Como o sujeito, a linguagem e os sentidos são incompletos, “não há sentido sem repetição, sem sustentação no saber discursivo” (ORLANDI, 2015, p. 36). Assim sendo, para produzir sentidos é preciso haver repetição; é preciso reiterar o pré-existente para instituir o novo. Portanto, para Orlandi (2015) existem três formas de repetição do processo de autoria:
a. a repetição empírica (mnemônica) que é a do efeito papagaio, só repete; b. a repetição formal (técnica) que é um outro modo de dizer o mesmo; c. a repetição histórica, que é a que desloca, a que permite o movimento porque historiciza o dizer e o sujeito, fazendo fluir o discurso, no seus percursos,
60 trabalhando o equívoco, a falha, atravessando as evidências do imaginário e fazendo o irrealizado irromper no já estabelecido (p. 52).
As perguntas inusitadas, baseadas em conceitos da AD, seriam então, uma repetição histórica, que permite o deslocamento dos sentidos, o deslize, o sentido outro, aquilo que foge. Além disso, o modo de funcionamento da linguagem, segundo Orlandi (2015), se baseia na tensão entre processos parafrásticos e polissêmicos.
Os processos parafrásticos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória. A paráfrase representa assim o retorno aos mesmos espaços do dizer. Produzem-se diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado. A paráfrase está do lado da estabilização. Ao passo que, na polissemia, o que temos é deslocamento, ruptura de processos de significação. Ela joga com o equívoco (p.34).
A polissemia, que permite o rompimento, o deslize, o sentido outro, é a base para a construção das perguntas inusitadas. No processo de produção de novos sentidos sobre determinado conceito, o(a) aluno(a) se vê diante de alguma questão - que para ele(a) faz todo sentido- e então a faz para o(a) professor(a) na tentativa de ressignificar seus sentidos.
Outro ponto importante que nos ajuda a delinear as perguntas inusitadas é a diferença do que é criatividade de produtividade. Para Orlandi (2015), a produtividade é a reprodução de processos já estabilizados, o retorno ao mesmo, o dizível. No entanto, ela define a criatividade como: “ruptura do processo de produção da linguagem, pelo deslocamento das regras, fazendo intervir o diferente, produzindo movimentos que afetam os sujeitos e os sentidos na sua relação com a história e com a língua. Irrompem assim sentidos diferentes (ORLANDI, 2015, p.35)”.
Pensando no contexto da sala de aula e no modo de se considerar os sentidos, as perguntas marcadas pela produtividade seriam aquelas que questionam o mesmo, o já estabelecido, o repetível. Seriam, por exemplo, perguntas como: quantos elétrons têm o Fe2+?
Qual a reação da fotossíntese? São questionamentos que os(as) estudantes nos fazem repetindo ou reiterando uma questão com base nos dizeres do(a) professor(a), do livro didático, de uma vídeo-aula, de um filme ou até solicitando informações que eles(as) precisam naquele momento e não querem/podem/têm condição de pesquisar.
Já as perguntas inusitadas são processos criativos que deslocam os sentidos. Orlandi (2015, p.36) afirma que “para haver criatividade é preciso um trabalho que ponha em conflito o já produzido e o que vai-se instituir. Passagem do irrealizado ao possível, do não-sentido ao sentido.” Isto é, são aquelas perguntas que surgem do conflito entre o que o(a) aluno(a) já sabe, do mesmo, do parafrástico e o novo, o desconhecido, o desafio, o não-sentido, o polissêmico.
61 Por exemplo: “O que acontece se todo mundo da Terra pular junto ao mesmo tempo?”; “Se os cientistas não conseguem ver nem o átomo, como eles sabem que o elétron existe?” etc.
Vale destacar também que o que é inusitado depende do processo de enunciação. Para alguns, em determinadas situações pode ser inusitada e para outros não. Isso depende das condições de produção em que a pergunta é feita e da interação entre os interlocutores.
Para a AD, a enunciação é a “emissão de um conjunto de signos que é produzido da interação de indivíduos socialmente organizados. A enunciação se dá num aqui e agora, jamais se repetindo. Ela se marca pela singularidade” (BRANDÃO, 2012, p. 106). Portanto, embora tenhamos delineado o que são as perguntas inusitadas, seus sentidos serão diferentes para os diferentes sujeitos nas diversas formas de enunciação.
Como essa pesquisa trata das perguntas feitas no contexto escolar e compreendemos que o discurso é “efeito de sentidos entre interlocutores” (ORLANDI, 2015, p.67), dissertaremos a seguir sobre algumas considerações a esse respeito. Na perspectiva do funcionamento do discurso, Eni Orlandi (1996) o define em três tipos. São eles:
[...] o discurso lúdico é aquele em que o seu objeto se mantém presente enquanto tal e os interlocutores se expõem a essa presença, resultando disso o que chamaríamos de polissemia aberta (o exagero é o non-sense). O discurso polêmico mantém a presença do seu objeto, sendo que os participantes não se expõem, mas ao contrário, procuram dominar o seu referente, dando-lhe uma direção, indicando perspectivas particularizantes pelas quais se o olha e se o diz, o que resulta na polissemia controlada (o exagero é a injúria). No discurso autoritário, o referente está “ausente”, oculto pelo dizer; não há realmente interlocutores, mas um agente exclusivo, o que resulta na polissemia contida (o exagero é a ordem no sentido em que se diz ‘isso é uma ordem’, em que o sujeito passa a instrumento de comando) (p. 15).
Vale destacar que não existe um discurso estritamente autoritário, polêmico ou lúdico, pois estes discursos se imbricam e se articulam. E o funcionamento destes discursos na escola se dá por meio do discurso pedagógico (DP). “Em última instância, é o fato de estar vinculado à escola, isto é, a uma instituição, que faz do DP aquilo que ele é mostrando-o em sua função: um dizer institucionalizado, sobre as coisas, que se garante, garantindo a instituição em que se origina e para a qual a tende” (ORLANDI, 1996, p. 23). Desta forma, a autora caracteriza o funcionamento do discurso pedagógico, da maneira como ele se apresenta, como discurso autoritário. Isto é perceptível, por exemplo, quando “a estratégia básica das questões adquire a forma imperativa, isto é, as questões são questões obrigativas (parentes das perguntas retóricas). Exemplo: exercícios, provas, cuja formulação é: ‘Responda: ...?’. São questões diretas a que se dá o nome de ‘questões objetivas’” (ORLANDI, 1996, p.17). Em sua forma
62 mais autoritária, essas questões se individualizam em “perguntas diretas e sócio-cêntricas: ‘Não é verdade?’, ‘Percebem?’, ‘Certo?’, etc.” (ORLANDI, 1996, p.17).
As perguntas inusitadas são, então, criativas e polissêmicas, sendo caracterizadas pela repetição histórica e inseridas no discurso pedagógico. Apresentamos uma síntese sobre a proposta conceitual para o termo delineado a partir de alguns conceitos da análise de discurso (ORLANDI, 1996; 2015).
Figura 1: Síntese da proposta conceitual para o termo perguntas inusitadas