CAPÍTULO 3 As obras e os artistas …
3.1 As Pinturas …
[…] A minha pele são os outros, a minha borda são os outros. E eu acho que, de um modo ou de outro, todos os meus trabalhos lidam com isso. […] (Lilian Gassen, conversa gravada em 12/05/2010)
[…] maneiras e lugares diferentes de olhar, que nunca são estanques, são ao mesmo tempo uma inspiração e um objetivo em minha poética [...]. [Lilian Gassen, projeto Belvedere, 2007)
[...] Você faz parte da obra. Não é você e a obra. É você com o objeto que vira obra. Sem você não tem obra, literalmente. [...T]oda obra de arte é isso. Sem observador não existe obra de arte. (Lilian Gassen, conversa gravada em 12/05/2010)
Segundo O’Doherty, “quando nos tornamos conscientes de estar olhando para uma obra de arte, qualquer certeza sobre o que está ‘lá’ é destruída pelas incertezas do processo de percepção”(O’DOHERTY 2002. p 66). Grosso modo, é por acreditar que uma obra de arte “de qualidade” promove essa consciência do processo de percepção humana que me motivo a produzir arte e ser artista. Por isso, também, não acredito que um objeto de arte possa ser uma afirmação ou uma verdade no mundo, mas pretendo que ele contribua para a ocorrência desse estado de consciência; como quando inseridos em uma paisagem percebemos nossa condição diminuta. [Lilian Gassen, projeto Belvedere 2007)
As frases acima citadas, retiradas de diferentes momentos de uma longa conversa com Lilian e do projeto Belvedere (que
foi submetido ao terceiro edital Bolsa Produção para Artes Visuais/FCC), sintetizam alguns meandros de uma grande questão que,
mais que um ponto de vista sobre algo que Lilian percebe como inerente às artes visuais, é um grande “tema” recorrente em seus trabalhos: a relação entre observadores (necessariamente “outros”) e a obra de arte exposta. Lilian retomou tal questão em diferentes momentos de nossa conversa e em quase todas as vezes que tive a oportunidade de ouvi-la falar sobre seu trabalho no decorrer dos últimos anos.
debruçado nos últimos anos.
Eu tenho um caderno que eu ponho os meus pensamentos sobre arte [,…] ideias de alguns trabalhos […,] coisas que eu ainda não realizei, coisas que talvez eu venha a realizar. […] Isso funciona mais […] pra eu organizar minhas ideias, pra pensar os próximos trabalhos, sabe? Porque esse negócio decriação é um troço muito louco, […] é você tirar leite de pedra. [….] Às vezes [...] não sai nada, [...] daí você tendo um ponto de partida, que são reflexões suas, às vezes facilita. (Lilian Gassen, conversa gravada em maior 2010)
Como parte de suas “anotações”, que incluem tanto textos como desenhos, Lilian começou a fazer os estudos das
Pinturas, são desenhos feitos com lápis aquarelável em metades de folhas de papel sulfite tamanho “A4” com um verso impresso, ou seja, em rascunhos, durante o seu mestrado (em 2006). Como na época não estava produzindo outras coisas que não os desenhos, aproveitava as reuniões do Grupo de Estudos1, para “fermentar as guaches”.
Você consegue entender o que é fermentar os guaches?
Eu lembro de umas pinturas que vi na sua casa...
Isso. Você chegou a ver os estudinhos? [Liliam me mostrou os “estudinhos”]
Fermentar as guaches são os estudos?
Isso. Era o que eu tinha tempo mental para fazer durante o mestrado. Começou assim... Você começou desenhando...
Para ir fermentandoideias […], pra ver o que que podia virar obra e o que que não
1 Grupo de jovens artistas que se reunia periodicamente para discutir os trabalhos de seus integrantes e no qual iniciei a pesquisa deste trabalho.
Imagem 1 Lilian Gassen Estudo 4, 10/04/2006 lápis aquarelável sobre papel de
podia […] E algumas coisas aí você vai reconhecer, tavam na exposição2. Outras não, foram descartadas.[...] Como que você seleciona desses estudos o que pode “virar trabalho” e o que não pode?
