2. Construindo um percurso metodológico
3.3. Alguns olhares para as atividades dirigidas
3.3.3. As perspectivas das crianças sobre a chuva
Esta foi uma experiência não planejada previamente por mim, mas sim junto com as crianças, no processo, a partir de um livro lido para elas que tinha a chuva como enredo. Busquei apresentá-la de forma a destacar as ideias das crianças no início do trabalho, a maneira pela qual interagem com as demais crianças e com suas ideias originais e o resultado final desta interação.
O trabalho teve início em 06 de julho, numa terça-feira, já quando poucas crianças frequentavam o CEMEI em função da proximidade com o recesso e durou até o dia 08 tendo a seguinte sequência:
06 de julho: leitura da história e conversa inicial com explicitação das ideias das crianças sobre a chuva;
07 de julho: apresentação de cartaz com as diferentes ideias e produção de histórias pelas crianças;
08 de julho: ilustração do livro com socialização do resultado por meio de leitura das histórias; apresentação da explicação do livro didático.
Tudo começou com a atividade rotineira de leitura, sendo que neste dia o livro lido foi “O homem da chuva”. Antes de iniciar, perguntei se sabiam por que chovia:
Tiago: É Deus que toma banho Bruna: Tem uma torneira Barbie: É a nuvem que chora André: É o temporal
Na história, existe um homem que abre e fecha torneiras no céu, e assim, chove ou não, conforme sua vontade. Quando terminei de ler, algumas crianças disseram que era mentira, que não era assim que acontecia. A Letícia disse que olha para o céu e não vê nenhuma torneira. A Bruna pensou um pouco e retrucou que é porque fica escondida.
Podemos identificar assim, entre as crianças, diferentes concepções sobre as chuvas, ou diferentes domínios de experiências, desde aquelas que para nós remetem a um enfoque ou expressão de cunho religioso (Deus tomando banho), à fantasia (existência de torneira e nuvem chorando) ou à observação do tempo como o caso do temporal.
Percebemos também como uma história pode estimular o levantamento de hipóteses por parte das crianças assim como também a explicação, buscando a justificativa de
suas ideias como é o caso de Letícia, e de Bruna no confronto com as ideias da colega. Lembramos-nos aí neste momento, as falas de Maturana (2001) no sentido de explicitar que uma explicação só é uma explicação quando aceita por quem escuta. Quando Letícia evidenciou que olha para o céu, mas não vê torneira alguma, Bruna precisou pensar e encontrar elementos que a ajudassem a melhor explicar sua ideia, reformulando a experiência de forma que Letícia ficou sem palavras a partir daí, ou seja, sem condições de refutar a ideia da amiga, ainda que não concordasse com ela.
No dia seguinte (07 de julho) aproveitei a conversa do dia anterior e preparei um cartaz com as falas das crianças e algumas ideias do livro e li para elas. Como percebi o envolvimento das crianças com a questão e a possibilidade frutífera de exploração, devido ao fato de possuírem posicionamentos distintos, sugeri uma continuidade com a criação de livros pelas crianças. Eu acreditava que para criar seu livro, as crianças fariam justificativas e poderiam ainda surgir novas ideias.
Sugeri então o agrupamento das crianças conforme as ideias apresentadas anteriormente para que criassem seus próprios livros apresentando suas explicações sobre a formação das chuvas. No entanto, o critério amizade foi mais forte para algumas crianças no momento de agruparem-se. Bruna, por exemplo, apesar de acreditar que a chuva vem das torneiras que existem no céu, ficou no grupo da Barbie, construindo a história sobre a nuvem que chora. O mesmo ocorreu com Juezi que não quis ficar com Tiago, mas sim com Justin Bieber.
Com os grupos já formados orientei para que conversassem e pensassem em uma história que explicasse a formação da chuva. Fui passando em cada mesinha anotando suas falas e ajudando com a produção do texto:
Grupo Temporal:
Justin Bieber: São Pedro solta um poder de água e faz chover. Juezi: Jesus toma banho
André: Quando fica escura a nuvem, chove, porque o céu chora. O Jesus solta um poder e solta chuva.
A possibilidade de conversarem entre si, em pequenos grupos, e de reunirem-se crianças com ideias distintas, trouxe novos elementos para a discussão. Percebemos que no grupo do temporal, a explicação é feita apoiando-se em diferentes domínios de experiência, unindo a observação do céu, a fantasia e aspectos de uma crença religiosa: São Pedro, que faz
chover; Jesus que toma banho e o céu chorando. Destacamos também neste trecho a ideia de “poder” expressão muito característica hoje dos personagens de desenhos animados: o “poder de água”, “poder de vento”, “poder de gelo”, “poder de fogo” e tantos outros que as crianças reconstroem e utilizam durante suas brincadeiras:
As ideias de Barbie mantêm-se as mesmas e ela consegue monopolizar o grupo em torno delas. A história produzida (“A nuvem chora”) é baseada principalmente em um vídeo da personagem Moranguinho que Barbie havia assistido:
A nuvem chora
Era uma vez uma nuvem.
