Esse item foi seguramente um dos que mais gostamos quando realizamos a pesquisa. A partir dele pudemos perceber senhores e senhoras se colocando em relação ao presente e ressaltando o que consideram importante atualmente. A velha máxima de os idosos são presos ao passado, “reclamões” e ranzinzas cai por terra diante do que observamos. Não foram pessoas atrasadas as que conversamos, mas sim convictos de
suas escolhas e cientes de que suas histórias e trajetórias lhes atribui legitimidade para falar o que pensam.
Destacamos aqui três pontos que apareceram nas entrevistas: o primeiro corresponde aos relacionamentos afetivos e suas impressões quanto a esses atualmente; o segundo quanto ao modo como leem as relações sociais, sobretudo em relação à questão da importância da “palavra” e como mudaram os laços entre as pessoas, destacando a dissolução do senso de comunidade que eles dizem ter se perdido conforme os anos foram passando; e o terceiro aspecto corresponde, justamente, as novas relações que esses estão construindo no espaço e com suas famílias – filhos, netos, vizinhos, etc. Destacando, nesse sentido, a emergência do município e os novos recursos que colaboram para agilizar as suas vidas – mercados, bancos, posto de saúde, etc.
Quanto ao primeiro aspecto (as relações) se expõe um grande choque de sentidos. Para alguns dos senhores e senhoras há um grande problema posto atualmente sobre o modo como se constituem as famílias. Para outros, porém, não há. Essas diferenças são muito salientes, e proporcionam a visualização de percepções muito diferentes. Para Senhor Casemiro e sua esposa, por exemplo, a união entre os casais está cada vez mais frágil. Para eles, os casais não resistem aos sofrimentos mais simples, algo necessário para a construção de uma família. Segue o relato:
Casemiro: Agora que deu? Já o ... foi lá e deixo da muié dele e já pego umas duas, três. Mas como que anda as coisa? E a gente, como se lambeu com uma tem que fica com gosto com uma. Como é que pode, os outro pega uma e passam...
Dilse: É hoje em dia o pessoal troca muito. Que nem o senhor falou, as vezes se fica a vida inteira com a pessoa, as vezes não.
Casemiro: Eu não ia toca no assunto, mas já que você falo... Dilse: Mas pelo jeito vocês se dão muito bem né?
Madalena: Mas é... tem que se dá, não pode brigar, tem que se abraçar, se quere bem (risos). É, tem que sofre.
Casemiro: É, as veiz a gente tem alguma discutição. Mas isso tem que dá e passa. Isso não tem que um com o outro brigar. Mas sempre tem uma coisa ou outra que não dá certo, mas tem que dá. Porque que no começo deu certo. A gente sofreu, sofreu... (BANOSKI, Casemiro; BANOSKI, Madalena, entrevista para MENEGUSSO, 2012).
Outro senhor, já com o gravador desligado, afirmou achar muito estranho atualmente as pessoas se conhecerem, namorarem e até se casarem pela internet. Para ele o casamento é convívio e paciência para saber lidar com as dificuldades até o momento em que um dos dois morrer.
Por outro lado, outro Senhor afirmou achar um absurdo as pessoas se sentirem presas umas as outras. Tanto que afirma que só vive com sua esposa por consideração, mas que estão tecnicamente separados. Uma das afirmações corresponde justamente ao posicionamento quanto aos costumes antigos e como eles tornavam as pessoas infelizes, pois a pessoa tinha que ficar com a outra somente por “pose”, para não desagradar às famílias. Essa forma de viver salienta-se na medida em que observamos vários casais de idosos do local vivendo de modo conjunto, mas não partilhando suas vidas de modo integral, alguns desses não quiseram nos ceder suas entrevistas.
O segundo elemento, apareceu de modo mais ou menos sutil em todas as entrevistas. Esse corresponde à questão de como eles percebem as mudanças nos laços comunitários, ligados, sobretudo, à ideia de “palavra”. Esse aspecto toca uma ordem moral. Para os senhores há uma decadência dos valores na medida em que atualmente tudo tem que ser assinado e documentado. Isso indica uma dificuldade em compreender a necessidade de haver uma organização burocrática.
As suas trajetórias individuais sugerem a formação de um sentido de fidelidade, desenvolvido no convívio cotidiano no decorrer dos tempos. Comprar fiado e não pagar podia significar não comprar mais na vila, pois para “velhaco” ninguém vende e desse ninguém compra. Se uma conta é feita ela deve ser paga. Nas farmácias da cidade é o que mais se salienta na fala dos vendedores, a pontualidade dos idosos. Esse aspecto aparece na fala do Senhor Luiz, quando esse comenta a questão da ocupação das terras:
No começo não existia nada aqui. Era só na palavra. Te vendo tanto aí. Media, entregava. Nunca houve um desacerto num negócio assim do cara vende e depois não cumpri com a palavra. O povo se respeitava muito naquela época. Era mais amigo. Hoje já existe bastante coisa né que... o povo fica meio desamparado né. Naquele tempo não. Naquele tempo era diferente, bá! (PALHARINI, entrevista para MENEGUSSO, 2012).