[...T]em a ver com a determinada ideia de arte que eu estou pensando […] No caso desses estudos […] numa ideia de arte que construísse um espaço não-hierarquizado […]
[Quando] a composição hierarquiza elementos formais ou informações na obra, ela cria uma ordem de coisas para serem vistas, uma ordem pré estabelecida. […] Figura e fundo, por exemplo. Aqui a figura [Estudo 4] é mais importante do que esse fundo, então hierarquicamente ela é uma coisa mais importante, então você percebe isso claramente […] quando vocêtrabalha no espaço da pintura, no espaço de qualquer tipo de obra […] Hierarquizando certa forma de entender você tá defendendo, [...] levantando uma bandeira com relação até ao teu entendimento de espaço urbano […]
2 Belvedere, realizada no Centro Cultural Solar do Barão, em 2009, junto com outras exposições resultantes dos projetos contemplados pelo Bolsa Produção 3.
Imagem 3 Lilian Gassen Estudo 2, 25/03/2006
lápis aquarelável sobre papel de rascunho Imagem 2
Lilian Gassen Estudo 1, 17/03/2006
lápis aquarelável sobre papel de rascunho
Fazer uma obra de arte [...] que reforça aspectos de hierarquização [significa que,] de certa forma, eu acredito na hierarquização entre coisas diversas. […] Vamos começar pensando que essas pinturas são abstratas, que não tem nenhuma narrativa por trás [delas]. Eu comecei com aqueles estudos, com aqueles desenhos à lápis aquarelável colorido. […] Comecei com aquela coisa circular, que veio do Alvo […,] uma pintura que eu não terminei, ela tá aqui no meu ateliê ainda. Não sei se eu vou dar continuidade ou não a ela ou se ela parou no meio do caminho, vai virar outra coisa... […] Enfim, […] o alvo […] é como uma espécie de espiral... Aíeu fiz aquela outra espiral que é uma faixa de faixinhas coloridas que fazem uma espiral num espaço maior. [Estudo 1...] Eu olhei pra'quilo e falei: “Mais que merda isso aqui, [...] que coisa horrível isso aqui, que coisa óbvia”. Aí eu fiz aquela outro, […] aquele que parece cabelos [Estudo 2], que a faixinha diminui a espessura até chegar naquele cantinho alí, [...] que virou a minha primeira pintura à óleo. Ela virou primeiro o guache... […] Essa eu selecionei porque aquela coisa dela mudar a espessura cria uma tensão visual no espaço que pra mim [...] ficou mais interessante […] no sentido de criar um lugar de tensão... Ele tem tanta tensão que cria uma tensão visual.
Eu não entendo o que você chama de tensão visual.
O teu olho fatalmente vai pra lá, tipo um foco. Olha, [...] isso aqui é um foco [Lilian aponta para o lado inferior do direito do desenho do Estudo 2, onde as linhas se encontram]. E daí isso aqui eu achei uma bosta em termos de foco
[Lilian aponta para o centro da espiral do Estudo 1]. Porque isso aqui é obvio [Estudo 1], isso aqui é uma coisa que qualquer um pode pensar em fazer […], não precisa de muita elaboração mental pra você chegar a [esta] ideia. Agora isso aqui [Estudo 2] é muito diferente, porque esse tipo de afunilamento da faixa, [o fato] d'ela mudar a espessura e ficar cada vez mais fina […] cria uma tensãono espaço que teu olho fatalmente vem pra cá [para o canto em que ela afunila]. E o fato de cada borda dessa aqui [Estudo 2] ficar diferente da outra também faz você olhar pra borda. É um troço esquisito, diferentemente disso aqui [Estudo 1] que faz você só olhar pra dentro, [...]
independentemente das bordas serem diferentes aqui. [Foi] esse tipo de análise que eu comecei a fazer. […]
[O Estudo 6] faz uma continuidade diferente disso aqui [Estudo 3], por exemplo, que mesmo sendo “bonitinho” faz você só olhar [em uma] direção. […] Isso aqui e isso aqui [Estudos 3 e 5] perde o interesse visual, isso aqui também cria uma direção única, então são estudos que eu descartei.