A moranguinho subiu no balão porque não tinha água; não pingava água na torneira; não tinha banheiro.
O passarinho falou prá moranguinho: sobe neste balão que eu vou te levar até a nuvem. Quando chegou na nuvem, pulou e falou: Chove prá dar água pros meus morangos; pra gente comer morango e pra nascer muitas flores. Chora de alegre!
A nuvem chorou e choveu; os morangos nasceram; nasceram as flores e frutas. Voltou água pro banheiro, ela fez outra casa.
Os amigos dela, ela e a Poly viveram felizes para sempre.
As amigas contribuíram com outros elementos que não contradiziam a ideia central: a falta de água no banheiro que nos remete à falta de água na casa - um problema frequente na escola e nas casas do bairro, a construção de uma nova casa e a aparição de mais um personagem do repertório principalmente das meninas: a Poly.
A falta d’água também é tema da história “O temporal” assim como a pobreza. Alguns elementos dos temporais aparecem no texto, como o escurecimento do céu, no entanto, com a ideia original da chuva a partir dos poderes de Deus e Jesus. O temporal aparece como pano de fundo para um sonho de uma vida melhor que se realiza, embora mais tarde novo problema surja - o roubo da bicicleta e a prisão:
O temporal
Era uma vez um menino que falou pro seu amigo que não tinha nada em casa, que queria sonhar com uma casa nova que tinha água, coisas prá ele comer e brincar de carrinho. Ele sonhou que estava ficando tudo escuro, não tinha mais estrela, o sol foi embora, todo mundo foi prá dentro de casa e choveu.
Quando acordaram, o sonho tinha se realizado e eles foram tomar café. O menino achou uma casa cheia de frutas; viu uma bicicleta e a roubou; ele viu outra bicicleta e pegou também; ficou andando. Veio a polícia e pegou ele.
Já na história “Deus toma banho”, elaborada por Tiago, que acabou ficando sozinho, as ideias originais aparecem e são explicadas: a água do chuveiro cai na nuvem (sem que Deus saiba) e chove. Ele apresenta a ideia de que a chuva se dá a partir da nuvem, associando o raio a este fenômeno, embora seja decorrente do banho divino, aliando assim, experiências advindas de observação e de crenças compartilhadas socialmente:
Deus toma banho
Certa vez Deus estava tomando banho e deu um raio.
Ele não sabia que estava caindo água nas nuvens. O menino olhou para o céu e viu que estava chovendo.
Quando parou de chover o menino foi brincar de carrinho, e viveu feliz para sempre.
No dia seguinte (08 de julho) levei suas histórias digitadas e impressas, divididas em várias seções, que foram coladas em páginas de cartolina. Sugeri que ilustrassem em grupos. Depois de pronto, li todas as histórias para elas.
Ao final do período, enquanto esperavam os pais, chamei-as para nosso cantinho de leitura e mostrei alguns livros didáticos de ciências que possuíam esquemas da formação das chuvas; algumas crianças logo saíram de perto, voltando às suas brincadeiras. Perguntei para as que ficaram se sabiam do que se
tratava; Maitê e Brenda explicaram o processo: a água sobe, vai até a nuvem e depois chove; disse então que aquela era a explicação que os pesquisadores davam para a formação das chuvas e perguntei o que achavam dela. Algumas não responderam e outras disseram que devia estar certo. Juntamos no cartaz as histórias lidas e um dos esquemas sobre a formação das chuvas, colocando-o em exposição no pátio da escola (figura 56).
A explicação existente no livro, apoiada em elementos da ciência, foi interpretada pelas crianças e recebida sem nenhum conflito aparente. Nenhuma apresentou
Figura 46. Cartaz colocado no pátio com
discordâncias, mas também não apresentaram interesse pelo assunto. Elas parecem aceitar a explicação como mais uma dentre tantas outras possíveis
Algumas considerações
Neste relato identificamos diferentes concepções das crianças sobre a chuva e relacionamos isso a diferentes domínios de experiências. Também podemos destacar como as crianças, apesar de apresentarem explicações diferentes, não negam o outro com base em um erro; pelo contrário, convivem bem com diferentes explicações fazendo uso delas em diferentes contextos. As explicações do livro didático aparecem também como mais uma entre tantas outras possíveis, apesar de já reconhecerem como um domínio de certeza, ao dizer que deve estar certo.
Nas relações interpessoais destacamos as amizades como um ponto muito importante para as crianças, mais até do que suas ideias originais.