No final de sua fala observamos o entrevistado pontuando a diferença entre o passado e presente. Reina entre esses a predominância do que consideram ser obrigação do indivíduo, que é não enganar. Todavia, esses ignoram, por exemplo, a realidade de que todos atualmente estão sujeitos ao crivo da burocracia e do documento. Até no
momento de pedir as suas assinaturas reinava um clima estranho, pois se estavam falando era porque concordavam em depor, achando desnecessário assinar um documento de autorização. Essas pessoas, porém, não estão presas ao passado, mas sim salientando algo que consideravam correto e importante, que são os laços morais que unem as pessoas.
O terceiro aspecto corresponde à mudança na vida desses na medida em que Bela Vista da Caroba foi deixando de se ser uma Vila isolada e passou a ser município, com todas as mudanças que esse processo proporcionou. Algo interessante ocorre nesse sentido, pois ao mesmo em que consideram desnecessários certos procedimentos, tipicamente desenvolvidos no ambiente comunitário rural, acreditam que suas vidas melhoraram em quase todos os aspectos – saúde, educação, transportes, segurança, etc.
Mas, do passado desses, permanecem os costumes, as tradições e alguns tipos de comportamentos. São relatados em suas falas os choques constantes entre o modo como as gerações mais novas constroem as suas vidas e o modo como esses constroem as suas. Ao mesmo tempo, eles também têm plena consciência de que em grande parte dos momentos são considerados atrasados. Mas nada que abale as suas convicções e o modo como permanecem se fazendo no presente e no lugar onde escolheram para construírem a sua vida: Bela Vista da Caroba. É o que bem sintetiza o sr. Alberto Moura:
O meu pensar, o meu talento, é de participa do que tem de bom. Parceria a gente sempre tem, companheiro né. E o que eu pude faze de incentivo e pra ajuda eu to disposto. Porque eu gosto daqui né. Basta dize que quando eu vendi o sítio e fiquei dois ano pagando aluguel aqui, eu não achei nada melhor (MOURA, entrevista para MENEGUSSO, 2012).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse trabalho tentou construir uma reflexão sobre as memórias de pessoas que realizaram a transição migrante e o modo como leem (lembram) a sua trajetória de vida, da Vila Carova à consolidação do município de Bela Vista da Caroba. Naturalmente, não conseguimos construir um trabalho minucioso. O objetivo não era esse.
Queríamos, quando começamos, entender, mas principalmente se contrapor, a uma ideia de idoso que faz questão de afirmar que a vida de todos foi igual, que atualmente vivem de modo igual – “tem os filhos feitos, são aposentados e estão fazendo hora extra na terra”, como dizem por aí. Ao mesmo tempo, mostrar que a ideia de que o passado passou e parece ser uma coisa eterna é equivocada.
Nesse sentido, no primeiro capítulo trabalhamos com a história da região para entendermos o contexto histórico no qual essas pessoas se inseriram. Tentamos entender as questões que permearam a vinda das famílias e as dificuldades que se fizeram presentes. Ao mesmo, mostramos as relações que esse processo fez surgir. Dentre essas as questões de ordem moral e os laços de colaboração para o crescimento e desenvolvimento do local.
As entrevistas puderam mostrar, com muita clareza, que o passado não passou e permanece se fazendo no modo como esses sujeitos constroem as suas trajetórias a partir de suas memórias. Nesse sentido, é importante compreendermos que a história de uma pessoa, lugar, país, é um processo que envolve a inserção de indivíduos diferentes, com trajetórias e percepções de mundo muito diferentes, mesmo onde tudo possa parecer semelhante e sem variações.
Na verdade, os governos, grupos políticos e grupos econômicos em grande parte dos momentos tentam fazer com que a história de um lugar seja mais ordenada do que realmente é. Daí a importância de dar voz às pessoas e valorizar as suas visões de como as coisas se passaram, pois embora sejam influenciadas pelas histórias organizadas, nas suas falas sempre aparecem elementos únicos, originados de suas leituras sobre o que se passou. As pessoas vivem experiências diferentes e também vivem as mesmas situações, mas as lendo de modo também diferente.
Também pudemos constatar que a memória possui particularidades e que os silêncios e negações sinalizam formas particulares com as quais as pessoas trabalham com o seu passado. As memórias também sofrem mudanças em relação tempo e trabalham com as características de cada contexto, selecionando e silenciando os
elementos que julgam ser mais pertinentes para a coletividade, pois foram episódios que fizeram parte suas vidas, seja nas realizações ou mesmo nas decepções.
FONTES:
ENTREVISTAS CONCEDIDAS:
BANOSKI, Casemiro; BANOSKI, Madalena. Entrevista concedida a Dilse Menegusso dos Santos. Bela Vista da Caroba, 23 de janeiro de 2013. Transcrição: Ruan Vinicius dos Santos.
PALHARINI, Luiz; PALHARINI, Geni. Entrevista concedida a Dilse Menegusso dos Santos. Bela Vista da Caroba, 10 de outubro de 2012. Transcrição: Ruan Vinicius dos Santos.
MOURA, Alberto T. Entrevista concedida a Dilse Menegusso dos Santos. Bela Vista da Caroba, 10 de outubro de 2012. Transcrição: Ruan Vinicius dos Santos.
SCHMIDT, Juraci. Entrevista concedida a Dilse Menegusso dos Santos. Bela Vista da Caroba, 27 de dezembro de 2012. Transcrição: Ruan Vinicius dos Santos.
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