Eles são bem parecidos [Estudos 3,4 e 5]... A linha original, né...
As figuras.
Porque a homogeneidade da faixadá uma homogeneidade [… no] resultado final também.Aí quando tira a homogeneidade da faixa e ela não é mais a mesma coisa o tempo todo, você cria um movimento muito mais louco...
Imagem 4 Lilian Gassen Estudo 3, 27/03/2006
lápis aquarelável sobre papel de rascunho
Imagem 5 Lilian Gassen Estudo 5, 12/04/2006
lápis aquarelável sobre papel de rascunho
Imagem 6 Lilian Gassen Estudo 6, 16/04/2006
lápis aquarelável sobre papel de rascunho
Exatamente. E quando eu vi, [...] percebi isso graças a esses estudos, [...] todo o meu interesse se voltou pra isso. […] Mas eu não fico podando a minha criatividade nessa hora,eu vou fazendo, […] mas já vou refletindo algumas coisas [...] Por isso
[...] chega uma hora que tem um morango no meio. [Estudo 8…] Por que eu pensei no morango?Porque fecham essas formas aqui dentro [Estudo 8] e essas formas […] podem ser qualquer forma. [O Estudo 7] virou uma pintura guache. E virou uma pintura óleo depois […] Todos [os estudos...] têm uma linha que é uma linha de base, […] norteante.
Que é da onde você parte para fazer as demais linhas?
Exatamente. […] Eucomeço um trabalho [...] normalmente assim:eu chuto um retângulo, […] ou quadrado.Faço manualmente […]. Depois disso eu penso nessa linha de base,que nesses casos [Estudo 7 e 8...] é uma linha de base só. (idem)
Às vezes Lilian faz duas ou três “linhas bases”, em sentidos opostos, por exemplo.
E daí daqui [da linha de base] começa a crescer e diminuir as faixas [...na] medida do retângulo [ou do quadrado desenhado
Imagem 7 Lilian Gassen Estudo 7, 17/04/2006
lápis aquarelável sobre papel de rascunho
Imagem 8 Lilian Gassen Estudo 8, 20/04/2006
inicialmente]. (idem)
Lilian selecionou alguns desenhos para serem ampliados em guache sobre papel, e alguns guaches para virarem óleo sobre tela, em dimensões ainda maiores. Para tanto, ela escolheu
o que é bom [...em] relação aos focos visuais, pensando se tem hierarquia ou não entre um lado e outro da tela, do desenho, da pintura. (idem)
As pinturas, tanto em guache como em óleo, respeitam exatamente as mesmas dimensões do desenho
[…] Por isso meus quadros são medidas completamente quebradas, 2,22 cm X 1,98, por exemplo. Você faz essas faixas exatamente como está aqui?
Não […] Eu pego o guache faço uma transparência e passo [apenas] essa linha de base pra tela de óleo, [...]. O resto vai crescendo seguindo essa linha .(idem)
E ganhando outras sutilezas através das texturas das listras e da manipulação das cores.
[…] Eu fico pensando [...] na teoria dos contrastes [...O] meu estudo de cor [...] ele é muito objetivo. Eu fui estudar teoria da cor antes de fazer essas pinturas, [...] Tanto que hoje eu tenho uma bibliografia de teoria da cor gigantesca. […] Eu estudo teórica e praticamente. [...] Porque uma coisaé você ler: “[se] você põe uma [cor] secundária do lado de uma [cor] primária você tem tal efeito”[...] Eu quero ver isso acontecer [...] Eu comecei a usar essas coisas que aprendi em teoria da cor […] nessas pinturas. [...] Já no lápis de cor dá pra ver algumas coisas que em função de uma cor estardo lado de outra cor,numa sequência de várias cores, cria[-se...] uma grande cor local, que é a mistura óptica de todas aquelas faixas […] Então eu comecei a usar isso. [...] Comecei a usar isso nos óleos, mas mais claramente nos guaches. Então cada uma dessas pinturas […]
no guache e no óleotem uma intensidade cromática completamente diferente. Aqui [nos estudos] elas parecem muito iguais. Por que?
Porque tem uma caixa de 24 cores, no guache eu faço mais de 350 cores, no óleo eu faço mais ou menos isso também. Então é mais que uma ampliação...
