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As pesquisas cognitivas sobre a mente: do formalismo à

4. SEMÂNTICA COGNITIVA: O ESTUDO DAS METÁFORAS CONCEITUAIS

4.2 As pesquisas cognitivas sobre a mente: do formalismo à

A idéia de que a mente humana opera logicamente e de que a cognição humana opera como uma máquina computadora foi basilar no início das ciências cognitivas e ainda hoje constitui um tópico de pesquisa bastante significativo na agenda dos cientistas desta área.

Um dos principais precursores do movimento cognitivo foi o estudo lógico-matemático do inglês Alan Turing, realizado nos anos 30. Utilizando a noção de algoritmo, processo ordenado por regras que indica o procedimento para resolução de problemas, desenvolveu uma máquina virtual simples que efetua uma computação e que poderia executar qualquer cálculo concebível. (GARDNER, 2003, p.32) Seu trabalho influenciou marcadamente o desenvolvimento da computação, sendo a base teórica para a criação dos computadores modernos por John von Neumann, a partir da noção de um programa de pudesse instruir a máquina de Turing a se reproduzir. Mas para Turing, seu modelo teórico ultrapassava a aplicação às máquinas, pois refletia também, ou principalmente, o modelo de funcionamento da mente humana. Para provar a hipótese de que os computadores realmente pensam, elaborou o teste de Turing, que consistia em colocar diante de um sujeito um teclado, e pedir que ele

elabore perguntas a serem respondidas por um ser humano ou por um computador.

Caso o sujeito não conseguisse identificar o remetente da resposta, uma pessoa ou um computador, então estaria comprovado que o computador pensa como um humano.

Este teste é um bom exemplar dos fundamentos da concepção formalista: a equivalência do procedimento sintático-formal com a atividade do pensamento. Para os partidários desta concepção de funcionamento da mente, o significado seria completamente independente da sintaxe e surgiria a partir da relação dos símbolos com uma referência externa. Esta visão ficou conhecida como teoria do código comum ou dual da representação mental. Haveria um único modo de processamento mental e que seria unicamente proposicional. Tal pressuposto ainda hoje se faz presente na pesquisa de alguns importantes cientistas cognitivos, merecendo destaque o cientista da computação e psicólogo canadense Zenon Pylyshyn, que tem atacado com freqüência as pesquisas que visam desconstruir a idéia de que o pensamento é estruturado a partir de regras e proposições codificadas simbolicamente. (THÁ, 2003)

No entanto, as pesquisas que se opõem à concepção de funcionamento mental exclusivamente proposicional vêm ganhando cada vez mais força, a partir do início das pesquisas sobre imagética mental, realizadas a partir da década de 1970. Os precursores destas pesquisas foram Roger Sherpard e Jacqueline Metzler. A partir de seus já clássicos experimentos sobre rotação mental de imagens32, foram levados a supor que a mente humana seria constituída por representações imagéticas, análogas aos objetos físicos percebidos. Se tais descobertas fossem verdadeiras, boa parte das pesquisas sobre a mente humana até então poderiam ser colocadas em xeque:

Os resultados de Shepard colocaram em questão esforços do momento para explicar todo o pensamento em termos de um tipo de mecanismo computacional – o do computador seria digital que processa um tipo de informação. A abordagem típica desta época sustentava que a informação é representada no cérebro em listas ou redes de informação proposicional. (GARDNER, 2003, p.343)

32 O detalhamento deste experimento pode ser encontrado em THÁ (2003) e GARDNER (2003).

A partir de então, uma série de pesquisas questionando o modelo computacional da mente começa a ser realizada. Um experimento de Stephen Kosslyn (1978) – um dos pesquisadores mais representativos desta área, responsável pela elaboração de um sistema categorial a partir do estudo do processamento da percepção visual – demonstra alguns dos pressupostos de pesquisa desta abordagem e da oposição ao modelo formalista. Para a realização deste experimento, eram mostrados aos sujeitos um mapa contendo sete locações fictícias – uma pedra, uma árvore, uma praia, um lote de grama, um poço, uma cabana e um lago. Depois de dar aos participantes uma chance de se familiarizar com o mapa, pedia-se à pessoa que o imaginasse e em seguida respondesse a várias perguntas sobre ele. Por exemplo, pedia-se que pedia-se concentraspedia-se em uma localização do mapa e em pedia-seguida procuraspedia-se uma outra. Em seguida, o paciente era instruído a imaginar um pequeno ponto preto se movendo o mais rápido possível do primeiro para o segundo ponto e em seguida apertar um botão. Quando ele não conseguia encontrar a segunda localização enunciada, pedia-se que apertasse um outro botão. (GARDNER, 2003, p. 344)

A partir da análise dos dados obtidos com essas experiências, Kosslyn concluiu que o tempo para varrer uma localização de A para B no mapa era a função linear da distância entre os dois perceptos no mapa, o que o levou a supor uma varredura mental sobre o mapa que só seria possível a partir da idéia de uma representação mental baseada na percepção visual.

Estas e outras pesquisas levaram à hipótese de que há uma equivalência funcional entre percepção e imaginação. As representações mentais são análogas aos objetos físicos percebidos, e as mesmas regiões cerebrais são ativadas na percepção e imaginação visual (THÁ, 2003). Estas pesquisas apontam uma confluência com as reconhecidas pesquisas neuropsicológicas de especialização hemisférica, a partir do estudo de pacientes lesionados e que tem servido como base para os estudos acerca da linguagem visual, em pacientes surdos (BEHARES, 1993).

Estava assim configurado um campo de pesquisa que, embora tenha pressupostos metodológicos semelhantes aos dos cientistas formalistas, tem concepções absolutamente distintas sobre a natureza da representação mental.

Inicia-se, a partir de então, pesquisas sobre a categorização mental baseada numa concepção analógica da mente humana. Dentre elas, merece destaque os trabalhos de Eleanor Rosch, também na década de 70, sobre a percepção e a nomeação de cores em diferentes culturas. O resultado de suas pesquisas aponta para a idéia de que as categorias conceituais não são estabelecidas a partir de uma visão descricionista ou proposicional, mas que se estabelecem a partir de protótipos (um bom exemplar da categoria a partir da qual são agregados outros elementos mais ou menos representativos da classe). Estas categorias seriam estruturadas em um nível básico, a partir das experiências básicas do sujeito na aquisição de linguagem. Assim, os limites entre as categorias tornam-se imprecisos e passam a ser consideradas motivadas e não arbitrárias.

Estas pesquisas sobre representação mentais analógicas e imagéticas, possibilitaram o retorno aos temas de pesquisa clássicos da psicologia, ao trazer a importância da percepção no centro do debate das ciências cognitivas. No entanto, como é característico do modus operandi das ciências cognitivas, estas pesquisas não ficaram restritas ao estudo da mente, mas influenciou também o destino de pelo menos uma parcela das pesquisas em lingüística, como será apresentado a seguir.

4.3 AS PESQUISAS COGNITIVAS SOBRE A LINGUAGEM: A DELIMITAÇÃO