13).

As provocações ou choques que as vestes e acessórios de Babado e Amor nos revelam é justamente sobre os lugares que lhes foram atribuídos, pensando, assim, sobre os processos de marginalização aos quais alguns sujeitos são designados. Essa discussão retoma o que Foucault diz sobre os lugares que a sociedade dispõe em suas margens, nas paragens vazias que a rodeiam, são antes reservados aos indivíduos cujo comportamento é desviante relativamente à média ou à norma exigida(FOUCAULT, 2013, p. 22).

Para Tikal, há em diversos momentos questionamentos (aparentes ou não) sobre sua sexualidade, visto por muitos com muito carinho, mas que em certos momentos alguns, que segundo elx, não aprovam o modo como se adorna, o que reforça mais uma vez que o sentido das vestes está para além de cobrir o corpo (CIDREIRA, 2005). A roupa pode provocar diferenciados modos de sentir a partir do corpo que a compõe. A roupa vai provocar esses sentimentos de si e do outro, conformando um conjunto perceptivo.

Em Amor, o questionamento surge de forma similar, mas de acordo com suas palavras, o fato das pessoas x enquadrarem enquanto loucx, promove um sentimento de desprezo e que pode ser observado como mais um maquinário de julgamento e exclusão. A máquina social constrói aqueles/as que são loucos, anormais, dissidentes e estas categorias punitivas e vigiadas, já acentuadas por Foucault (1999a), são aqui debatidas nesse esforço de envolver o sujeito em suas formas perceptivas, não somente porque seus corpos adornados denunciam tais construtos irregulares, mas porque suas próprias lutas políticas são abordadas pelos caminhos que a sensibilidade nos propicia.

Imagem 23: Balanços sensíveis do perceber

Fotógrafa: Silvia Leme (2019)

Segundo a autora queer Berenice Bento, o sentido que se atribui às roupas e aos acessórios liga-se a um campo mais amplo de significados que extrapola a idéia de um

‘gosto pessoal’, vinculando-se às normas de gênero que estabelecem determinadas formas de cobrir o corpo-sexuado (BENTO, 2006, p. 162-163). Desse modo, as lógicas operadas sobre o vestuário serão indicadas, na maior parte das vezes, pela lógica binária e reiterativa de seus usos e que, consequentemente, vincularemos as formas de vestir de cada sexualidade sempre no apoio dos gêneros como forma de controlar os corpos e reproduzir as normas.

E mesmo apontando para uma problematização em que venhamos a negar a roupa como determinando o sexo ou o gênero, sabemos que essas lógicas determinantes às formas de cobrir o corpo vão ser atravessadas por tais questionamentos. Ou seja, a roupa estará vinculada a uma ideia em que o/a outro/a será julgado como viado, sapatão, hétero, etc. por justamente nos apontar o que a autora Berenice Bento trás em suas reflexões e que são determinadas pela ampla dimensão social em que são atribuídas as roupas.

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