[…] É perceber essas intensidades cromáticas de campos dentro da pintura e forçar isso acontecer mais claramente [...] No guache e no óleo, que eu tenho uma quantidade de cores muito maior, a escolha da próxima cor é sempre em função desse contraste imediato entre as cores que [estão ao] lado, mas em função de uma mistura óptica da cor pra formar uma vibração dentro de um campo específico que junta várias cores. […] Nesse caso aqui [me mostra um quadro grande que está pintando] eu quero que esse canto da pintura tenha uma tendência pro verde. As escolhas aqui de cor vão ser influenciadas por essa tendência que eu quero que tenha [...] qual tom de verde [vai ser] eu ainda não estou dominando. […] Por exemplo, eu consegui que na pintura óleo dessa imagem aqui [...que] a mistura óptica das cores [...] ficasse inteira prateada. Você olha pra ela, ela vibra prata, vibra cinza. Enquanto que essa daqui no óleo vibra, [...] no miolo, azul; aqui ela vibra verde e aqui ela vibra um violeta. […] Graças a esse meu estudo de cor quejá tem 6 anos [...] que eu comecei a observar que já aconteciam [as misturas] nesses estudos […] Por isso que cromaticamente elas são completamente diferentes umas das outras, porque se eu não tivesse estudo, a facilidade [...] de tudo virar a mesma coisa, de tudo virar a mesma cor [seria grande...,] ou então a cor resultante da soma óptica [...] virar um marrom [...] feio […] Quando você não calcula muito bem a mistura óptica da cor você vai tender fatalmentepra um marrom de “cor-de-burro-quando-foge”
Você consegue me explicar o que que é essa vibração da cor?
[…n]uma pintura dessas à óleo ou à guache a distância vai diminuir o tamanho das faixas [...] Então onde ela já é pequena vai ficar menor ainda. [...] Vem a luz branca, incide sobre a pintura e cada cor daquelas vai se refletir pra chegar nos seus olhos [...] e essa reflexão não é em linha reta. [...] O reflexo de luz é uma curva de onda, [a luz] é uma onda. Então à medida que eu tenho duas cores aqui, uma do lado da outra, e elas estão muito próximas, a vibração luminosa delas [...] vai se sobrepor. Isso é mistura óptica da cor. […] Então você vai poder ver ao mesmo tempo a cor da faixa azul [e da vermelha], mas [também] você vai ver elas se misturando [,...o] que vai [tender] pra um roxo, ou um violeta. E nesses lugares aqui onde a faixa é mais fina com a mistura [...] elas ficam brancas, tudo isso aqui brilha esbranquiçado […].
Imagem 9 Lilian Gassen
Pintura 7
E “qual é” dessa textura [da pintura à óleo]?
[...] Essa textura aqui é porque […] eu tenho a cor que é uma vibração óptica. A cornão existe como matéria, só existe pros nossos olhos e isso daquiexiste pro meu olho e pra minha mão, isso aqui é uma coisa. E a pintura pra mim é uma coisa, ela não é uma imagem só, e isso aqui é o que reforça o aspecto de coisa. Mas é claro que ao mesmo tempo isso aqui é pop no sentido [...] de que é não é uma pincelada expressiva, é quase como uma citação de […] de uma pincelada expressiva.
Como assim?
[...] Essa faixa aqui, com essa espessura de tinta que é uma espessura nojenta [grossa], eu faço [...] não pra me expressar. […] Tem gente que se expressa com a pincelada, né? [...] Eu não tô me expressando, aqui é quase como se eu tivesse fazendo uma citação de alguma coisa, a citação de um autor, porque eu tô citando a pincelada expressiva,[...] Essa rugosidade da superfície que essa pincelada gera me interessa mais porque é uma coisa grotesca [...] ela é feia, [...] ela não é bonita como a sedução dessas cores, dessas ondas, dessas faixas […] A cor e o fluxo das faixas que é o desenho faz você continuar, mais isso aqui faz você parar [o olhar]. (idem)
Imagem 10 Lilian Gassen detalhe Pintura 4 óleo sobre tela, 190 X 202 cm