2 A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL PARA O DESENVOLVIMENTO
2.1 As perspectivas teóricas das relações internacionais no eixo
O debate sobre a ajuda internacional (foreing AID) para o desenvolvimento tem sido teorizado por várias escolas e áreas do conhecimento e de várias críticas, quando analisado sob quais perspectivas e a quem realmente beneficia tal prática. Questões suscitadas são apresentadas na seguinte ordem: i) o que motiva um doador a promover tal prática? ii) quais são as expectativas de ganhos estabelecidas nesta relação? iii) a CID é de ganho mútuo ou traz contribuições em maior grau ao doador? Para trazer luz à discussão contemporânea, uma das obras que oferecem contribuições importantes para esta seara, diga-se, bastante pantanosa, é da professora Emma Mawdsley (2012), do Departamento de Geografia da Universidade
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No decorrer do trabalho ora utilizaremos a expressão ajuda externa, ora cooperação internacional para o desenvolvimento (CID). No geral, a ajuda externa se refere precisamente à ajuda dos países do Norte aos países do Sul, enquanto que a ideia de CID se trata mais dos países do Sul.
de Cambridge, reconhecida como uma das acadêmicas que mais tem se dedicado e oferece publicações relevantes à temática em questão.
A obra desta autora, e que serve de norte metodológico, em especial, é intitulada From recipients to donors: Emerging powers and the changing
development landscape, considerado como um dos primeiros livros publicados a
abordar de maneira abrangente as discussões em voga sobre a atuação dos chamados parceiros de desenvolvimento (re)emergentes e suas implicações para a governança da cooperação internacional para o desenvolvimento.
As contribuições desta autora tratam de questões conceituais, analítico- descritivas, que permeiam as teorias de relações internacionais, agregando e construindo pontes para compreender aspectos em torno da presença e comportamento relacionado às potências emergentes e sua relação e como se percebe a atuação desses atores, outrora vistos apenas na condição de receptores de ajuda e que agora ocupam um status e capacidade material sob um ponto de vista de parceria estratégica, no caso do Fundo Ibas e não de doadores. Logo, até mesmo a terminologia utilizada e autolegitimada por parte dos atores emergentes do Ibas sugere um novo olhar para os aspectos comportamentais de tempo e espaço quando se pensa na ajuda tradicional numa ótica hodierna e também futura, para o campo da cooperação internacional para o desenvolvimento.
Para se entender a práxis do Fundo Ibas, quanto a influenciar concretamente ou não os padrões conceituais em torno da ajuda internacional, as premissas desta autora são importantes quando se trata dos aspectos em torno das transformações na distribuição de poder global, colaborando para as análises conceitual, teórica, sobre os padrões contemporâneos e tendências que são trazidas para a ajuda internacional, bem como os elementos particularmente relevantes aos parceiros de desenvolvimento (re)emergentes, quais sejam, os políticos e econômicos.
Desde a década de 1970, os estudos a respeito da cooperação internacional têm sido fortemente centrados nos Estados Nacionais, repousando nestes atores a principal discussão. Fato este que é destacado por Milner (1992), como uma temática que desperta muito interesse da comunidade acadêmica nas mais diferentes áreas do conhecimento. Consequência disso, esta temática ganha cada vez mais espaço e as taxonomias que se apresentam e conversam diretamente com as teorias das relações internacionais. Logo, revisitar tais teorias, a saber, a
Realista, Neoliberal e Construtivista, contribuirão como perspectivas descritivo- analíticas ao entendimento da atuação do Estado na arena internacional.
Afirma Carmen Robledo (2015), que a importância do debate sobre a ajuda e assistência internacional ao desenvolvimento tem sido amplamente utilizada nos últimos 60 anos. É destacado por esta autora, pesquisadora da Australian National
University (ANU), que apesar das condições de mudança no cenário geopolítico e do
crescente número de novos doadores, a assistência ao desenvolvimento manteve sua relevância como debate internacional. Uma caraterística contemporânea deste novo cenário tem sido observada com a presença dos países de renda média (MICs), que até recentemente eram receptores da ajuda e hoje estão a ―rivalizar‖ com as práticas tradicionais dos doadores (ROBLEDO, 2015, p. 1).
Robledo (2015) traz contribuições quando indaga sobre os problemas domésticos e desafios, como as taxas de crescimento econômico dos países de renda média, os Middle Income Countries (MIC), termo em inglês, nos quais distribuição de renda ainda permanece desigual e, mesmo assim, tem aumentado a sua oferta de ajuda ao desenvolvimento. Como questão prioritária que em sua obra é objeto de análise, parte da seguinte pergunta: Se os países de renda média ainda apresentam desafios domésticos que precisam ser superados, por que se dedicam à prestação de serviços e assistência ao desenvolvimento? O pressuposto que assume esta autora é de que o interesse é claro e assertivo quanto aos objetivos do ator em se reafirmar como global player, impulsionando fortemente as suas políticas de Cooperação técnica sul-sul combinadas e alinhadas como ferramentas de política externa. De acordo com Abdenur e Fonseca (2013, p. 1477), ―a Cooperação técnica sul-sul tornou-se um mecanismo de política externa assertiva utilizada pelos novos doadores para ganhar influência política e econômica, que, ao mesmo tempo, está inserida num discurso de solidariedade, complementaridade e falta de hierarquia.‖
Por intermédio do estudo do modelo do Fundo Ibas, entendido neste trabalho como uma proposta alternativa ao modelo tradicional da OCDE, de CSS, a autora propõe uma análise, a qual será apoiada por uma combinação de abordagens das relações Internacionais, e, paralelamente, com uma sistematização de uma comparação quanto à natureza conceitual, como elemento embrionário de tal análise e, como um esforço maior, análise a respeito das possíveis motivações destes novos contribuintes do Sul Global. Tal metodologia contribui para estabelecer comparação das práticas tradicionais e emergentes dos doadores.
Como pretensão, este estudo tem como perspectiva cooperar para uma compreensão mais alargada sobre a dinâmica dos condutores da ajuda ao desenvolvimento, resultando na contribuição de transferência de conhecimento para a formulação de Políticas nacionais, como é tratado no capítulo. Esse, de cunho empírico, permite que seja testado o Fundo Ibas como elemento indutor e estruturante para o governo de Guiné Biussau na reelaboração de políticas públicas. Além disso, espera-se que esta tese forneça elementos para ampliar estudos similares a outros MIC que se destacam no eixo da CSS.
2.2 Conceito de Cooperação Internacional para o desenvolvimento na