PRESTAR CUIDADOS – AS PESSOAS QUE PRESTAM CUIDADOS
5. As pessoas empregadas que prestam cuidados
Sendo as mulheres largamente predominantes entre os descendentes que prestam cuidados, a subida dos índices femininos de actividade profissional conduz frequentemente à conclusão de uma redução do potencial de pessoas que poderão prestar cuidados, no futuro. O modelo dinamarquês corrobora aparentemente esta conclusão: nele existe a taxa de actividade feminina mais elevada e a taxa mais baixa de familiares que prestam cuidados, da Comunidade Europeia. Todavia, análises e conclusões menos prematuras levam em consideração o conceito estatal de prestação de cuidados aos dependentes idosos (o Estado dinamarquês assume essa responsabilidade) e a grande disponibilidade de serviços de prestação de cuidados ao domicílio; é assim constatado que a ligação causa-efeito poderá ser inversa: as mulheres têm toda a liberdade para trabalharem porque se encontram libertas das obrigações de tomarem a seu cargo uma dependência grave.
A situação holandesa parece provar antes, a fraca ligação de causa-efeito, entre o trabalho e o papel de responsável pela prestação de cuidados: com efeito, a Holanda distingue-se na Comunidade por possuir o mais baixo índice de actividade feminina mas, no entanto, a prestação de cuidados aos dependentes idosos, pela família, não parece ser superior às dos outros países.
Motivações da acumulação
As pesquisas alemãs colocam em evidência as razões de ordem material: o rendimento, a cobertura pela segurança social (especialmente a aquisição de condições para a reforma), o risco de não voltar a encontrar um emprego, em caso de interrupção temporária do trabalho, que tem assim hipóteses de se prolongar até à idade da reforma.
Estas razões valem muito ou pouco para o conjunto dos países, ainda que se verifiquem diferenças nacionais; na Grécia e na Espanha, por exemplo, a motivação
financeira é claramente preponderante e na França, as pessoas que prestam cuidados parecem preocupar-se pouco com os seus direitos futuros a uma pensão de reforma.
Quanto à perda de rendimentos, em caso de cessação da actividade profissional, é salientado pelo relatório britânico que o subsídio de compensação a que alguns poderão ter direito, nesse caso, "não contrabalança significativamente os inconvenientes financeiros, apesar de constituir uma ajuda, ao nível das despesas quotidianas".
Os seis estudos qualitativos sublinham a importância do ganho não material que as pessoas que prestam cuidados retiram das suas actividades profissionais, apesar de todas as restrições ao tempo livre e de outras dificuldades adicionais que elas sentem. O trabalho é, com efeito, vivido como fonte de satisfação e de valorização, como compensação para manter o equilíbrio e como meio de distanciamento em relação à situação de prestação de cuidados.
Nunca pensei em deixar o meu trabalho (de professora). Ele descontrai-me e penso que ficaria maluca se estivesse sempre em casa. O meu trabalho é fatigante: as crianças são cansativas, mas isso faz-me mudar. (Grécia)
O meu tempo de lazer é o tempo que passo a trabalhar na fábrica. Ali encontro-me com jovens, conversa-se,... Esse é o meu tempo livre. (Espanha)
Mesmo que fosse remunerada pela prestação de cuidados teria dificuldade em deixar o meu trabalho. É interessante e dá-me alegria. (Alemanha)
Razões da cessação ou da redução da actividade profissional
Segundo os relatórios francês e holandês (estudos qualitativos), a cessação da actividade profissional raramente é motivada apenas pela situação de prestação de cuidados. As razões que contribuem para isso são, por exemplo, a possibilidade de uma pré-reforma, o despedimento, acrescido da improbabilidade de voltar a encontrar um emprego, e um trabalho fastidioso e desinteressante. É muito provável que tais coincidências se observem noutros países.
A inexistência de estruturas de acolhimento ou de ajudas informais constitui uma razão que, por si própria, é suficiente para cessar a actividade se as necessidades do idoso se tornarem muito grandes.
O relatório grego levanta a problemática particular das pessoas do campo que prestam cuidados e cultivam parcelas de terra; estas actividades agrícolas são vitais porque lhes fornecem a alimentação de base. Ora, quando os tratamentos e os cuidados adquirem uma grande amplitude são obrigadas a cessar esta produção.
Experiências de cessação de trabalho
Os estudos qualitativos alemão e francês, que incluem vários casos de pessoas que prestam cuidados e deixaram de trabalhar, evidenciam que, geralmente, se tratou de experiências negativas, embora o aumento do tempo disponível para a pessoa que é tratada seja incontestavelmente benéfico. No entanto, isso não compensa os inconvenientes constituídos pela perda do estatuto social, do reconhecimento e do prestígio pela perda das relações profissionais e pela perda dos rendimentos; algumas pessoas vivem a sua nova situação como um atentado à liberdade.
Não é raro que estas pessoas desejem trabalhar de novo, procurem um emprego ou que já o tenham encontrado.
Dificuldades devidas à acumulação
As dificuldades diferem de acordo com a extensão de cuidados que a própria pessoa tem de prestar; e estes variam em função das necessidades do idoso e das intervenções exteriores que as possam minorar.
Intervêm, por um lado, o horário de trabalho, o número de horas fora de casa (trabalho a tempo inteiro ou a tempo parcial; tempo das deslocações) e, por outro, a fadiga que daí advém.
Parece evidente, segundo os diversos trabalhos, que a acumulação do trabalho e do papel de responsável pela prestação de cuidados, raramente é fácil, é constrangente e exige uma excelente organização, que tem de ser tanto maior quanto mais grave é a dependência.
O stress e a concorrência entre as duas actividades, a sensação de fazer mal ambas as tarefas, ou ainda a sensação de culpa são aparentemente as situações mais frequentes.
Quando estou em casa a tratar da minha mãe, a minha cabeça está no escritório. Quando estou no trabalho, preocupo-me com o que poderá estar a acontecer em casa. (França)
Esqueço-me de tudo. Uma vez fui para o trabalho e esqueci-me de me barbear. (Grécia)
Soluções adoptadas
A melhor resposta parece encontrar-se na delegação do máximo de tarefas noutras pessoas, remuneradas ou não, com as quais se possa contar. Algumas pessoas vão até à utilização, durante todo o dia, de uma vigilante diurna remunerada.
A solução de internar o pai ou mãe idosos num lar é rejeitada, de igual modo, pelas pessoas que trabalham e pelas outras (mas apenas foram interrogadas as que continuaram a prestar cuidados). Tendo em consideração as resistências contra as
instituições, parece-nos provável que sejam necessárias várias razões para privilegiar a actividade profissional em detrimento de tomar a seu cargo o idoso.
A adopção do trabalho a tempo parcial parece bastante frequente em todos os países, mas pertence sobretudo às práticas femininas. Esta solução, que permite conciliar os dois domínios, não reveste tantos inconvenientes como a cessação total da actividade profissional.
Trabalhar em casa constitui uma solução ainda bastante rara, mas valorizada pelos que a utilizam, sobretudo quando existe ainda coabitação com a pessoa a quem são prestados os cuidados.